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23/11/2017

“Em mulher não se bate nem com uma flor” ou “é proibido cuspir no coleguinha”


“Professora, professora, por que a senhora disse que é proibido cuspir no coleguinha?”

Peter Sloterdijk não fala de uma cultura afeminada, mas de uma cultura andrógina, para caracterizar a modernidade como uma época de paz. De necessária paz. Os homens e mulheres da estufa, ou seja, das zonas de conforto e abundância, criaram o palácio de cristal em que há mercadorias e paz. Uma paz que começou a ser pedida em nome da “tolerância”, por Locke, e que Weber tocou ao falar do poder de estado como fundado no “legítimo monopólio da violência”. Contemporâneo nosso e também, claro, de Sloterdijk, Agamben põe mais um dado nesse caldeirão: o estado (moderno) tem seu poder fundado no “controle da aparência”.

Por isso mesmo, os homens modernos par excellence não podem se aparentar senão com seres decididamente não agressivos. Precisam ser como que meninas pré-adolescentes, sorridentes, com frescor, saltitantes. Algo meio como Bambi e seus amiguinhos na primavera. Musculosos ou não, o homem moderno precisa ser doce, suave, e a cada pontinha de agressividade que possa ganhar, deve compensar com clara androgenia localizada em sua aparência, no seu modo de surgir ou  aparecer. As coisas só não ficam completamente leves porque mesmo na estufa, guarda-se o tipo arcaico, que transpira a coragem bélica, por meio do patriotismo do exército – e os Estados Unidos, como polícia do mundo, se responsabilizam por ter esse tipo que, na Europa e outros lugares, não cabe.

A paz do mercado vigente no palácio de cristal guarda a androginia como padrão, a suavidade como regra, a polidez como meta da transformação do hominídio em homem, eternamente – a domesticação feita por antropotécnicas, diz Sloterdijk. Quanto mais a clareira permite isso, melhor. E como o poder vem da aparência, exibir a aparência pedida para que o humano se reconheça humano segundo o conceito de humano na modernidade, é fundamental. É o poder de onde o estado emana. Garantir que se apareça segundo as regras do bom aparecimento e da boa aparência. Não há algo por detrás da aparência, mas verdade e falsidade se colocam somente na clareira, e o local da aparência, seja o palco ou o rosto, são o formam o campo em que o homem espera o reconhecimento – fundamental para nós, humanos. As tramas do poder, de se ter poder ou não, advém portanto do modo como se aparece. Diz Agamben: “A exposição é o lugar da política”, e “levar à aparência a própria aparência é a tarefa da política”.

Por tudo isso ou exatamente por isso, a política é um campo do “jogo de cena”, e nesse jogo ganha quem for mais um quase-afeminado, ou melhor, o mais suave. Algumas pessoas possuem o dom para serem modernos, outras aprendem a duras custas, principalmente quando não se está na estufa de mimos, mas em algo que está se transformando em tal estufa. As atitudes louváveis podem ser sinceras ou não. Se um homem cai no meio de pequeno comício de Bernie Sanders, ele realmente se assusta e interrompe a fala para atender o acidentado. Sanders é um gentleman da velha guarda socialista, e antes de tudo um “humanista” – dizem todos. É verdade. Se um Bolsonaro provoca um deputado a ponto de que este cuspa nele, e ele não reage e além disso diz que não irá processar tal deputado, ele não é um gentleman, mas sua tentativa de se por na condição do suave, do polido, do homem que sabe das “regras da cidadania” e do padrão da androgenia, contam a seu favor.

