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26/09/2017

Epistemologia e pedagogia do ENEM e do trajeto escolar


Caso estivesse ainda na moda o bom livro A miséria do historicismo, de Karl Popper, então os colunistas conservadores – bem mais os incultos que os cultos – iriam se utilizar de resenhas dele para dizer que Platão e sua República não poderiam ser matéria do ENEM. Sim, estaria rolando por aí a ideia do “Platão comunista”. Pois não é só Nietzsche que foi avaliado por política que ele não fez! E então, ao invés de escutar bobagens sobre Simone de Beauvouir, por conta dela estar no ENEM, escutaríamos bobagem maior: teríamos questionamentos sobre Platão, que é o inventor da filosofia. Haveriam objeções do tipo daquelas postas na Guerra Fria: ele não seria uma má influência esquerdista e doutrinária sobre os jovenzinhos prontos para aderirem a … Moscou? 

Não, não estranhem não! Já houve um tempo assim em vários meios jornalísticos (sempre estes!), em que o correto era não ler Platão porque ele além de incentivar o “homossexualismo” ainda por cima era responsável pela tirada das crianças das mães, como se dizia que se fazia na União Soviética. A Seleções do Rider Digest era especialista nisso. Pois é, o macartismo de todos os tempos e a estupidez dos conservadores sempre competiram com o atavismo mental dos progressistas. Afinal, até hoje há pessoas de esquerda no Brasil que não conseguem estudar John Rawls! “Ele é americano!” – dizem, apavorados!

O problema todo do ensino fundamental, médio e superior, e também seus exames, é que estamos perdendo de modo rápido o critério internacional, quase universal, do que são os clássicos. E estamos também nos esquecendo de como que o mundo todo trata os alunos desses três níveis de ensino. Claro que isso tem lá seu lado mais amplo, pois de certa forma vem ocorrendo no mundo todo. Tal situação é posta por Peter Sloterdijk na frase “Humanos modernos e pós-modernos não vivem somente na ‘casa do Ser’ (como Heidegger chama a linguagem), mas ampliadamente no domínio da tecnosfera” (ver artigo). Nesse caso, por obra desse novo lugar, narrativas se interpõem meio que sem critério, onde o que está em clouds e o que está na escola, como saberes, se confundem e se deslegitimam mutualmente. Mas, é claro, uma coisa é isso ocorrer em um lugar de tradição cultural e escolar, outro caso é quando entramos nisso seguindo a rota já posta no Brasil, um país que se orgulha de ocupar os últimos lugares do Exame do PISA, sucessivamente já há mais de vinte anos.

Rapidamente, lembro algumas coisas a respeito do estamos perdendo.

Quanto ao tratamento dos alunos, devemos sempre nos lembrar que nossa prática nos faz ir do dogmático ao relativo. Ou seja, socializamos para então individualizar. Assim fazemos nas democracias liberais do mundo todo. Primeiro damos regras às crianças, princípios rígidos, forçamos a não discussão de modo a fazê-las se integrarem no ethos da nação. Não queremos que nossas crianças sentem no banco dos mais velhos. Não queremos que elas furem filas. Não desejamos que elas discutam se devem ou não aprender a ler e fazer continhas. De modo algum desejamos que elas tirem a roupa em público, mostrando suas vergonhas que ainda não envergonham. Queremos que cada criança peça para sair da sala, com delicadeza, ao professor. Em hipótese alguma queremos que um criança agrida a outra na sala de aula ou fora dela, falamos para elas “em mulher não se bate nem com uma flor” etc. Há milhões de normas e não as discutimos, claro, apenas fazemos as crianças as seguirem como também assim fizeram conosco. Aliás, também os conteúdos exclusivamente cognitivos são assim postos: Pedro Alvares Cabral se desviou da rota marítima por conta da “calmaria” e … pimba, descobriu a terra que viria a se chamar Brasil. Acabou. Essa é a história. Mas, no ensino médio começamos a inverter tudo isso. Discutimos com as jovens se elas devem ou não vir de mini-saia na escola, tememos o consumo de drogas, explicamos sobre como Pedro Alvares Cabral não veio aqui por conta de “desvio da calmaria” etc. O mundo vai se afrouxando e o dogmatismo cede ao diálogo, ao criticismo etc. Ao final, no ensino superior, espera-se que todo o processo de socialização já esteja completo, e que a relativização máxima do conhecimento seja a regra. Nessa hora, ficamos então sabendo, em um nível que precisa ser bem colocado para não se tornar banalidade e até mentira, que um árabe pode desposar jovens muito mais jovens do que se imagina aqui no Brasil, mas que também lá, isso pode ser tão controverso quanto aqui. Pode-se ensinar que a burca não é opressão, ainda que as feministas ocidentais digam que sim etc. Ou seja, nessa hora, o ensino é a pesquisa, e esta é sempre o retrato do confronto, não do “sim” e “não” dogmáticos.

O mundo todo que vive sob democracia liberal de moldes ocidentais age assim. Basta ter passado por isso nos três níveis e basta não ter sido tosco na escola, que então torna-se fácil perceber esses princípios pedagógicos e epistemológicos nossos, do Ocidente. Isso tem funcionado relativamente bem.

Agora, o outro ponto, é sobre a escolha de matérias e exames. Nos três níveis etários, há os clássicos. O que é um clássico: a obra literária, científica ou filosófica que eleva a experiência particular para o âmbito universal. Desse modo é que Platão é um clássico para o ensino médio e superior. Por exemplo, A República: trata-se de algo bem grego e bem datado, mas que pode ser admirado e reconhecido como de valor por um israelita de hoje como por um japonês dos anos trinta – trata-se da busca da Cidade Justa e, para tal, a criação de uma base, um fundamento teórico especial criado pelo próprio Platão, ou seja, uma metafísica. Ora, as Fábulas de Esopo é algo também bem datado e localizado, mas tem sabor universal, de modo a incorporar o ensino em nível infantil de todo o mundo. É um clássico da literatura infantil. É assim que funciona.

Muitos autores ganharam esse destaque, de se serem clássicos, em todas as áreas, com níveis diferentes segundo públicos de crianças, jovens e adultos. Outros estão esperando sua vez. Outros poderiam ser clássicos, mas foram postos para escanteio por conta da hegemonia cultural de alguns povos sobre outros ao longo da história etc. E  mais outros, ainda, passam todo o tempo na fronteira, eternamente envoltos na discussão de seu status, se podem ser considerados clássicos ou não. “Garota de Ipanema” é um clássico universal? Machado de Assis certamente é um clássico universal, mas a restrição da língua portuguesa no mundo faz muita gente não saber o quanto ele, a meu ver, supera um Henry James.

Assim, se respeitamos esses dois princípios, o do tratamento que vai da socialização à individualização, e da escolha do material a ser ensinado e posto nos exames, que devem ser os clássicos ou detalhes e situações a partir deles, caminhamos pelo caminho dos povos que tem conseguido vida melhor. Agora, se teimarmos em politizar tudo e resolver as coisas por politicalha de “esquerda” e “direita”, tudo momentâneo e com critérios que não são critérios, apenas blá-blá-blá jornalístico, então teremos mesmo de nos conformar com esse indelicado posto no Terceiro Mundo, que parece já ser um destino.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

 

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10 Responses “Epistemologia e pedagogia do ENEM e do trajeto escolar”

  1. João Santos
    08/11/2015 at 09:48

    Paulo, após a releitura do texto e da questão do Franklin; penso na dificuldade histórica que temos em relação a temas universais. Como sociedade nos inserimos internacionalmente, desde início, como um fornecedor de bens tropicais, e mesmo que muitos bravejem, Caio Prado Jr – e seus sucessores – continuam muito pertinentes em seus apontamentos. A imprensa e o ensino, ao contrario do diabo, não vieram para a terra de Santa Cruz e nos fundamentamos na continua cópia de letras enquanto adornos, o beletrismo destacado por Levi-Strauss, o bacharelismo apontado por Sergio Buarque e as similares críticas que deste os jesuítas permeiam este assunto e que estão ai em mídia, deixando de lado os rebeldes censores e seu mundo do espelho. Diante deste culto a orelha de livro, a implantação de um exame de ordem para os cursos universitários, como feito pela OAB, não seria um caminho para melhorar a nível dos professores que se inserem no mercado?

