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23/04/2017

Esquerda e direita no Brasil ou Como ser pobre de espírito


O pensamento político brasileiro está aprisionado. A ideia de estado-nação em termos simples conquistou a maior parte dos intelectuais, e no desenvolvimento histórico dessa ideia o primeiro polo da expressão ganhou todas as atenções, ficando ao Deus dará o segundo. Mas Deus não quer saber de política.

Assim, esquerda e direita no Brasil de hoje reproduzem os mais carcomidos discursos. Ainda estamos no debate do início do século XX, discutindo o quanto devemos ser liberais ou o quanto podemos criticar o liberalismo e propor um estado mais forte. A direita democrática diz querer menos estado, a esquerda diz ser necessário mais estado. É um tédio, uma inutilidade.

O argumento da esquerda é sedutor no Brasil mesmo para aqueles que, em termos de costumes e moral, são conservadores. A fórmula é simples e todo partido que a empunha vence. Assim foi com o PTB-PSD na conta do varguismo e do janguismo, assim foi com o PMDB e assim é com o PT. Qual a fórmula? Um tipo meio que populista de estado da social democracia, ou seja, alguma coisa parecida com o Welfare State: um estado que arrecada muito e que redistribui o dinheiro desses impostos segundo demandas mais ou menos democráticas, tentando ampliar faixas da população com acesso ao consumo, serviços públicos gratuitos e algum tipo de previdência social.

Qualquer pessoa que não seja uma múmia e que tenha um partido com alguma base, com essa plataforma aí, tende a ganhar eleições em países como o Brasil, e até mesmo em outros sem tanta disparidade social e até com carga tributária exagerada e cansativa.  Todavia, de eleição em eleição o que se vê é que essa fórmula, embora atrativa e até certeira em alguns momentos, não resolve problemas básicos quando o outro polo da expressão – nação ou, no Brasil, com certos arranjos semânticos, sociedade – é deixado de lado como alguma coisa com a qual não é necessário se preocupar.

Em lugares em que o estado agrupa nações, essa discussão está sempre em pauta. No Brasil, tomamos o termo “nação” de modo pobre, quase que à parte do termo “sociedade”, e temos a ideia de que a nação está mais sólida que nunca, e então resta ficarmos conversando sobre o estado – mais estado para uns, menos para outros. “Mais do mesmo” em todas as campanhas políticas. É desinteressante isso, e ineficaz.

Não conseguimos perceber que se não mexermos no outro polo, o da nação e que, enfim, envolve a vida social, não vamos andar adiante. O que chamamos de nação é algo coeso perto do que leva esse nome em outros países, mas extremamente fraco em termos de energia. Falta-nos não nacionalismo, mas orgulho do que fazemos socialmente e apreço em desenvolvermos coisas que possam se chamar de nossas. Não consideramos o que é público como sendo nosso. Em alguns casos, nem mesmo o que é nosso privadamente é alguma coisa pela qual nos orgulhamos. Em outras palavras: somos vítimas da ideia de que só há uma fórmula, à esquerda, de benefício social, a arrecadação de impostos e a distribuição direta pelo serviço do estado. Não nos passa pela cabeça que grupos sociais ou pessoas individuais poderiam, por escolha própria, tomar à frente criando instituições e situações de sua livre escolha, procurando mantê-las. Uma nação povoada de iniciativas assim fortaleceria o que Peter Sloterdijk tem chamado de uma sociedade timótica (thymos), e não simplesmente erótica (os guardiões da República platônica eram soldados, protegeriam a sociedade por conta do aguçamento do thymos, ou seja, aquela parte da alma que faz com que o orgulho crie a identidade).

Mas não conseguimos acreditar nisso. Tanto é que quando criamos ONGs, a primeira coisa que fazemos é recorrer ao financiamento estatal, e não raro desviamos o objetivos do que criamos. Não criamos instituições para nós mesmos cuidarmos como o que receberia uma nossa expressão do tipo “isso aí é nosso, faz parte de nossa identidade, é brasileiro (ou é paulista ou é da cidade X ou da família Y).”

O pensamento conservador liberal, no entanto, não faz diferente. Prega não a criatividade da nação no sentido da geração de instituições e situações necessárias, mas apenas a privatização de coisas que o estado criou, e isso a fim de administrar e ganhar dinheiro. Mas às vezes apenas para ganhar dinheiro, nem administrar  querem. A iniciativa privada brasileira não é a iniciativa do orgulho, mas a iniciativa em função de caixas de arrecadação. Isso é tão verdade que mesmo aquelas famílias que possuem, por exemplo, uma universidade, se puderem se livrar disso por meio de uma boa bagatela, não hesitam nem um pouco em vender tudo para qualquer grupo estrangeiro. Os privatistas no Brasil, quando são proprietários e empresários, não querem tocar seus negócios com orgulho do que possuem, querem apenas ter algo para repassar. Fazem com suas próprias empresas o que aprenderam fazer desde o Brasil colônia: extração do que a terra tem, até à exaustão, e especulação imobiliária.

Em outras palavras: se a esquerda, presa ao estado, não desenvolve um sociedade timótica, de orgulho de sua criatividade e de zelo pelo criado, também a direita liberal não faz isso. Uma fábrica ou uma casa de joias ou de vinho ou até uma creche e uma escola são entregues ou pelo melhor preço ou simplesmente porque os filhos dos donos brigaram ou, pior ainda, porque ninguém da família herdeira tem qualquer amor pelo patrimônio criado. O que é do estado não é de ninguém e o que é de um dono é de quem oferecer uma passagem para o  ou os filhos do dono irem embora para a Europa, ou conseguir gastar dinheiro em lugares que só Berlusconi gastou.

Nossa esquerda e nossa direita são pobres filosoficamente e nossa política está nas mãos de restolhos dos que pensam pobre. Nossas elites do pensamento e do dinheiro seguem isso. Infeliz do filósofo que defende uma direita e uma esquerda desse modo aí. E isso não falta. Não falta filósofo que não passa de ideólogo.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014).

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3 Responses “Esquerda e direita no Brasil ou Como ser pobre de espírito”

  1. MARCELO CIOTI
    15/05/2014 at 11:12

    Vá explicar isso pros blogueiros
    pagos pelo PT,por exemplo.Se
    você for contra a roubalheira na
    Copa do Mundo,te chamarão
    de coxinha e neoliberal.Aliás,
    o que é aquele comercial do
    PT que passou na TV,hein?
    Parece que foi dirigido pela
    Regina Duarte….

    • Gérson
      16/05/2014 at 04:31

      Obrigado pelo exemplo, seu comentário é ilustrativo em relação ao conceito do que é thymos e suas deficiências em nossa sociedade.

    • MARCELO CIOTI
      16/05/2014 at 12:12

      Pior é a Barbara Sapatona Gancia.
      Só ela e seus puxa-sacos na
      Folha acham que a Copa vai
      beneficiar o povo.Ela quer dar
      a bunda pra alguma petista,
      mas como não consegue,
      espera baixar o caboclo do
      Nassif pra escrever colunas
      a la Carta Capital.Valeu pela
      resposta,Gerson.Um abraço.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo