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24/11/2017

A era do Bobo da Corte ou O Martírio dos Tímidos


Não tenho dúvidas que uma cultura que não valoriza pessoas tímidas pode se transformar no inferno de  um vedetismo insuportável. Aliás, no Brasil de hoje, ninguém mais, com bom senso, aguenta a superexposição de pessoas que reiteram o senso comum na mídia, principalmente com título de professor e até, ainda que injustamente, de filósofo. Hélio Schwartsman parece também preocupado com a desvalorização do tímido, ao menos foi o que entendi do centro de seu artigo com o título “Diversidade psicológica” (Folha, 22/03/2017). Se começamos a acreditar que o inteligente é o extrovertido ou o que aparece e gosta de aparecer, podemos entrar por uma tubulação de esgoto produtor da mediocridade.

Todavia, temo que a questão não seja somente do âmbito da psicologia. Guy Debord foi quem alertou que a tão falada nos anos setenta dicotomia entre ser e ter estava já  em segundo plano diante da dicotomia ser e parecer. Ser e parecer depende de ser e aparecer. Antes dele, Heidegger havia tematizado a modernidade como a época da imagem de mundo, em que a representação ganha status ontológico e põe de lado a apresentação. Se pensamos pela ótica ou Debord ou de Heidegger, por caminhos diferentes chegamos a uma única conclusão: os tímidos, principalmente se são inteligentes, não estão ameaçados só por uma modinha psicológica de cultivo do saber falar, dançar, requebrar e, claro, contar mentira. A cultura não está só ameaçada pelos bobos da corte oficiais ou não. O problema é maior: em uma era da representação que nos conduz para uma sociedade imagética, ou seja, uma sociedade em que o aparecer ganhou estatuto ontológico, isto é, ele é o real, o que fazer com aqueles que desenvolvem uma inteligência que se recusa em ter milhares de seguidores no Facebook e que não quer fazer seu proprietário posar nu ou não quer que este faça palestrinha sobre “o que é felicidade?” ou “O que é a inveja?”?

Se a psicologia do extrovertido, do mini-astro ou da quase-celebridade é tomada como sendo a psicologia preferida para aqueles que vão escolher o inteligente do momento, isso deveria ser pensado para além da própria questão psicológica. A questão é que essa psicologia do extrovertido está calçada na ideia de realidade e do que é que vale a pena na realidade. Tem legitimidade de ser real o que aparece. O tímido não aparece e, portanto, vai existir como parasita, como quem precisa da tolerância dos novos inteligentes para ter o direito ao respiro e, talvez, uma refeição ao dia.

Faz-se necessário, se quisermos uma cultura menos unidirecionada, a criação de narrativas ontológicas que reponham a chamada realidade sobre novas bases. Ora, a realidade é o que é levado a sério. Devemos ficar com os pés no chão e olhar para a realidade – é o que se diz. E a realidade sendo o que aparece define os que gostam de aparecer como reais e sérios. Rapidamente eles são os consultores que merecem ser ouvidos. São o que devemos levar sério, mas não por saberem de fato solucionar problemas, mas por procriarem maquiagens para o que falam, o que cantam a partir do som de orelhas de livros, o que fazem para serem os acionadores do “curtir” do internauta.

O tímido ou simplesmente o calado e reflexivo está ameaçado hoje não pelo retórico, mas pelo bobo da corte.

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5 Responses “A era do Bobo da Corte ou O Martírio dos Tímidos”

  1. Roberto
    07/06/2017 at 10:58

    Isso se aplica ao YouTube.

  2. Bruno Leobleim
    22/04/2017 at 22:25

    Está se criando Cultura Karnalvalesca Professor.

    • 23/04/2017 at 07:11

      Bruno! É mais ou menos isso. Mas passa logo. Não houve a cultura chalitinesca? Modinha de midiagogo passa. Depois vem outra.

  3. vera bosco
    22/04/2017 at 22:12

    É muito stand-up lucrativo para plateia de parvos.

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