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28/04/2017

É proibido pensar, é o que de fato dizem os professores midiáticos


Nos muros do mundo, em 1968, apareceu o “É proibido proibir”. A frase contraditória dizia tudo da época: que possamos falar até sem lógica do que queremos. Tudo é livre. Até os planetas vão fazer uma órbita sem elipse!

Vivemos agora nos tempos que chega à maturidade aquela geração uns anos mais nova do que a minha. Os que não viram 1968. Os que não sentiram o clima dos anos sessenta. Pode ser uma geração aparentemente menos dogmática, mas, só nas aparências. À direita ou à esquerda ou ao centro, fazendo todos discursos bem polidos até quando posam de rebeldes, essa geração inaugurou a “época do palestrante”, a “era do intelectual midiático”, aquele cuja missão não é proibir, mas viver da proibição. Não contentes com a própria censura interna da cátedra universitária atual, cercada de burocratas, gangs e polícias políticas de todos os lados, esses pessoas foram procurar mais prisão ainda, se agarraram à grande mídia ou, pior, deixam suas falas presas a determinadas claques, grupos de fãs, “leitores”. O resultado disso é a ditadura do senso comum e das teses fáceis. Todos querem ter uma claque, querem ser gurus e, para tal, procuram nunca contrariar seus seguidores. Acham-se rebeldes por contrariarem só o público do outro, não o próprio.

O espírito de 1968 era a contradição, o falar contra si mesmo, as frases que punham para correr os adeptos, os possíveis seguidores. Mais ou menos se sabia verdadeiro a frase que não foi lida por alguns grupos leninistas que saíram como frutos de 68, mas que alertou sim boa parte daquela geração: “ai das vanguardas que são seguidas”.

Os grandes filósofos sempre se preocuparam em não ter seguidores. Sócrates negou ser professor e ensinar, ter seguidores. Os filósofos medievais, mesmo sendo da Igreja, se envolveram em processos de heresia. Marx falou que ele próprio não era marxista, pois não tinha nada a ver com os que se diziam marxistas. Adorno procurava escrever de um maneira que dificultasse seu leitor. Foucault mudava de opinião a cada livro, desconcertando os que queriam vê-lo como lhes dando a verdade. Rorty foi um filósofo “do contra”. Sloterdijk hoje é um filósofo no estilo mudancista de si mesmo. Mas os intelectuais brasileiros dessa geração que chegou na meia idade agora é, sem dúvida, profundamente educada por outro espírito. Querem ter claque. Querem olhar para o facebook pessoal e dizer: “nossa, como tenho seguidores!”. A palavra “seguidor”, que era um pecado para a minha geração, virou lema para os midiáticos de hoje. Não percebem que a relação se inverte: que quem tem seguidores acaba seguindo. Fazem isso, pois não são capazes de problematizar nada. Possuem saberes, verdades, sempre coerentes, partidárias, e não são capazes de entrar no pensamento pelo alçapão.

É inteligente e culto, para essa geração de intelectuais midiáticos e paletrantes, os que citam livros sem os terem lido, os que nunca enfrentam questões, mas sempre, se questionados, respondem com “e o outro lado?”. Se acham intelectuais porque acreditam que pensam. Mas não pensam. Não como o intelectual, o que usa o intelecto, pensa. Pensar é ir para um lugar sem lugar, um lugar-nenhum, onde a criação é solta e dá o alimento para tudo. Pensar tem  a ver com a utopia e, por isso mesmo, é alguma coisa que não pode ser feita se não leva a sério o objeto do pensamento – a utopia leva a sério o mundo que ela nega.

Eis um exemplo.

Se vejo a “Escola Sem Partido”, posso dizer que sou contra ou a favor, posso falar que é uma bobagem, mas se sou um intelectual, minha questão é outra. Nesse  caso, a  ” Escola Sem Partido” aparece assim, como a prática do filósofo indica: “por que os que propuseram tal coisa lhe dá crédito?”  e “por que há pessoas que podem pensar isso que pensaram?” Nessa hora, ou se leva a sério a proposta e se filosofa sobre ela, ou somente se faz opinião dogmática, que adere rápido ao senso comum que paga as TVs e coisas do tipo e, portanto, o que é permitido dizer. E o que é permitido dizer é, agora, o que deve ser dito. Essa é a regra da escola particular, tipo Casa do Saber, ou da TV, que todos nós sabemos é um campo minado pela sobrevivência empresarial segundo o critério dado pelo “ibope”.

Dei o exemplo da Escola sem Partido por uma razão simples: é fácil ser contra, mas, então, é difícil entender como que se pode pedir objetividade nas questões de filosofia, história e ciências etc. Alguém que está dizendo que não se deveria ensinar algo politicamente comprometido está falando em dois níveis. Nível 1: pode estar simplesmente, de modo ingênuo, servindo à censura, ou então, de modo malévolo, servindo a censura. Nível 2: pode estar munido da ideia de que é possível, epistemologicamente falando, se conseguir um ensino tão objetivo de conteúdos, tão isento de juízos de valor, que a ideia de “tomar partido” seja sempre algo a posteriori. Dizer que o nível 2 não existe no campo da sociedade brasileira não é sustentável. Sabemos que nossa cultura tem forte traço positivista, e sabemos que o positivismo não é nenhuma besteira. “Tratar o fato social como coisa”, um pedido de Durkheim, é uma frase inteligente. E Marx também caminhou um pouco nesse sentido quando aconselhou aos operários da Internacional que pedissem uma escola com conteúdos que pudessem ser ensinados iguais tanto por um padre quanto por um não crente etc.

