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27/06/2017

A escola não pode ser neutra? Como não?!


Um pouco de perspicácia na conversa sobre o projeto Escola Sem Partido talvez valha a pena. Sempre há aqui e ali os não fanáticos que podem aproveitar. É o que segue abaixo. 

A ideia moderna de conhecimento implica em objetividade. Ou seja, o que é posto por um sujeito, apesar de posto por ele, tem poderes de se apresentar em suas características e propriedade básicas, como objeto, sem que se possa falar que se trata de uma miragem do próprio sujeito. É possível essa “objetividade”? Resolver esse problema, o da imagem do pássaro preso ao visgo que permite que possamos ver o galho, o visgo e o Pássaro sem confundi-los mesmo ligados, é o que se propõe Hegel, na esteira e crítica de Kant. Assim ele anuncia sua tarefa na Introdução à Fenomenologia do Espírito.

Hegel criou uma solução para esse problema. Vários outros filósofos, antes e depois dele, procuraram outras. São os caminhos técnicos da filosofia. Mas nenhum deles cometeu a sandice de dizer “tudo é ideológico” ou “tudo é político” ou “a objetividade é impossível”. Nem mesmo os que falaram coisas assim, estavam de fato as endossando de modo absoluto. O caso do meu amigo já falecido, Richard Rorty, é emblemático. Ele se negou em dizer que havia a objetividade e, portanto, a neutralidade, mas ao mesmo tempo ele construiu uma ponte para dizer que havia um modo de conversar com perspectivas diferentes que não era o mero “ouvir um lado e ouvir outro lado” e “debater”. Rorty sabia que essa técnica jornalística nada tinha a ver com a filosofia, menos ainda com a ciência. Rorty sabia que esse senso comum dos não objetivistas era um senso comum de galinha pintadinha. O que ele disse que havia era a solidariedade. Ela seria um substituto para a objetividade? De certo modo sim, mas como?

O lema de Rorty era triplo: 1) “antes esperança que conhecimento”; 2) “cuidemos da liberdade e a verdade se arranjará por si mesma”; 3) e, por fim, “antes trust que truth“.

 (1) O conhecimento põe autoridade, a esperança põe atividade e futuro, desejo de chegar, motivação. Quem acha que sabe, dá ordens. Quem tem esperança dá ânimo. É melhor. (2) Quem toma conta para que a liberdade não se extinga, permite as milhares de perspectivas, quem não age assim e vive no clima de não-liberdade nunca saberá se sua verdade já não foi contestada. (3) E então, quem quer chegar a um enunciado (ou teoria) que mereça o rótulo de “isso é verdade”, deve antes de tudo confiar em inúmeros outros dos quais nem sempre se pode afirmar algo, a não ser uma crença por confiança. Articulando esses três lemas-procedimento podemos ter algo que substitua a objetividade e que não seja muito diferente do que ela promete, ou seja, algo com que possamos garantir um nível de neutralidade ao circunscrevermos um conteúdo de pesquisa, investigação, estudo, abordagem e divulgação. Essa situação permite que a escola possa ter, de fato direito e de fato, uma aspiração ao que, tradicionalmente, chamamos de objetividade e neutralidade. Chega-se a um conhecimento aceitável. Aceitável para os que já vivem na tradição da escola, do conhecimento escolarizado, e, claro, de modo mais difícil para desescolarizados, auto-didatas “gênios” e o senso comum de cabeça-dura.

Assim, rortianamente, evitamos o destempero do “tudo é político” ou “tudo é ideológico”, que levaria a escola a ser algo como um partido, um grande partido com disputas internas de suas correntes. Desse modo, podemos levar a sério a proposta da “Escola Sem Partido”, ao menos no seu ideal que, enfim, já vem sendo realizado na medida do possível. Podemos então, chegar fácil à conclusão que a Escola Sem Partido, em seu pedido, está basicamente correta, mas em sua forma ela é inútil. Não se pode instituir por decreto o que ela quer. Caso a neutralidade e a objetividade, refeitas pelo que disse acima, venham por decreto, exteriores aos critérios do próprio saber que, enfim, diversifica os critérios de objetividade e neutralidade, que então se deslocam de modo peculiar para cada campo do saber, o que ocorrerá é a situação policialesca, não a situação de liberdade. Não tendo liberdade, a própria objetividade não ocorrerá. O projeto da Escola Sem Partido, se levado a sério pelo que seria sua essência racional, ao se realizar inviabilizaria seu objetivo. A neutralidade e a objetividade, do modo que eu as apresentei, dependem da liberdade inerente ao desdobramento das perguntas do próprio saber. O saber lança questões que se tornam tão autônomas em relação às cabeças do homens, que há momentos que vários pensadores resolveram não dizer que eles é que os formularam, mas que foram mensagens dos deuses (como Parmênides atribuindo a lógica e a ontologia que ele pronunciava em seus poemas fossem recados das Musas – de tão objetivo era aquilo, que ele sabia que não vinha dele).

O erro dos conservadores é o de querer livrar a escola das esquerdas, sem notar que a escola por si só já se colocou longe de partidos. A escola já se propôs, como escola, a trabalhar com os clássicos, com a objetividade posta pelos clássicos. Eles já são objetivos e neutros (dentro do conceito rortiano) por conta da condição de preservarem a particularidade no âmbito da universalidade, como saberes necessários de uma determinada cultura. O erro das esquerdas é, ao tentar se opor aos conservadores, desconsiderar os clássicos, e declarar que eles também não seriam neutros e objetivos, que tudo que se ensina na escola é “político” ou “ideológico”. A esquerda destrói a escola ao querer defende-la da proposta da direita. A esquerda ignorante é formada pelos que pavimentam de boas intenções do inferno. Dou um exemplo do poder dos clássicos. Peguemos a cadeira de sociologia, e peguemos o conteúdo chamado “Karl Marx”.

Ninguém aprende Marx tomando-o antes de tudo como um socialista que faz o bem e este bem é o que tem de ser seguido. Quem começa assim, ou mesmo termina assim, é néscio, não tem nada a ver com a escola. Aprende-se Marx ao entrarmos nele e vermos como ele resolveu um problema posto pela Economia Política, e que as teorias de Ricardo e Smith não conseguiam resolver. De modo algum essa via convence alguém de que o socialismo é bom. Essa parte, de se achar que é bom (ou era) é dada fora da escola, nas necessidades culturais e sociais da vida. Sindicatos, partidos, disputas familiares, embates psicológicos e dramas ecológicos postos por determinada literatura podem levar alguém a, em determinado momento, achar que “socialismo tem a ver com o que quero”. Mas isso, quando dito de modo consciente, sem fanatismo, é porque antes, na escola, se aprendeu a ler Marx pela via de seu problema objetivo deixado por Ricardo e Smith, o da valorização (extra) da mercadoria. Assim são todos os clássicos.  Eles nos chamam para uma crescente isenção de leitura. A escola que os tem como elemento consagrado, pode sim se dizer neutra. É assim que funciona o que podemos chamar de “epistemologia escolar”, que embasa a cultura escolar ocidental moderna.

É difícil explicar isso que expliquei para quem nunca fez ciência ou filosofia, ou quem nunca leu os clássicos de modo inteligente, ou nem mesmo sabe o que a escola no mundo todo ocidental faz. Então, é difícil explicar tanto para a direita quanto para a esquerda, que a escola já é sem partido, e que se aparece um professor ou um aluno que, por serem de partido, não conseguem ler os clássicos, algum bom professor vai reprovar o tal aluno, e algum bom aluno vai desconsiderar aquele professor.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo 20/07/2016

 

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17 Responses “A escola não pode ser neutra? Como não?!”

  1. Jair Feitosa.
    22/07/2016 at 01:33

    Paulo, você apontou que o projeto da Escola Sem Partido se levado a sério pelo o que seria a sua essência racional inviabilizaria o seu objetivo, a situação policialesca. Tudo bem.

    Pode também ter seu objetivo inviabilizado se o professor não citar o nome do autor da ideia (num contexto extremo de policiamento de divulgação de ideias “esquerdistas”), mas fazer análises e proposições de tais ideias?

    Dessa forma aqueles que policiarão os professores terão de fazer aquilo que querem proibir, a leitura dos pensadores de esquerda, para apontarem a tal esquerdização, ou pregação de ideias esquerdistas?

    Como existem centenas de milhares de professores deverão, então, existir igual número dos que estarão dispostos a fazer o policiamento do trabalho do professor. Vai ser a época em que existirão muitos “leitores” de pensadores de esquerda.

    Isso não inviabilizaria também o objetivo de tal projeto?

    Falou.

    • 22/07/2016 at 02:12

      Jair o que eu falei já basta, qualquer pessoa que sabe como funciona uma aula de verdade sabe que qualquer interferência que impeça a liberdade acaba com o ensino. Mas vai explicar isso para a direita e para a esquerda que não frequentaram escola de verdade!

  2. Rogério Moreira
    22/07/2016 at 01:27

    Porra, Paulo Ghiraldelli! Mais claro do que isso somente o Hegel!

    • 22/07/2016 at 02:13

      Rogério, Hegel neutro? Meu Deus! Aí é que não. Aspiração à objetividade é própria dos clássicos, e foi o ensino que eu tive e muitos da minha geração.

  3. Francisco
    21/07/2016 at 02:38

    Ok, resolvida a questão da neutralidade na escola com base no pressuposto de que existe uma “epistemologia escolar” ideal, o problema não estará sendo propagado para uma ideologização epistemológica? Por exemplo, quando o professor decide quais clássicos serão apresentados no ano letivo ou qual perspectiva de ciência é a que será adotada nas aulas de física (Popper x Kuhn x Feyerabend x Foucault), não estaremos novamente maculando a suposta neutralidade escolar?

