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22/10/2017

O espelho de Lula e a sombra de Rousseau


O PT é visto hoje como uma organização partidária corrupta por uma parte considerável de brasileiros. Dentre estes, há os que acham que isso não se deve única e exclusivamente ao caráter moral de alguns petistas, mas ao modo de funcionamento da política de esquerda. Há base na filosofia para se pensar assim?

De fato, existe no pensamento nascido no século XVIII, especificamente em Rousseau, o germe de uma certa confusão estabelecida pela esquerda entre justiça social e justiça comum. Se seguirmos a leitura do mais importante filósofo alemão da atualidade, Peter Sloterdijk, temos a obrigação de reconsiderar essa tese.

Sabemos bem que Rousseau trouxe para os movimentos populares a ideia de que todos os males surgiram quando o homem cercou um terreno e disse “isso é meu”. Esse foi seu pecado original. Desse modo, para minorar essa falta, as esquerdas, que surgiram posteriormente, vendo em todos os proprietários os principais herdeiros desse pecado original, buscaram redimir tais pecadores lhes oferecendo várias chances de perdão. Uns falaram em impostos, de modo a fazer os proprietários pagarem pelas posses; outros falaram em impostos compensatórios, de modo a fazer os proprietários pagarem pelas posses e ainda criar benfeitorias para os  de nenhuma ou pouca posse; por fim, uns terceiros falaram em eliminar posses, promovendo a nacionalização dos meios de produção. Liberais, social democratas e comunistas, respectivamente, assim agiram angelicamente de modo a salvar a alma pecadora dos proprietários.

É claro que um pensamento assim, acabou por confundir a justiça social com a justiça comum. A primeira busca fazer os mais poderosos humilhar menos os não poderosos. A segunda põe penas para os que cometem infrações contra a vida e a propriedade. Todavia, se a propriedade é, na sua origem, um pecado, ou seja, um tipo de roubo, então a justiça comum que cuida do roubo acaba se confundindo com a justiça social que busca conter a mão dos poderosos se estes a levantam contra os mais fracos. Eis que impostos crescentes ou mesmo a socialização dos meios de produção se confundem com o que pode ser o anti-roubo ou simplesmente o roubo do roubo. Ora, sabemos bem que “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”. Com cem anos de perdão, o ladrão que rouba ladrão nem deve ser considerado ladrão. É nessa hora que os que tomam coisas dos outros, tendo como justificativa a afirmativa de que estão tomando aquilo que o proprietário recebeu sem direito, podem se achar antes como administradores da utopia que como ladrões. Esse mecanismo pode jogar um sindicalista ou um líder partidário dessa linha popular ou todo um partido para frente de um espelho que o perdoa facilmente. Um espelho assim pode não só perdoar, mas dizer para o original da imagem que ele está fazendo um sacrifício ao ter que criar redistribuição de renda, seja lá como for.

A linha divisória borrada entre justiça e justiça social conduz, então, os partidos de esquerda, por conta de certo rousseauísmo que pula Marx para ir direto para o colo de Lênin e Stalin, a servir como o que dá voz ao espelho mágico que diz para o Lula, sempre: “você é o homem mais honesto do mundo”. E então o PT fala em coro, repetindo o espelho, “é verdade”. E todos vão para a Av. Paulista entoar o lema preferido deles: “quatro patas bom, duas patas ruim”. E de quatro, apanham o pão com mortadela do alto da condição de príncipes vingadores.

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo, professor da UFRRJ. Site: ghiraldelli.pro.br

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2 Responses “O espelho de Lula e a sombra de Rousseau”

  1. Correia
    21/03/2016 at 14:43

    Robin Hood?

  2. Luma
    21/03/2016 at 10:35

    Seu melhor texto até agora, Paulo. Excelente mesmo!

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