Assim, refletir sobre esse assunto e´, antes de tudo, levá-lo a sério. Entender que em um nível podemos dizer “é um projeto de lei inconstitucional”, mas, num outro, podemos dizer: “isso dá uma reflexão epistemológica, isso dá o que pensar, isso é algo que foi posto com algum respaldo cultural não momentâneo” – no caso, o respaldo da cultura de tradição positivista do “ordem e progresso”, um lema nada bobo e nada ilegítimo.

Penso que isso que escrevi aí acima talvez possa sugerir a alguns jovens que seus professores de meia idade parecem não dogmáticos, mas nem de longe são tão livres quando se dizem ser. Trabalham para empresas e em empresas que já prenderam seus cérebros. E são felizes assim. Possuem seguidores.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo – um filósofo que expulsa leitor que se abana o rabinho como seu seguidor.

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13 Responses “É proibido pensar, é o que de fato dizem os professores midiáticos”

  1. LMC
    07/07/2016 at 10:51

    O que a tchurma da Escolinha Sem
    Partido do Professor Raimundo tem
    a dizer sobre o estudante gay da
    UFRJ que foi morto e jogado na
    Baía de Guanabara?Provavelmente,
    acho que comemoraram a
    morte dele.Pois é…….

  2. Luis Henrique
    06/07/2016 at 20:34

    O desconstruir, o caos, a utopia, o antifundacionismo como você mesmo disse. É muito desconfortável… é mais fácil remediar a existência numa ideologia ou numa religião, se apegar a algo concreto. Pelo que parece, o preço pela liberdade evitando a zona de desconforto não sai muito caro já que podemos descontar nossas frustrações no ataque justamente do que é o contrário. E quanto mais “ibope”, mais satisfatório é.

    • 06/07/2016 at 23:04

      LH não vejo problema, vejo desconforto no oposto.

  3. LMC
    06/07/2016 at 10:45

    Discutir Escola Sem Partido com quem
    a defende é igual discutir com usuário
    de crack quando ele fuma crack.

    • 06/07/2016 at 15:24

      Mas isso não vale LMC, pois eu não cobro discussão, eu cobro reflexão. Os professores de hoje naão sabem refletir, pensar, mesmo quando falam que estão pensando, é mentira, pois já estão com a conclusão pronta no bolso do colete.

  4. Franklin Mariano
    05/07/2016 at 23:21

    Paulo, depois quero tratar disso com voçê aprofundadamente. Acho que um filósofo pode sanar minha dúvidas.Eu acho esse assunto bem interessante. Creio que sua posição seja a de que a há duas narrativas e que jogamos jogos de linguagem diferentes em cada domínio. .

    • 06/07/2016 at 15:27

      Bem mais que duas, Mariano. Quantas pudermos criar e atrair conversação razoável.

  5. Franklin Mariano
    05/07/2016 at 22:19

    Paulo , que texto mais interessante! É exatamente o que venho pensando a respeito. Em minha opinião parece que o debate sobre a escola sem partido está cheio de gente com certezas dos dois lados.

    Eu apenas gostaria de acrescentar algo à sua discussão, uma vez que sou advogado recém- formado e esse assunto me interessa profissionalmente.

    Quando voçê fala de dois níveis de discussão , ( 1) constitucional e (2) epistemológico, talvez a distinção não seja tão forte. Exatamente pelo que voçê discute.Por que para determinar o que é constitucional exige-se também uma prévia discussão epistemológica. Há um senso comum fortíssimo em relação ao direito, inclusive entre especialistas e cidadãos em geral, de que advogados e juristas trabalham com proposições “factuais”, então a visão do senso comum , assim como da escola base, afirma que o direito trata apenas de relatos factuais de livros jurídicos. O que não deixa de ser uma posição a ser discutida. No entanto, como a moderna filosofia do direito vem mostrando, as práticas jurídicas são essencialmente interpretativas : cidadãos e juristas invocam normas e leis, mas fazem-no recorrendo a conceitos, valores e princípios que tem apelo moral, político, ideológico. E em muitos casos é inevitável e imprescindível que seja feito dessa maneira.

    Assim, o tema que voçê discute é importantíssimo,inclusive, para o direito e para o papel das cortes superioras. Assim como na escola, o positivismo é algo que deve ser levado a sério e discutido nos tribunais também.

    • 05/07/2016 at 23:00

      O nível 1 e o 2 não precisam de hierarquia do modo como eu faço filosofia – sou um antifundacionista.

  6. 05/07/2016 at 22:08

    voce escreveu um monte de asneira dentro do seu intelecto, voce deve ter estudado muito, mas nada do que acha que aprendeu vai servir para levar este pais para frente pois so filosofia nao enche barriga de ninguem nem da emprego para mais de treze milhoes e meio de desempregado, as empresas quebrando empresario se matando pois eles nao sao filosofos, eles fazem acontecer e por causa de meia duzias de pseeudos intelecto e um presidente analfabeto que como voce sabe conduzir o povo como um rebanho de desinformado por faltas de cultura nas ideologias esquerdistas que esta esquerdaa esta processando nas escolas eu taalvez nao tenho a sua bagagem academica mass eu penso eu vejo eu raciocino portanto eu sou contra

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo