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22/09/2017

Entre a “cura gay” e a cura da Síndrome de Down


Não somos sempre nós mesmos quer inventamos os humanos?

Na Inglaterra homossexualidade foi crime até muito perto dos anos setenta. No Brasil, até pouco tempo atrás a homossexualidade era indicador de uma doença. Hoje, diante da legislação que temos no Brasil, e em boa parte da sociedade escolarizada do Ocidente, é até um absurdo pensar na homossexualidade como não sendo uma simples opção de vida e um gosto específico pela forma de fazer amor. Mas, tanto antes quanto agora, não podemos pensar na Inglaterra e no Brasil senão como democracias liberais (mesmo que no Brasil tenha havido desvios significativos). Em uma democracia liberal bem calibrada, não se pode negar direito de minoria aos que se afirmam homossexuais. Doença ou crime? Nem pensar!

Vamos para outra situação.

Os portadores da Síndrome de Down estão convencidos de que não são normais, que possuem “necessidades especiais”, e que se não podem mudar, isso não significa que vejam com olhos tortos pesquisas – completamente autorizadas pela legislação – capazes de no futuro resolver de vez a questão, conseguindo evitar que pessoas venha a nascer com tal problema. Manipulação de genes, sabemos bem, poderá fazer com que uma série de anomalias hereditárias desapareçam (veja aqui).

Voltemos para a questão da homossexualidade.

Na nossa legislação não há nada que proíba que, mesmo não considerando homossexualidade doença, não se encaminhe pesquisas de manipulação genética que queiram de toda maneira eliminar a possibilidade de termos homossexuais na face da Terra. Ou seja, homossexualidade como patologia é absurdo, é um erro, um preconceito. Assim pensamos. Mas pensamos isso a partir da ética, não da ciência. A ciência não pensa. A ciência é ciência, não consciência. Deixada livre, como muitos advogam a partir do vagalhão do Iluminismo, a ciência pode caminhar décadas ou séculos procurando o que não se deve procurar, o que do ponto de vista em geral seria absurdo procurar. Desse modo, a ciência pode escolher o caminho que, na nossa sociedade, já não é mais uma questão moral, mas uma questão de inteligência: eliminar a homossexualidade por manipulação genética é, agora, uma via estúpida, intelectualmente não válida, pois temos por absurdo considerar homossexualidade doença ou mesmo indesejável. Demos um passo para fora da ética ao incorporarmos a homossexualidade como doença como uma tese falsa, burra.

Todavia, todos sabemos que o caminho da ciência burra, para a própria ciência, não existe. A ciência por ela mesma pode por anos seguir um caminho tido como burro. O que quero dizer é que a ciência caminha ou, melhor, pode caminhar, por meio do desejo secreto de tomar a homossexualidade como doença e, depois de uns tempos, vir com uma operação que, pelas mãos dos cientistas, seja capaz de eliminar a homossexualidade. Ora, vamos supor que isso pudesse vir a ocorrer, de modo verdadeiro. Dependendo da época, a homossexualidade pode já estar de tal modo aceita e normalizada, que ninguém tentaria manipulação genética para não ter filhos homossexuais. Ou seja, a ciência falaria da “cura para a homossexualidade” quando esta já não interesse a ninguém ou, até ao contrário, seja completamente nociva, um atentado contra nossa chance de sermos mais diversificados.

Podemos imaginar, em contrapartida, que os portadores da Síndrome de Down comecem, como muito já fazem, a ter uma vida normal. Em um determinado dia podem então decidir que a condição de minoria sociológica, que ele têm o direito de usufruir, não deve mais ser autorizada por algo que é uma disfunção. Os portadores da Síndrome podem decidir que, uma vez que possuem vida normal, que são limitados em algumas coisas como todos nós somos limitados em muitas coisas, não vale a pena mais que se permita pesquisas para a “cura da Síndrome de Down”. Tais pesquisas estariam, na conta desse grupo, então, apenas contribuindo para o preconceito contra eles. Advogaria, então, que o melhor seria viver fora da condição de seres especiais advindos de condições patológicas. Seriam uma minoria como é, agora, a dos homossexuais. Ora, já que os homossexuais são uma minoria que não tem mais como base uma patologia, e sim uma minoria quase como as minoria étnicas ou de gênero etc., então os portadores da Síndrome de Down, iguais aos homossexuais, se sentiriam no direito de solicitarem que não se pesquisasse de modo algum “cura” para algo que não teria mais razão de cura.

