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24/10/2017

Como ser energúmeno e ler tudo errado?


Quando Rorty falou que a verdade vinha por consenso, houve quem entendeu que o filósofo dizia algo que defendia o “Consenso de Washington”. Essa expressão referia-se a um encontro de economistas ocorrido em 1989 na capital americana, no qual se pregava uma doutrina de renovação do liberalismo, de cunho fortemente anti-social democrata. Nada tinha a ver com a palavra “consenso” como Rorty a tinha utilizado, no âmbito exclusivamente epistemológico. Ouviram o galo cantar, mas não sabiam onde, quando e o que direito dizia o canto. Mas saíram por aí dando opiniões. Até em encontros acadêmicos!

Com uma tradução nas mãos de originais de Rorty, doados pelo filósofo, tomei um chá de cadeira na Editora da Unesp. A resposta foi clara: não iriam publicar. Os sábios editores que nunca haviam eles próprios publicado pessoalmente nada, embora fossem professores universitários, disseram: quem seria o tal Rorty? Um americano fazendo filosofia? Como? Só podia ser um cara de direita! E nem sequer examinaram os manuscritos. O mais engraçado é que Rorty sempre foi uma homem de esquerda e com pais trotskistas. O diretor da editora da Unesp era trotskista. Mas será que sabia algo sobre os Estados Unidos? Mais tarde a mesma editora, quando Rorty se tornou famoso também no Brasil, comprou os direitos autorais a preço de ouro. Isso sem contar o que publicou em duplicata, sem me consultar.

Hoje essa ignorância a respeito de filosofia americana diminuiu bastante. Todavia, ainda há quem acredite que filosofia americana é exclusivamente filosofia analítica. E dentro da filosofia analítica, entre nós, há quem pense em termos de exatidão como no positivismo lógico! Mas, para falar a sério mesmo, o problema no Brasil quanto a publicações é que as pessoas não querem ler filosofia. Quem? Os filósofos. Os nossos professores de filosofia não gostam de ler filosofia. Os professores querem ler somente o que já leram para fazer suas teses. Ficam presos a dogmas, e vão para encontros de filosofia para participar sempre dos mesmos grupinhos. E o erro grosseiro e até imbecil cometido contra Rorty continua sendo cometido em relação a outros filósofos, até mesmo contra europeus, que em princípio seriam mais palatáveis.

As vítimas agora são Peter Sloterdijk e Giorgio Agamben.

Este segundo fala de biopolítica, ou seja, da modernidade vista como o campo de entrada em cena da “vida nua”, a vida puramente biológica, como valor primeiro e último. Nesse caso, então, usa do modelo do campo de concentração, onde também imperava a “vida nua” como vida (estar vivo respirando, sem nenhum título ou orgulho ou nome era o que caracterizava o destino dos habitantes dos campos), para falar da nossa sociedade atual. Em um erro crasso, alguns sofredores por natureza, que adoram descrições mórbidas, acreditam que Agamben está denunciando nossa sociedade democrática, liberal, capitalista, como um lugar que é um campo de concentração. Um pouco de marxismo de boteco e muita ignorância de excesso de leitura política de jornais, mais uma militância política que sempre deixa o indivíduo meio abobado, é que produz essa versão. E temos de aguentar, então, até professor universitário com doutorado nas costas divulgando esse erro e não conseguindo ler Agamben corretamente. Em geral, por conta desse erro, Agamben é divulgado. A esquerda adora descrições macabras e adora falar do mundo em miséria. A direita, por sua vez, gosta de falar o que nem dá para ouvir. Unem-se no analfabetismo.

Por sua vez, Sloterdijk fala de sociedade da abundância, de “invernada” e “espaço de mimo”. E eis que os com vocação para a pose energúmena já aparecem para dizer que se trata de alguém falando contra direitos sociais e direitos de minorias, pois é um autor que chama a atenção para o mimo, o que tornou os homens mais homoeróticos, menos viris etc. Não entendem que Sloterdijk está usando tais expressões sem julgamento de valor e de um modo amplo. “Mimo” para Sloterdijk quer dizer simplesmente que o homem é homem por conta de ter desde os primeiros momentos sempre reposto a situação uterina, ou seja, nunca ficou no “fora” e sempre reconstruiu um “dentro”, uma esfera surreal de cuidados. “Dasein ist design“, conta Bruno Latour, acertadamente, como o  que transmite Sloterdijk. Se o espaço de mimo é um útero, uma cidade, o apartamento single ou o Welfare State tanto faz. Mas a tese não favorece leituras macabras porque fala de nossa sociedade como um lugar de abundância. Sloterdijk está preocupado com os ricos e seus imitadores, a classe média, pois são estes que dão o “espírito de época”. Suas teses são filosófico-antropológicas e psicopolíticas. Não dizem respeito ao nível de conversação do leitor que falou de Rorty como o que apoiava o “Consenso de Washington” ou o que acha que Agamben está descrevendo Nova York, o centro do capitalismo, como um real Auschwitz.

A leitura dos filósofos obriga que o leitor sempre se prepare para ler o complexo, não o simples. Se ele quer ler o simples já que ele é um simplório, que fique com autores de divulgação barata. No tempo em que era moda a Escola de Frankfurt, esse tipo era o que lia Eric Fromm, não Adorno. Agora, não vai mesmo ler Sloterdijk ou Rorty ou Agamben e entender, mas ficará com o Bauman, essa coisa que virou praga em curso de ciências sociais que, aliás, ganham de qualquer outro em divulgação de material militante errado (claro, se é militante, certo não poderia ser). Afinal, esse leitor, que pode até ser professor universitário, é o que pensa que o Bauman é filósofo porque defende a tese do Tales de Mileto, de que “tudo é água”. No caso do Bauman, talvez seja isso verdade mesmo, afinal, duvido que ele saiba fazer algum interpretação razoável de Tales.

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo

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4 Responses “Como ser energúmeno e ler tudo errado?”

  1. Nilton de Paula Carvalho
    09/08/2016 at 16:30

    Paulo, Você nunca foi nem será um Filósofo. Porque foi buscar a sabedoria no lugar errado, na universidade. É um dos ambientes sociais onde há mais gente ignorante, ignorante inclusive de quem é. Por isso, professor universitário morre tudo pobre mesmo.

    • 09/08/2016 at 16:47

      Sim Nilton! Mas agora vou mudar. Hoje mesmo vou nas livrarias procurar seus livros e depois vou na net ver suas façanhas como rico. Vou aprender muito. Obrigado por vir me avisar.

  2. Cristiane Marinho
    12/01/2016 at 12:56

    Muito bom! Uma leitura para além da mesmice acadêmica da esquerda brasileira. Além de muito corajosa! Abraço, Paulo!

  3. 11/01/2016 at 13:20

    Eu notei que alunos da graduação de artes e filosofia costumam desde cedo encontrar um banquinho e sentar nele, ali, num patamar superior. Ele lê filosofia, lê o discurso do filósofo e nada o atinge. Fico pensando que porra de filósofo que vai ser esse que não é atingido nem por aquilo que deveria atingi-lo? Eu acho que é esse carinha que depois que fica grande, cai no dogma. Não quero ser assim, é algo que quero passar longe.

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