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30/05/2017

O filósofo (esferologista) como médico da cultura


Peter Sloterdijk e o filósofo como médico da cultura. A esferologia a partir de Heidegger, a favor de Heidegger e contra Heidegger. 

“O ‘sujeito’, o Dasein, se bem entendido ontologicamente, é espacial”, escreve Heidegger.[1] Peter Sloterdijk não deixa essa frase passar e lhe escapar, bem como outras em que Heidegger anuncia não algo como Ser e tempo, mas o que seria bem mais fundamental, “Ser e espaço”. Por que espaço?

Porque por mais que o do ser-aí seja histórico e, assim sendo, nos dê o Dasein como o que se mostra fora das abstrações que buscam tradicionalmente descrever o homem, colocando-o sempre em uma linha de etiquetagem de ideias preconcebidas – “filho de Deus”, “animal racional”, “animal político” etc. –, a historicidade completa necessita de ater-se ao espaço. Fora disso, o “aí” do ser-aí ainda seria, também, uma abstração. O Dasein não pode esbanjar historicidade se não esbanja espacialidade. Tomar o Dasein como o que não é algo somado às suas condições, mas é tudo que chamamos de “aí”, é tomar o homem como o que é uma contínua existência – e algo assim não é nada senão o que habita e co-habita.

Ao homem não é dada a chance de vir ao mundo sendo alguma coisa. Desde o primeiro momento, o homem ou, melhor dizendo, o que será o homem, é antes de tudo um “aí”. Não há como desconsiderar, como foi desconsiderado pela maioria até muito recentemente, as fases pré-orais, que Peter Sloterdijk, baseado em Thomas Macho, nomeia em três tempos. Trata-se da transmutação da esfera ressonante segundo a predominância do meio que é o líquido amniótico fundido ao sangue e outros elementos placentários, depois o destaque para a predominância da vibração sonora propriamente dita e, enfim, a predominância do início do esforço, com a respiração. Nessa transmutação da esfera, permanece durante todo o tempo a ressonância sonora, com formas de simbiose garantidora de sinestesias várias. Este “aí” que é, nessa teoria, um “entre”, um “meio”, não é algo acoplado ao homem, mas é o próprio homem. A proto-história da subjetividade é a história da subjetividade enquanto história da intimidade. As transmutações da esfera íntima, captadas pelo “arqueólogo da intimidade”, é a história espacial de nós mesmos enquanto nós mesmos. Assim tomando o Dasein, conseguimos efetivamente nos livrar de qualquer substancialismo individualista que possa se apoderar dele, traindo o próprio Heidegger. Pois essa intimidade só se faz como no mínimo um duplo em ressonância, que é, enfim, a própria esfera.

O problema do Dasein ou do homem é especial e particular então: o que acontece se na transmutação das esfera, ou seja, o espaço que se transforma imerso no tempo, algo de errado venha a ocorrer? A resposta de Sloterdijk é seca: psicose. O homo sapiens e seus pets têm o privilégio de se tornarem bem cedo uns psicóticos. [2] A catástrofe da esfera em um de seus momentos de mutabilidade resulta na psicose e não é à toa que tal patologia seja um tema da modernidade, sendo esta uma época de mudanças de fronteiras e, portanto, de possível desajuste no que se espera de esferas se transformando em harmonia. “Dasein ist Designer” é um lema sloterdijkiano, porque o homem é um construtor de lares, de algo como “o dentro”, e nisso coabita. Quando esse projeto contínuo tem sua ressonância interna impedida, que é o próprio meio, conteúdo e fronteira da esfera, as coisas então vão de mal a pior. Não há o Dasein no exterior, a não ser como falha. E se o meio básico de continuidade é o som, então está correto Nietzsche ao dizer que “a vida sem musica seria um erro”. Uma falha.

Aqui e além; feto e placenta + cordão umbilical + líquido amniótico + sangue; elementos da placenta e vibração sonora; feto-criança e desaparecimento do cordão umbilical + placenta; finalmente criança e ar + mãe + não-mãe. Esses estágios descrevem as transformações da esfera. Um momento tenso: o da substituição da placenta, como companheiro e polo inicial do duplo, pela pura vibração sonora que, enfim, passará para o plano audível-psíquico com o daimon, gênio, anjo da guarda e similares. Nessa transição, uma primeira catástrofe da esfera pode ocorrer, colocando o homem, então, na situação de ficar “fora” e perder seu duplo. Uma vida sem música do gênio é um erro, uma falha.

Nessa teoria, o filósofo não pode ser outra coisa senão um tipo de médico da cultura, alguém que se converte em um “imunologista da cultura” e efetivamente aborda como este “hibernante humano” pode se instalar e se aclimatar. Quem não faz isso, diz Sloterdijk, funciona antes como professor de filosofia que como filósofo. É um passageiro, um consumidor de produtos culturais apenas, não um teórico da cultura.[3] Um teórico da cultura é um esferologista.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

[1] Sloterdijk, P. Sphären I. Blasen. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1998, p. 343.

[2] Idem, ibidem, p. 333.

[3] Sloterdijk, P. O sol e a morte. Lisboa: Relógio D’água, 2007, p. 176.

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Filósofo