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30/04/2017

Educação para a ciência ou simples reificação?


Minha esposa estava no parque com o Pitoko. Enquanto o Pitoko se divertia, ela parou para olhar uma criança que havia dado um tapa em um cachorrinho amigo do Pitoko. Ela ficou espantada com a atitude da criança, mas nem bem ela conseguiu falar algo e o pai da criança deu um tapa no filho. O filho olhou espantado e com cara de choro para o pai. E este respondeu de imediato: “ah, não gostou né? Então, se não gosta, por que fez isso com a cachorrinha que é sua amiga?”

Estamos em uma época em que a “palmada pedagógica” é proibida por lei. Há razão para isso: que não se pense que são poucas as crianças que chegam ao hospital quebradas, vítimas de uma surra de quem perdeu o controle após um primeiro tapa, o “tapa pedagógico”. Só vendo isso e lendo as estatísticas é que me convenci que o estado poderia, nesse caso, ultrapassar a soleira da porta e adentrar a vida privada. No entanto, ainda resta em mim algo de quem espera que o pai seja sempre a pessoa mais sóbria do mundo, e que possa usar da “palmada pedagógica” quando ela se faz necessário, como no caso visto pela minha esposa. Estarei sozinho nisso? Todos os outros filósofos tenderão a dizer que estou errado de ainda ter esperança de encontrar o “pai que é pai”?

O filósofo alemão Theodor Adorno disse certa vez que se um pai vê uma criança arrancando as asas de uma mosca, nada há que fazer senão dar um tapa ardido na mão da criança. Teria Adorno pensado antes como velho alemão que como filósofo? Ou teria Adorno visto a tortura se instaurar na Alemanha exatamente porque toda uma geração apanhou, mas por razões erradas, e não por ser cruel. Quem viu o filme “A fita branca” (França , Itália, Áustria, Alemanha. Michael Haneke, 2010) sabe bem do que estou falando. Crianças podem ser tratadas severamente e, no entanto, nada aprenderem senão a bajulação e a crueldade contra os diferentes e mais fracos. Longe de Adorno defender a ideia de que a violência da criança se cura com a violência do adulto. Nada disso. O recado de Adorno é claro: a punição física, para que a criança tenha a dimensão mínima da dor e não se torne um deus, pode ser exercida não aleatoriamente, mas exatamente contra a crueldade, contra a ideia de que não há dor no mundo ou que a dor é normal.

A banalização da dor aparece quando ela se torna uma constante, sem lugar e sem critério. Apanha-se por apanhar. Mas o tapa, como Adorno bem definiu com um exemplo concretíssimo (para que não paire dúvida), não é a banalização da violência, é a dose de dor que deve emergir no corpo de quem exerce o ato cruel. A punição física rápida, certeira, não sádica, é dirigida então à criança que ainda não percebeu que outros organismos vivos sentem dor, ou então porque já banalizou tudo que é vivo e, inclusive, a própria dor. Adorno chamaria isso, como de fato chamou dado a sua filiação a certas teses de Marx, de reificação. Uma criança que toma um tapa na mão, aquela mão que está cometendo uma crueldade, é uma criança que é lembrada de que por mais que o mundo puxe tudo para ser coisa, ela ainda não é coisa e nem a mosca é coisa. O tapa não é contra a criança, é contra o processo de reificação.

Particularmente, não sei se eu poderia agir como Adorno. Talvez. Meus filhos nunca foram cruéis. Por eles mesmos, vendo o exemplo, foram aprendendo a colocar na porta de casa um espantalho contra a reificação. Mas, na universidade, formei muitos jovens cujo curso implicava em lidar com animais, inclusive com testes em animais e outras práticas de sofrimento dos bichos.

Vi muitos encontrarem a filosofia comigo e, então, começarem a questionar o que é que estavam fazendo. Por que ao invés de pesquisarem algo para que a dor não fosse a dona do negócio, estavam pesquisando tanta coisa sempre por meio da dor e crueldade com os bichos? Por que não colocar o cérebro no sentido de inventar novos métodos de testes? Tudo pode mudar na ciência, menos o procedimento de testes? Por quê? Não era difícil mostrar para a maioria que a própria noção de ciência moderna e de desenvolvimento científico estava no sentido contrário do que eles viam acontecer em seus cursos. Nos seus cursos os procedimentos de crueldade haviam se tornado lei. A ciência que aprendiam era assim: tudo é modelo e tudo muda, de modo que verdades de hoje não são verdades de amanhã, exceto uma verdade, essa sim imutável: os testes com animais não mudam, e são imprescindíveis.

Ensinava um pouco de metafísica para eles e logo lhes dizia: “se metafísica tem a ver com a busca de um ponto absoluto, algo fora da história e da geografia, vocês não são cientistas empíricos, mas metafísicos”. “Vocês foram ensinados nos seus cursos que há algo no mundo que não muda: os testes da ciência, feitos em animais, com o sofrimento inaudito deles, é um absoluto que não muda. Parabéns”.

Muitos desses meus alunos aprenderam algo comigo. Mas tive alunos que nunca levaram aquele tapa na mão, e riam sarcasticamente disso tudo. Eles eram os leitores do politicamente incorreto. Gabavam-se de serem cruéis. Não estavam brincando, com o intuito de chocar as meninas e a mim. Não! Eles realmente estavam estudando para serem torturadores. Às vezes encontro um deles em algum trabalho de laboratório, feliz da vida ao poder provocar um tumor em uma coelha grávida e depois ver os coelhinhos nascerem doentes, perdendo pedaços por desnutrição. Um dia tomei café com um ex-aluno, em um laboratório desses. Ele não conseguiu me explicar a razão pela qual fazia a experiência que fazia. Ela repetia, como os nazistas fizeram quando tiveram de explicar as atrocidades, e da maneira que Hannah Arendt observou tão bem: “é o procedimento, é o procedimento, aqui é assim, sigo as regras”.

Esse monstrengo torturador de ratinhos, coelhos, cachorrinhos, sapos, insetos etc., tem um diploma universitário. Às vezes um mestrado. Eu ajudei a produzi-lo. Ele escapou do tapa na mão, chegou até mim, e eu o deixei vivo!

Ah! Venha conversar sobre isso e outras coisas comigo dia 29 terça feira na livraria Martins Fontes da Av. Paulista. Estarei lançando lá, à noite, A nova filosofia da educação (editora Manole).

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, escritor, cartunista e UFRRJ

http://ghiraldelli.pro.br

 

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13 Responses “Educação para a ciência ou simples reificação?”

  1. Danilo Henrique
    30/10/2013 at 17:18

    Ótimo texto professor.

    Muitas vezes a dor, em uma medida proporcional, nos lembra que não somos um produto mas que somos vivos…bem como os demais animais a nossa volta!

    Estava lendo o Hussel, em seu “Por que não sou cristão” e pensei em sua crítica a Descartes, em sua separação alma x corpo (critica que ele aplica também ao cristianismo). Não vejo outra gênese da reificação senão essa distinção cartesiana.

    Este certo pensamento de que a alma é importante e que o corpo que se dane, que ele é fraco e que suas vontades são “imundas” é aonde começamos a desprezar o físico, desprezar o corpo!

    Disso para transformar-lhe em mera coisa é um pulo!

    Não digo que apenas a dor nos lembre que a distinção entre corpo e alma é mera construção social. Que não somos apenas uma substância que pensa! Toda sensação nos liberta desta sacralização da alma em deterioração do que é corpo

    Somos uma consciência, um conjunto entre a substância que pensa e um corpo que sente. Até porque nada pensaríamos não fosse o sensível, o imediato!

    Nós, e os animais. Enfim, um texto muito bom!

    • 31/10/2013 at 03:30

      Danilo, de fato, é de espantar que existam filósofo que não sejam sensíveis aos animais, não é verdade?

    • Danilo Henrique
      31/10/2013 at 10:37

      É de espantar professor, que existam humanos (que se distinguem dos animais por razão,sentimentos e subjetividade) que não sejam sensíveis aos animais (incluindo aí outros humanos)!

  2. Luis Henrique
    25/10/2013 at 22:04

    Texto para pensar e que provoca a “dor” mínima e suficiente para evitar a reificação!
    Parabéns!
    Gostaria de saber onde posso encontrar essa reflexão de Adorno.
    Abraços
    Luis

    • 25/10/2013 at 22:44

      Luís, acho que essas conferências de Adorno foram traduzidas no Brasil pela Paz e Terra ou algo assim. Talvez o título seja Educação e emancipação.

  3. Anderson
    25/10/2013 at 17:50

    A que horas na Martins Fontes Professor?

  4. MARCELO CIOTI
    25/10/2013 at 16:41

    Os conservadores-principalmente os brasileiros-são contra a proibição
    da “palmada pedagógica” porque eles acham que isso “é coisa de hippie e
    maconheiro que quer um mundo melhor”,etc,etc,etc.Eles adoram criticar
    que o Estado interfira na vida privada,porque,no fundo,não querem
    Estado nenhum.Aí,um desavisado lê o que eles escrevem e bate palma
    pra eles.

    • 25/10/2013 at 17:35

      Marcelo, eles querem estado, claro que querem. Quando o estado tira de nós dinheiro para enfiar nos bancos falidos, eles ou ficam quietos ou aplaudem.

  5. Guilherme Gouvea
    25/10/2013 at 15:42

    Na linha do famoso experimento de aprisionamento de Stanford conduzido pelo dr. Zimbardo: http://www.prisonexp.org/portugues/ (para quem nunca leu a respeito, creio que valha a pena…)

    • 25/10/2013 at 17:35

      Sim, a Fran falou dele no Hora da Coruja último.

  6. Cibela Pires
    25/10/2013 at 12:06

    Nossa cultura é extremamente superficial. cultivamos o banal, acredito que cada vez mais. A medida que se amplia a sociedade de consumo o banal também.

    • 25/10/2013 at 12:07

      O problema não é a sociedade de consumo, Cibele, mas a sociedade do consumo induzido sem que possamos opinar.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo