Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

30/05/2017

Pequena biografia do Espírito a cavalo


O estado em que Kant deixou a filosofia incomodou sobremaneira Hegel. Kant havia dito que para a existência da pessoa, ou seja, do sujeito moral, era necessário que o indivíduo humano viesse a se comportar contra a sua inclinação e a favor do seu dever. Como assim? Bem, todo cuidado aqui é pouco!

Os nomes aqui podem enganar. Pois a palavra “dever” pode não nos soar como algo próximo da liberdade. Mas, para Kant, o dever vem da razão e, portanto, se põe contra a nossa prisão no curso da vida natural, o campo dos desejos e similares. E não se trata da razão alheia, mas da nossa própria razão. Colocar-se na obediência da própria razão é, para Kant, sair da “menoridade”, ganhar a liberdade de poder fazer o que tem de ser feito, ou seja, obedecer só a si mesmo, em outras palavras, ter autonomia. Auto e nomos: autoria própria nas leis que segue. Qual lei? Uma lei racional inerente ao eu, um dever de consciência, com um grau de formalidade alto. Uma lei cuja característica racional é a de fugir da contradição: a pessoa, o sujeito moral age segundo uma regra que, para valer, tem de se mostrar universal.

À primeira vista esse princípio ético-moral é excelente, ao menos no sentido da formulação de uma postulação ética para a modernidade. Em uma época pautada por negócios, não se pode estranhar que tenha surgido uma ética nada confiante naqueles que fazem negócios, e exijam deles algo como “princípios”. O princípio ético moral kantiano rompe com os desígnios da ética britânica do utilitarismo. A ideia de que a ética deve procurar o que é útil no sentido de tornar os homens mais felizes e, portanto, menos submetidos ao desprazer, tem um pé no hedonismo antigo, primo da noção de eudaimonia. Mas Kant separou ética de prazer ou felicidade. A ética tem de obedecer a razão, segundo o princípio do imperativo categórico formal. Funciona mais ou menos assim: não posso mentir nem mesmo em “benefício da humanidade”, uma vez que a mentira não pode ser universalizada, pois se o fosse isso faria a própria expressão “devo mentir” tornar tudo uma grande confusão. Kant foi visto, corretamente, como instaurando uma ética autenticamente moderna. Os rigores de uma racionalidade iluminista não poderiam ser mais bem representados no campo da filosofia prática!

Todavia, sabemos o quanto custa para nós, no cotidiano, nos acharmos moralmente saudáveis se não mentimos para a polícia – uma polícia que não precisa ser nazista, pode ser uma polícia legítima – quando esta está buscando aquele nosso amigo que acabou de matar um homem, e está escondido em nosso porão. Nessa hora, cumprimos antes com a lealdade que com o dever moral kantiano. Mentimos. Para tudo pedimos “princípios”, em geral kantianos, para não balizarmos a moral. Mas, ao mesmo tempo, nos pegamos acreditando que para ser uma pessoa, uma boa pessoa, temos de agir moralmente na base de algo bem diferente de princípios racionais pedidos por Kant.

Por isso mesmo Hegel se sentiu profundamente incomodado com a filosofia ético-moral denapoleão Kant. Enquanto nossos desejos, impulsos, lealdades, amores correm por um lado, nossa razão e nossa vontade racional devem correr por outro. Seria como se a razão devesse ir contra a vida. Hegel notou bem isso, que a razão vai mesmo contra a vida, ela limita a vida. Mas, o que seríamos nós sem a razão? Seríamos alguma coisa que não os nossos parentes ursos, cães e libélulas? Poderíamos estar falando em conduta ético-moral se não tivéssemos, pela razão, saído da condição natural, animal, para nos portamos como seres vivos racionais e, então, sujeitos morais, pessoas? Não! A razão limita a vida e ao mesmo tempo ela tem um princípio que não é só o instrumental, o do cálculo, o de busca dos melhores meios para atingir fins; a razão também é a fixação de objetivos, de posições-além, de alvos postos teleologicamente para nos tornamos melhores. Hegel viu que o sujeito racional pensante só pode existir corporificado, e, portanto, como um ser vivo na terra, e que carrega em seu interior o conflito. Um conflito com conotação de título de romance. O conflito entre razão e sensibilidade. Hegel não viu esse conflito como alguma coisa estranha, mas algo inerente à boa descrição ontológica de nós mesmos. Todavia, um conflito não permanente e sem solução, mas uma oposição entre identidade e diferença, entre o humano natural como humano natural versus o humano racional que se diferencia do natural, mas com uma instância de conciliação: a identidade entre identidade e diferença. Essa oposição teria esse terceiro termo capaz de abraça-la e apaziguá-la. O que seria esse apaziguamento?

O eu ou o si-mesmo, o sujeito, deveria ver que sua própria racionalidade não seria algo oposto à natureza (interna ou externa), mas que esta também seria manifestação de um plano racional. Assim, ser racional e se por contra elementos da natureza seria algo natural à medida que racional. Reconhecer-se nisso, ou seja, ver-se pertencendo ao desdobramento de um espírito cósmico (uma razão infinita), seria um modo de fazer esse próprio espírito cósmico não ser um deus do panteísmo, mas um espírito cósmico cuja função maior seria o autoreconhecimento. O espírito cósmico se reconhece, ganha consciência de si, porque provoca em cada espírito finito, o homem, a consciência plena de si, ou seja, a sua participação na vida como veículo do espírito cósmico. Ao notar isso o homem amplia sua consciência de si e o espírito cósmico, o Geist, se torna plenamente autoconsciente.