    • 08/11/2015 at 12:25

      JOão, a OAB e os vestibulares são o que ainda salvam nossa sociedade.

  2. Bruno
    31/10/2015 at 04:21

    Paulo, você está inteirado dessas questões recentes a respeito da falta de domínio ou controle de turma? Eu sou professor, tento fazer os alunos lerem os clássicos, questões ligadas a trechos deles, e eles ficam querendo ‘brincadeiras’. Eu os escuto, e acabo perdendo o controle de sala de aula? Você acha que essas coisas de aprovação automática e o fim de castigos como suspensão podem tirar a autoridade do professor de sala de aula? Pergunto isso porque as crianças de hoje estão muito sem limites.

    • 31/10/2015 at 12:25

      Bruno não há milagre. O trabalho é conjunto. Se numa escola há mais professores que não estão nem aí, ou que são fracos, você não faz nada. Instaura-se uma situação irreversível. É como cachorro. Sozinho ele é humano, com outros cachorros, vira cachorro.

  3. 29/10/2015 at 10:30

    Creio que a admiração da passagem de uma bela mulher é algo universal. Claro, nem sempre precisa ser mulher… Garota de Ipanema está no páreo, creio eu se tratar de um clássico…

    • 29/10/2015 at 21:03

      Pedro, eu estava me referindo não só à lírica, aliás, menos à lírica talvez.

  4. Franklin Mariano
    28/10/2015 at 18:06

    Bom, Paulo pelo que me parece o Brasil está “atrasado” no que diz respeito ao clássico.Os paíes da Europa os Estados Unidos travaram uma grande debate político a respeito dos clássicos.Tanto que as universidades americanas tinham as chamadas guerras culturais em torno do que seria clássico e de como a política ou economia impactava nos clássicos. Mas este debate politizado acabou para eles há bastante tempo.

    Hoje, como já disse Umberto Ecco, a questão central é perguntar a respeito dos critérios certos e das prioridades. Assim, nas escolas do primeiro mundo começam-se a pensar em abrir o cânone e trazer os clássicos de outros povos como confúcio e Lao tsé, O sânscrito indiano, A Literatura Persa, Latino-Americana.

    Ninguém hoje, inclusive na China, liga para o fato da Marinha INglesa ter exportado Shakeaspeare. Parece consenso entre estudiosos,mesmo progressistas, que jovens e crianças merecem conhecer e recitar este literato.

    No nosso caso,nós estamos atrasados. A reação Grosseira ao Enem mostra que mesmo gente instruída não sabe reconhecer um clássico. Para o europeu médio parece muito claro que Max Weber é um Clássico e que Misses é um economista qualquer do século XX. Mas para os incautos do Brasil não.

    • 28/10/2015 at 19:53

      Franklin acho que você fez um ensino médio ruim, só isso. Eu li Platão no colégio, Machado de Assis eu li no ginásio. Depende da escola e do tempo, as coisas funcionam.

    • Franklin
      29/10/2015 at 18:29

      Paulo, eu não disse que as coisas não funcionassem de maneira alguma no Brasil . E, bom, eu fiz um ensino médio razoável; fiz cursinho pré-vest.( um dos melhores do país).

      Quando falo e faço essa crítica levo em conta o fato de que mesmo pessoas ” ditas” instruídas cometem erros grosseiros no que diz respeito a função dos clássicos. Renaldo Azevedo , Rodrigo Constantino e por aí vai. Essa gente não nasceu ontem.Enfim, a discussão na mídia as vezes descampa para o campo estritamente político.

    • 29/10/2015 at 20:59

      Franklin! Os que você citou não são instruídos. Tem dó!

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