    Não precisamos ir muito longe: basta constatarmos que existe uma epistemologia vigente, ideológica e incontornável em muitas faculdades de cursos cujos nomes empregam a palavra “Ciência”, como “Ciência da Computação”, “Ciências Econômicas” ou “Ciências Jurídicas”. Geralmente, o que vemos nestas e muitas outras ciências são versões altamente questionáveis sobre o fasificacionismo de Popper. Na maioria desses cursos, os professores se dizem cientistas, mas sequer sabem os pressupostos sobre os quais suas teorias estão calcadas. Talvez jamais tenham falado em Popper e muito menos de seus críticos.

    Para mim, o buraco é um pouco mais embaixo. No momento em que certos pressupostos são adotados em detrimento de outros, já está ocorrendo um processo de enviesamento ideológico. Não vejo a escola de hoje (ou de ontem, e muito menos a universidade de hoje) preparada para apresentar com isenção esse cardápio epistemológico, exceto, quem sabe, em cursos de filosofia.

    • 21/07/2016 at 09:53

      Foucault no ensino médio? Tem dó né. Lei de Newton, fórmula da Baskhara, História da Grécia de Heródodo. É isso que ensinamos no ensino médio no mundo todo meu caro. O buraco não é mais embaixo, o buraco é que muitos não fazem direito o ensino médio e ficam procurando chifre na cabeça de cavalo. Não sabem o que Ocidente todo considera clássico. Sinceramente, você está, Francisco, num delírio total.

    • Francisco
      21/07/2016 at 22:53

      O problema é justamente esse. Como um professor não vai ser um robozinho teleguiado epistêmico se não souber que ciência ele está defendendo. A ciência da cartilha do MEC? Sem professores aptos a compreender que a ciência é múltipla, persistiremos nesse estado de mediocridade acadêmica que impera no Brasil. Realmente, estou delirando, achando que alguém se preocupa com isso.

    • 21/07/2016 at 23:46

      Francisco, pode haver cartilha, sem problema. É uma orientação. Desde a nossa primeiro LDB não há ensino de conteúdos obrigatórios. Há liberdade de Cátedra. O problema do projeto é que ele desconsidera a Constituição, a LDBN e só traz efeitos contrários ao que quer. Agora, que a escola pode e deve ter aspiração a ser neutra, sem dúvida. Mas essa aspiração se cumpre na liberdade, não no policiamento do professor.

  4. Afonso
    20/07/2016 at 11:53

    A fórmula é simples: conhecimento (com olhar p/ o futuro), liberdade e confiança – mas, parece, que o problema é que cada um (ou lado) postula, tão somente, a sua ‘verdade’. No fundo, isto demonstre uma fragilidade (ou inconsistência) diante da crítica. Daí a contaminação ‘ideológica’ e o traço de autoritarismo que costuma aparecer nessa discussão.

    • 20/07/2016 at 12:09

      Afonso, você não refletiu sobre o texto e como funciona a coisa na vida.

    • Afonso
      20/07/2016 at 16:00

      Professor, tenho visto várias discussões a respeito desse tema e tenho acompanhado seus textos neste espaço – e este mais recente deixa bem claro do que se trata e o que se tem (e espera) em relação à escola (e dessa discussão). Meu comentário foi apenas uma observação – e o entendimento dessa questão a partir do lema rortiano na tríade conhecimento/esperança, liberdade e confiança me pareceu perfeita (e necessária). O que tenho visto, no entanto, em algumas discussões não é o apelo à neutralidade (senão o clima ‘policialesco) tampouco a leitura dos clássicos. Verdade que este texto deve ser discutido e repassado.

    • 20/07/2016 at 18:46

      Afonso se as discussões tivessem o que eu escrevo eu não escreveria, sacou? A discussão está no pé que está, e a população adere ao projeto da direita, porque a esquerda argumenta pior e é tão estúpida quanto.

    • LMC
      21/07/2016 at 10:50

      A população adere ao projeto da
      direita,cara-pálida?Só se for a
      população que tem Pondé e
      Olavo do Caralho como ídolos.
      Esse povinho ficou feliz porque
      venceram o referendo pela
      saída da Inglaterra da União
      Européia e acham que podem
      transformar o Brasil numa
      nova Inglaterra.Precisam
      vencer as próximas eleições
      em 2018.Mas está difícil.kkkk

    • 21/07/2016 at 10:56

      LMC é difícil para você entender meus textos. Mas, nesse caso, basta ver a votação e as pesquisas. Além do mais, TODO mundo, quando perguntado se quer doutrinação na escola, diz que não. Conseguiu agora entender? Caso não, leia dez vezes o artigo. E depois mais dez os outros. Se ainda tiver dificuldade, veja os vídeos.

  5. LMC
    20/07/2016 at 10:44

    O pior que os puxa-sacos da Escola
    Sem Partido são favoráveis a
    transformação de escolas públicas
    em colégios militares como em
    Goiás pra aluno bater continência
    pra milico vestido de azeitona.
    Por isso é que o Bolsonazi é a
    favor desta idéia brilhante(?).

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