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23/04/2017

Como enfrentar os fracassos cotidianos?


Para Nany

Desaparecer na polis grega era impossível. Passar por um dissabor e, então, recolher-se, era praticamente impensável, quase incompreensível. Os gregos enfrentavam seus problemas conversando entre pares, e seus pares não estavam em casa, e sim na praça e no mercado. Homens livres conversando com homens livres. Em casa estavam aqueles que cuidavam da economia, da sobrevivência, do embate com a natureza: a esposa com suas tarefas advindas da procriação, os escravos com o trabalho e os animais servindo ambos. Recolher-se em casa para resolver problemas seria ridículo. Só homens livres podiam ter algo a dizer para homens livres que viesse a ser tomado como uma boa ideia.

Assim é que os problemas dos homens eram problemas do mundo visível. Só com o surgimento da divisão visível-não visível se acoplando à divisão fora-dentro e objetivo-subjetivo, e com a criação da noção de indivíduo, é que surgiram os problemas “particulares” e/ou “de foro íntimo”. Rousseau foi quem deu estatuto filosófico ao “ficar só”, acreditando que poderia realmente ganhar a solidão, recolher-se, fugir da vida social, que se interpôs entre o campo da casa e o campo da política. Seguimos Rousseau. Quando temos problemas, nos recolhemos.

Não nos recolhemos para pensar. Isso Sócrates fazia. Todos os filósofos fizeram. Não! O que fazemos, na modernidade, e que tem a ver com Rousseau, é nos recolhermos para não nos apresentar, não aparecer, não ter de fingir estar bem quando não se está bem. Caso o recolhimento fosse para pensar, refletir, até seria algo interessante, embora não de todo correto. Mas não, recolhemo-nos como fuga. Não queremos nos expor porque nosso compromisso com o visível é o compromisso com o estar bem, e conversar com os outros, não estando bem, não nos ajuda. Afinal, como diz Sloterdijk, somos humanos enquanto acrobatas, ou seja, gente do treino, do exercício  em favor da performance. Não confiamos no diálogo, na troca de ideias, na argumentação para resolvermos problemas. Quando vemos que isso é necessário, então pagamos a conversa num lugar fechado, o consultório do analista. Saímos para o visível para nos apresentarmos. Não estamos na vida, estamos sempre em uma “prova”, em um “espetáculo”.

Não raro, pequenos dissabores e problemas se transformam em derrotas enormes para nós porque cedemos demais à prática moderna do recolhimento, da fuga, da não conversação que, ao mesmo tempo, é o lugar da não reflexão. Não levamos adiante o parar para pensar, vamos é para nosso esconderijo para não pensar. Então, caímos em depressão. A modernidade tem a ver com a depressão, e agora com a distimia, exatamente nesse sentido: ou a tentativa de solidão e o recolhimento, ou o histrionismo que, enfim, também é uma busca de solidão. Ou o quarto ou o game de celular. Ou o sono ou a adrenalina da TV. A fuga, em ambos os casos. Fugimos exatamente quando o correto seria voltar ao ambiente da conversação.

Digo sempre aos mais jovens: sofreu um revés? Então é hora de voltar ao campo de batalha, ir adiante com os amigos, retomar a reflexão coletiva. Nossa tendência é não adquirir experiência com os erros exatamente porque não conseguimos fazer a experiência se consolidar como vivência. Fugimos. Para que experiência se torne vivência é necessário que ela ganhe uma narrativa e se enriqueça com outras. Por isso, nessa hora, é a volta para o grupo, para a confraria, que nos ensina. O recolhimento em caso ou no seu próprio “interior”, acentuando o traço moderno patológico, é um erro.

Não há experiência ou vivência e, portanto, nenhuma aprendizagem, sem que o drama seja posto em uma narrativa, e esta precisa ser construída conjuntamente e lida por todos. É o caminho inverso do que fazemos, normalmente.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015)

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4 Responses “Como enfrentar os fracassos cotidianos?”

  1. 18/10/2015 at 21:23

    A experiência sem o conceito é vazia; e o conceito sem a experiência é cega!

    • 19/10/2015 at 12:06

      Boa lembrança sobre Kant, uma das poucas frases que você pode tirar do contexto e manter a validade.

  2. Luana
    29/06/2015 at 13:16

    Lindo o texto!!!

  3. Luis
    28/06/2015 at 22:35

    Como fazer a experiência se consolidar com a vivência, e ao mesmo tempo criar narrativas, sem ser filósofo, ou estudante de filosofia? Ou antes de tudo é necessário primeiro estar matriculado em um curso de filosofia para depois fazer as narrativas de nossos fracassos. Pois sem, certos instrumentos conceituais “que é o meu caso” criamos narrativas mais próximas do senso comum ou da ideologia, do que propriamente narrativas filosóficas.

    Já que ser autodidata em filosofia é “burrice”, pois o filosofar só se faz em confraria.

    Não sei se fui claro.

    Abraço!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo