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19/08/2017

É possível um mundo sem muros?


Separar-se e criar um campo próprio imunitário é uma regra exposta nas antropotécnicas de Peter Sloterdijk. O homem é, para ele, um designer de interiores – desde sempre. Põe e repõe o útero. E então um dia percebe que a própria Terra é um tipo de nave espacial, um grande útero, que caminha pelo espaço. Mas, ainda quando percebe isso, também percebe que o interior da nave continua com divisões que se propõe a serem mini cápsulas. Há muros, muretas e muralhas por todos os lados.

O problema mundial atual não é o de criar uma grande sociedade humana sem muros. O que se busca atualmente, queiramos ou não, é a manutenção do nosso trabalho de reprodução celular em todos os níveis, de modo que nossas esferas imunitárias tenham sua membranas segundo um sistema de comportas que possa manter o nível de imunização, sem que isso se torne uma barreira completa. Do nosso corpo ao corpo dos animais e outros e chegando às nossas cidades de nações, precisamos de sistemas de comportas, membranas ativas.

Membranas ativas são muros. Mas não quaisquer muros. São sistemas de comportas que permite que o palestino possa vir para o mundo de Israel, que o mexicano possa vir para os Estados Unidos, que o refugiado da Síria possa entrar na Europa e que o nordestino possa continuar vindo construir o metrô em São Paulo. Nenhum lugar em que a bolha deu certo pode ter uma membrana rígida. Para a bolha dar certo é necessário, no interior, um regime de transição no desiderato do rareamento do serviço difícil e da ampliação do serviço fácil. As bolhas não se automatizam de modo instantâneo. Há lixo para ser recolhido que não é feito por máquinas. Estamos num longo processo cujo objetivo é fazer com que as células possam sobreviver de mitocôndrias próprias. não poluidoras, auto-limpáveis. Alguém tem que energizar tudo, e para tais temos artistas e novelas, mas ainda temos de construir as calçadas e lavar banheiros. Nesse ultimo caso, as membranas, os muros ativos, precisam saber deixar passar os que se põem como voluntários do exterior para vir para o interior, a fim de enfrentar a coleta do lixo, as privadas que precisam ser limpas e tudo o mais desse tipo. Há membras organizadas para tal, há membranas cuja organização é espontânea. Nenhum maluco vai construir um muro entre o México e os Estados Unidos de modo a deixar texanos tendo de lavar banheiros. Mexicanos nasceram para tal.

O problema do Muro de Berlim foi que ele não era uma membrana, como os modernos muros. Ele se fez de pedra e ideologia. Membranas podem ser de vários materiais, menos o ideológico. As membranas devem ser pragmáticas. Um mexicano que corre no deserto para entrar nos Estados Unidos deve ser abatido de longe, pelos rifles dos Rangers. Mas se forem dez mexicanos, não custa deixar passar dois. Assim funcionam todos os muros atuais. Por isso eles podem durar mais que o Muro do Berlim. São membranas celulares, não propriamente muros. Devemos saber equalizar as necessidades internas, pesando quem usa o banheiro e quem lava tal coisa.

Mas isso não elimina problemas. No interior, podem surgir trabalhadores de lugares decadentes, que vão reclamar da imigração ilegal, como quem votou em Trump ou quem fez os ingleses quererem ficar mais longe da Europa, criando uma membrana maior que o Canal da Mancha. Então, os interiores se fazem caóticos por alguns momentos. Membranas burras não perduram.

Olhando por essa dinâmica, a dos interiores e exteriores, podemos perceber a razão pela qual nunca os Estados Unidos, seja por meio de democratas ou republicanos, criou de fato um sistema de ajuda econômica devida ao México, de modo a estancar o fluxo migratório exagerado. Nunca quisemos, no Brasil, realmente parar a “indústria da seca”, de modo a interromper de vez o fluxo dos povos do nordeste para São Paulo. Há um medo generalizado das classes médias, no mundo todo, diante de suas calçadas, banheiros e outros empregos insalubres. Em alguns lugares onde minorias (como os negros americanos) deixam de fazer o serviço fedorento, é necessário tornar o fluxo migratório uma oportunidade maior.

É impossível para seres como nós, gerados por sistemas celulares e por sistemas placentários na base de funcionamento de membranas, repentinamente deixarmos de ter mães, úteros, placentas e perímetros inteligentes. Esse modelo é nosso, é o que nos fez o que somos.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 23/11/2016

Fotos significativas da fronteira Estados Unidos – México: Clique aqui.

Foto da capa: placas de metal que fizeram muro entre Estados Unidos e México vieram de material de uso do Exército Americano no Vietnã, onde os americanos estiveram durante vinte anos, numa guerra de preservação de outro muro, aquele que existia entre Sul e Norte.

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9 Responses “É possível um mundo sem muros?”

  1. Eduardo Rocha
    28/11/2016 at 17:56

    Paulo, já que para Peter Sloterdijk as religiões não existem, pois a própria religião não e mais religião ela virou pura prática. Como Sloterdijk diz que a substituição da vida contemplativa (cartesiana do sujeito-objeto) pela vida ativa, de Hannah Arendt, mas tudo isso submetido à verdadeira vida, a vida performativa. Então não existe nenhum tipo de transcendência ou metafísica para ele? E esse aspecto das religiões como uma “educação física” é bastante evidente, por exemplo, no Islamismo onde as preces não são apenas uma manifestação de fé, mas também um caráter de manutenção da forma para projetos de combatividade sagrada?

    • 29/11/2016 at 00:55

      Eduardo eu não vi nunca isso em Sloterdijk, que religião não existe. Onde você leu?

  2. denis
    27/11/2016 at 23:49

    No paraíso sim..Rs, Como ainda não chegamos no paraíso. Vamos continuar a colocar muros em nossas casas. e conseqüentemente nas fronteiras, protencionismos, barreira e etc etc etc etc etc etc , O mundo e assim mesmo, prof vc sabe mto mais do que eu

  3. Paulo
    24/11/2016 at 00:05

    Paulo, vc acha provável que o Bolsonaro ganhe na próxima pra preidente?

    • 24/11/2016 at 11:45

      A extrema direita é burra demais, e nunca passa de 15% dos votos. Não fale em Trump não, Trump tem mulher bonita e é milionário, e não ganhou no voto popular. Além do mais, Hilary estava desgastada demais.

  4. Gizeli da Cruz
    23/11/2016 at 19:08

    Bem, então sobre esta análise isto explica porque eu tinha de ouvir na faculdade que os “pedreiros” e os “lixeiros” para existir não precisam da Escola Superior(este Hierofante mágico!); lhes basta saber manusear ferramentas e tal… Eu sempre reagi mal ao ouvir isso, por dois motivos:
    1. Isso é uma forma de totalitarismo subliminar, pois, por quê o “pedreiro” tem que nascer em Austin (bairro de Nova Iguaçu) e o diplomata tem que ter morado em Austin (EUA)? Eles simplesmente não podem escolher? Conheço gente de “bom berço” que descobriu a felicidade se tornando padeiro em Lumiar (RJ) ou pedreiro em Palmas (TO);
    2. Então os processos sociais são osmóticos (com as trocas filtradas pela parede celular ou membrana) e não simbióticos, como gostaríamos de crer? O poder de polícia (Foucalt, não estou falando de estado policialesco) age então como esse filtro que regula estas trocas?
    3. Onde está a “estabilidade” num sistema desses? Mesmo os seres vivos alteram seu design quando sua sobrevivência depende disso. Ou, o discurso de Sloterdijk apenas toma o discurso biológico como alegoria ou possibilidade de interpretação de fatos?
    4. Para onde a Filosofia vai? Já se deu conta que os sofistas voltaram, e com a carga toda.

    • 23/11/2016 at 19:15

      Gizeli! Slorterdijk não trabalha com noção “biológica” ou coisa assim. Sua noção é um tipo de holismo, como o “parlamento das coisas”, de Latour. No caso dele, fala-se em antropotécnicas. É o que usei para descrever a coisa. Agora, um sistema de interior com membranas não é uma gaiola, comportas podem funcionar bem. Depende de como as construímos e de como é o fluxo. A América teve comportas relativamente boas, tanto é que as pessoas diziam “vou fazer a América”. É preciso pensar as coisas com a cabeça não muito cheia.

  5. 23/11/2016 at 10:49

    Me pareceu Max Weber, o “maquiavel da era do aço”, lendo Peter Sloterdijk. Uma realpolitk que sabe discernir qual membrana a ser adotada: se as membranas burras (ideológicas) ou as inteligentes (pragmáticas), ainda assim, elas são o melhor filtro para entendermos o contexto atual. Brilhante texto!!!

    • 23/11/2016 at 11:07

      Mas você não leu Peter Sloterdijk, você leu a mim, cuidado. Ele nada tem da gaiola de Weber, ao contrário, ele é francamente contrário a tal metáfora. Cuidado.

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