O exemplo que dou pode chocar alguns homossexuais, que não gostariam de relativizar o status quo adquirido, o que de são um minoria por razões sociológicas, não patológicas. Mas pode muito bem ser bem vindo há alguns portadores de Síndrome de Down, que estejam no limite de não querer serem vistos como doentes, uma vez que estão integrados na sociedade, inclusive com direito de frequentarem escolas comuns – direito que faz toda escola ser obrigada a matriculá-los.

O que nos faz decidir tal coisa? O que não faz parar ou não pesquisas? O que nos faz dizer que minorias são minorias, e que a razão pela qual são minorias não importa para a sociologia, mas continua importando para a ciência? Nada a não ser a política. Sempre decidimos o que são os mortais, como diferentes de deuses e animais, como os seres do meio, do ponto médio, segundo critérios de formação do “parque humano” (Sloterdijk), ou seja, por decisões políticas. Fizemos assim mesmo quando as possibilidades de engenharia genética eram bem menores. Fazemos isso desde que nossos parentes hominídeos ou já homo sapiens deixaram o nomadismo em função da vida em invernadas.

Caso não tivesse havido o abuso nazista, com experimentos humanos horríveis e com a busca de uma “superioridade racial” vinda pela eliminação de outros e não por consideração e motivação de todos, admitiríamos de modo mais tranquilo que o homem não é homem por “biologia”, que a biologia é uma descrição como outras, e que o homem é homem pela descrição síntese forjada politicamente. Conta aí a descrição que a biologia dá, mas não só. Todas as descrições irão para o caldeirão que será, sim, um caldeirão mais propenso a ir para o parlamento que para o laboratório. Ou seja: nossa decisões por liberdade e por dar razões a certas liberdades são sempre no interior da liberdade, isto é, no interior da liberdade política que já temos.  É isso que sempre fizemos e é isso que faremos. Não sabemos para onde vamos. Não sabemos como serão os humanos amanhã, embora esperemos que sejam “versões melhores de nós mesmos” (Rorty).

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

Foto: Rock Hudson, ícone gay tardio

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2 Responses “Entre a “cura gay” e a cura da Síndrome de Down”

  1. Orquideia
    13/06/2016 at 08:40

    Em muitos casos,não é possível nos apegarmos ao orgulho de uma deficiência.
    O que mais desejamos é a cura,ou o alívio.
    A irritação causada pelo preconceito às vezes, importa menos que a consequência da “delícia e da dor de ser o que se é”.

  2. Matheus
    01/06/2016 at 12:42

    EXcelente texto, Paulo.

    Sei que no final você envereda ainda mais pra filosofia que trata sempre do geral, então espero que meu retorno a um exemplo prático não seja só mais casuísmo rs.

    Uma coisa que me pegou uns dias atrás é que um cunhado meu é praticamente surdo, isso não o impediu de estudar em uma universidade pública, nem de ser funcionário público de alto gabarito; ele participa de uma associação de surdos e através dele fiquei sabendo de um projeto de “acabar com a surdez” através de implantes cocleares que devolvem a audição, podendo a cirurgia ser feita em crianças e recém-nascidos. A comunidade de surdos está passando por essa discussão do “direito de ser surdo”.

    Aí que me peguei, ser surdo é ruim? Para além da questão de “Normalidade” que passa por revisão a cada passo da humanidade, em cada lugar em cada tempo… realmente, parece-me melhor poder ouvir, ainda mais eu que sou amante assíduo de música, mas fiquei mesmo pensando, será que é ruim ser surdo, ou é ruim ter que preparar o mundo para acolhê-los? Como os demais deficientes físicos… aí me lembrei de uma passagem socrática sobre “as definições de justiça” em que talvez o mais próximo da justiça estivesse “na preocupação dos mais fortes para com os mais fracos”. Aí tive minha resposta, se fizéssemos mais rampas e menos escadas todos poderiam subir, não apenas os não-cadeirantes; se preparássemos nossas escolas (e professores, remunerando-os bem, é claro) poderíamos ensinar todas as crianças, cegas, surdas, com autismo, com síndrome de down, ou não. Como você bem lembra, hoje vivemos numa sociedade da abundância, onde é plenamente possível que essas pessoas vivam bem e cada vez melhor; não somos mais como Esparta onde a criança aleijada sofreria muito, mal poderia subsistir e do que adiantaria se não poderia lutar como todo bom espartano? Mas sempre tem esses que querem recuperar a “dureza” da vida, admitir que “deficientes” podem viver e bem, é admitir que a vida pode ser leve demais… especialmente para os “naturalmente perfeitos”.

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