Não à toa o arguto Baudelaire, ao descrever a modernidade, foi logo topar com a maquiagem. No seu “elogio da maquilagem” notou com sabedoria que “pouco importa que a astúcia e o artifício sejam conhecidos de todos, se o sucesso está assegurado e o efeito é sempre irresistível”. A maquiagem é a pura aparência, o campo portanto do político, o acontecer da clareira no rosto e a metáfora excelente para entendermos o palco no qual brilha o andrógino. Não há qualquer coisa escondida por detrás da maquiagem ou por detrás da aparência. Tudo é só aparência, ou seja, aparecer. O que não aparece, o que não se apresenta e se representa, não existe. Pode até guardar algum fantasma numênico, a “coisa-em-si”, mas o positivismo veio para dizer que se não pegamos a coisa-em-si porque ela é em-si e não para-nós, então, é como se ela não existisse, e portanto, podemos abandoná-la até mesmo como hipótese. Existe segundo boas regras de existência, em sua virtude, quem se põe na política, no campo dos efeitos da maquiagem, no lugar que, pela necessidade de paz, trouxemos a suavidade, a androginia.

Não podemos admitir que uma atriz linda solte um pum, nem mesmo no pornô! Pum não! Peidar então, nem pensar! Não podemos admitir que um deputado cuspa no outro, até mesmo se o outro é uma privada. Não é que não podemos mesmo, é que não é concebível na estufa que deve criar andróginos, que apareça o ogro. Perde pontos, o ogro. Sanders nasceu para a política, Bolsonaro não. Bolsonaro teve de aprender a duras penas, na escola de outros, a criar uma situação em que ele, o ogro, possa vir a ser a moça.

Cuidado aqui: não se trata da mera questão de ser vítima ou não. O vitimismo pode ser uma característica moderna, que um nietzschiano qualquer, de boteco, explicaria na base de mostrar que a moral dos escravos, a moral cristã, é a nossa moral. Mas não é a este lugar comum nietzschiano, que todos usam hoje em dia, a que estou me referindo. Estou me referindo não à vítima, mas ao suave. A estufa é o lugar não da vítima, mas do suave. Podemos não nos preocupar com o mendigo, a vítima da ruas, mas nos preocupamos  absurdamente se Gisele Bündchen ganhar uma ruga. Aquele que disser que isso é “hipocrisia” realmente nunca vai entender o que estou dizendo. O que estou dizendo é que a suavidade a androgenia nos faz mostrar nossa docilidade, nos faz trazer à aparência a aparência, a que deve ser boa aparência, bom aparecimento. Estamos na contramão de Atenas, em que os homens não podiam ser afeminados, e por isso mesmo eram homossexuais no sentido de um cultivo máximo da masculinidade e força guerreira – fúria, ira, orgulho, enfim, força timótica. Não podemos. Nossa força timótica, nossa identidade, é a da não fúria, é a do orgulho da suavidade.

“Em mulher não se bate nem com uma flor”. Só os que entendem a profundidade desse dito para a modernidade, como um dito que chama a estética para que ela ponha a ética, pode respirar Baudelaire e entender Sloterdijk e Agamben. Só então é possível compreender o enorme esforço de Bolsonaro, saído do mundo militar para o da política, para aprender a fazer política nos traços da política. Pode-se ver aí, então, algo meio que mal arrumado, um pastiche, mas, a escola dele, a de Maria do Rosário, não era lá uma boa escola. Ele é o aluno que tira dez às vezes, mas logo em seguida sabe-se que ele colou.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

 

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4 Responses ““Em mulher não se bate nem com uma flor” ou “é proibido cuspir no coleguinha””

  1. 14/05/2016 at 10:28

    Em mulher não se bate!! rs

  2. luis
    19/04/2016 at 11:18

    Olha essa Paulo!

    “Intelectuais fizeram um manifesto para cancelar a palestra do FHC: “pois ele traiu a democracia brasileira e aderiu o golpe”.

    Tudo bem que ele é do PSDB, mas agora os “intelectuais querem mandar no Brasil”!

    Seria mais o menos algo como “Os intelectuais e a organização da cultura”.

    http://www.brasil247.com/pt/247/brasil/226428/Golpista-FHC-vira-persona-non-grata-entre-intelectuais.htm

    • 19/04/2016 at 11:26

      Luis, não são intelectuais, intelectual sou eu. Filósofos e intelectuais que não sabem ouvir outros, principalmente quem veio da academia, não são intelectuais ou filósofos.

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