Por isso mesmo Hegel falou em “astúcia da razão”. Quando olhamos o mundo pelo nosso entendimento (Verstand), vemos as coisas parcialmente e as tomamos como caóticas, sem propósito, sem sentido, mas quando, mais tarde, olhamos o mundo pelo olhar da razão (Vernunft), que é nossa razão, captamos o que fez a grande razão, o Geist, e que sua façanha tinha de ser levada adiante. Foi assim que Hegel falou de Napoleão como sendo o “Espírito do mundo a cavalo”. A ordem burguesa tinha que ser realidade porque ela era a instauração de um mundo novo, mais racional à medida que mais promotor da liberdade, e a razão tem mesmo esse comprometimento com a liberdade (mantendo aí o postulado de Kant). Para entender o Espírito a cavalo, deixando de lado toda visão parcial que via em Napoleão o massacrador imperialista dos povos, era necessário sair dos limites do entendimento, ir para o campo da razão própria que, nessa hora, é informada pela grande razão, pela Razão do mundo, que ela está agindo e que os propósitos dela são nobres. Conhecer tais propósitos em sua grandiosidade e ligar a razão finita aos destinos postos pela razão infinita, e ver então a história dos homens, de cada homem, como a corporificação do Geist, isso é a tomada de consciência pelos homens e realização da autoconsciência do Geist.  Nessa hora o Geist é então um autêntico sujeito. O próprio Hegel se via, como filósofo, como capaz dessa vida harmoniosa em relação ao seu destino e como uma figura principal, ao produzir filosofia, nessa tarefa de ser cavalo do Geist na sua realização, que é também sua autoconsciência. Ou seja, a filosofia é a compreensão máxima e a exposição dessa tarefa do Geist como sua realização enquanto autoconsciência. Hegel falou entusiasmado de Napoleão quando o viu passar para ir derrotar os exércitos de sua própria terra, os exércitos prussianos. Provavelmente Hegel assim fez após ter sua casa invadida pelo exército francês!

A subjetividade de cada um de nós e a subjetividade do Geist criam uma harmonia entre si e se realizam no reconhecimento. O Geist se torna uma subjetividade autêntica se se realiza como subjetividade, ou seja, mostrando autoconsciência, o que faz à medida que cada subjetividade finita – através da produção da religião, da arte e da filosofia (1) – se mostra capaz de se ver como veículo do Geist. Religião, arte e filosofia são expressões da subjetividade finita no reconhecimento da união entre o finito e o infinito, e por isso mesmo esses três campos da cultura também são a própria realização da subjetividade infinita, que nisso mostra sua autoconsciência, o Geist corporificado. Essa situação circular é o que Hegel propôs como uma visão do eu moral, do sujeito moral, como alguma coisa para além de Kant.

O quanto o século XIX e, principalmente o XX, consegui dar crédito e prestígio a essa ontologia, sabemos bem, foi algo limitado. Mas Hegel não desapareceu tão logo a ontologia do Geist passou a não ter tantos simpatizantes, pois a teleologia da razão ganhou novas formas de aparecer na história. O marxismo trouxe esse aspecto do Geist para a história em suas determinações materiais. O pragmatismo ficou com o holismo do sistema hegeliano, e encontrou no pragma (uma palavra grega prima da palavra práxis) as façanhas das relações cósmicas e, portanto, também humanas (inclusive a linguagem), a atuação que Hegel havia colocado nas costas do Geist. Com essas duas filosofias, e talvez outras por outros caminhos, Hegel ganhou sobrevida no século XX. Só muito recentemente temos recuperado Nietzsche, lá do final do século XIX para trazê-lo como coqueluche do século XXI, e então tentar deixar de lado Hegel. Nietzsche desconfiou não só da teologia, mas da própria competência do Geist, uma vez que ele tinha de se comportar como uma instância subjetiva, uma subjetividade, um sujeito enfim. Nietzsche recuperou leituras de Pascal e Hume para desconfiar do eu, do sujeito.

Assim, Nietzsche parece ser nosso parceiro atualmente, quando todos nós estamos preocupados em descrever o mundo como não tendo eira nem beira, sem qualquer “astúcia”, como não tendo nenhum sujeito realizando a história montado em cavalo ou dentro de tanques e aviões com mísseis. Temos só tanques, aviões e mísseis. Não à toa eles não são mais pilotados, que é para que possamos ver que não há nada os comandando. Podemos até inventar que há “o Capital” fazendo isso, mas logo em seguida rimos dessa conclusão.

1) Religião, arte e filosofia falam a mesma coisa em diferentes línguas, são testemunhas do Geist.

Paulo Ghiraldelli Jr., 57, filósofo e professor da UFRRJ. Diretor do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA – cefa.pro.br). Entre outros publicou pela Editora Cortez mais recentemente A filosofia como crítica da cultura (2014).

Tags: , , , , , ,

2 Responses “Pequena biografia do Espírito a cavalo”

  1. Bruno
    08/04/2015 at 21:32

    Paulo, que relações podem ser estabelecidas entre o Geist hegeliano e o conceito de modo de produção capitalista no marxismo?

    • 08/04/2015 at 21:58

      Bruno dá uma vontade de falar que são primos não? Mas é melhor não.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo