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19/08/2017

Drácula, Kong, bichas e dramas baratos no cinema


Os vampiros de hoje são postos em comédias dolorosamente ruins ou em ficção juvenil babaca. Como que um personagem do tipo do Drácula, tão sombrio e altivo, desceu tanto?

Nunca devemos esquecer que Drácula era um nobre. Não um nobre visto pela literatura pré-moderna, mas pela literatura da entrada da modernidade, portanto, já burguesa. Drácula e vampiros do time já nasceram sob o signo da decadência. O que é um vampiro senão alguém que não trabalha e vive sugando os produtivos? O que é alguém que suga à noite, quando os que produzem dormem? O que é alguém que precisa daquilo que já está rareando no mundo, as virgens?

Todas essas perguntas são respondidas por um termo só, no imaginário criado pela literatura burguesa: o nobre. É ele que tem de aproveitar a noite, no que resta dela antes que a eletricidade a elimine de vez, para procurar as últimas migalhas das sobras de impostos e de aluguéis. Logo todas as mulheres já não terão mais nenhum sangue puro. Todas elas já terão sido possuídas não só por banqueiros e feirantes, mas até mesmo por operários. Não haverá nenhuma primeira noite. Será o fim dos poderes de Drácula. Pior ainda, o fim de sua existência. O banco de sangue do hospital público não lhe terá nenhuma utilidade.

O mundo burguês se dedicou a criar em Drácula o suprassumo do perigo e do mal e, ao mesmo tempo, a figura mais frágil do que o herói proletário posterior, King Kong.

Kong representou não o inimigo da burguesia, mas a figura de seu arrependimento. Já não o nobre dono da vampirização social, mas as grandes massas com força brutal de destruição e, ao mesmo tempo, tão inocentes quando o “bom selvagem” rousseauniano ou seu Emílio. Kong morto pela tecnologia bélica e pela incompreensão governamental e dos donos das mídias é, assim, a vítima da burguesia que a própria burguesia não soube cuidar.

Em uma época de King Kong, batem em retirada Drácula e os vampiros. À medida que os grandes monstros e as grandes catástrofes foram dominando o cinema, os vampiros foram tendo de bancar suas carreiras na decadente comédia “B” e “C”, só tendo algum êxito de bilheteria e de leitores agora, nos filmes já padronizados próprio do gosto totalmente deteriorado de nossos tempos, especialmente da juventude iletrada.

O inimigo nobre já nem de recordações vive. Mas agora, também o próprio Kong não tem mais sentido. O homem moderno, herdeiro do burguês, não tem mais inimigos. Tudo que ocorre contra ele são seus dramas do que foi seu maior investimento, o seu eu chamado de sujeito, e que agora se mostra incapaz de render alguma coisa. Desse modo veio o romance standard e o cinema de pequenos dramas. Entram em cena os demônios diminutos e entediantes: minorias querendo direitos, maiorias conduzidas por choques, ficções lunáticas que não são mais da Lua, mil relações entre casais de todos os tipos e idades. Transbordam as repetições da vida familiar burguesa e seus dramas chatos agora refeitos para serem vividos por negros, lésbicas, homossexuais, anões, macacos, robôs, clones e sistemas operacionais.

Em um mundo tão pequeno, Drácula e Kong se transformam em surpresas de Kinder Ovo, só podem surpreender crianças japonesas bem pequeninas. E se os super poderes ainda cobram alguma coisa, que se recupere as histórias em quadrinhos falidas da Comics, e que as figuras ainda gays do Capitão América e de Thor apareçam por aí ao lado do Homem Aranha que, enfim, não é nada.

Ao lado dessa merda toda, os argentinos têm conseguido ainda surpreender na arte do cinema. É um feito espetacular.

Paulo Ghiradelli, 56, filósofo. A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

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6 Responses “Drácula, Kong, bichas e dramas baratos no cinema”

  1. Renato
    08/07/2014 at 11:52

    Sim, mas ter o inimigo dentro de casa, trazer a guerra para o que sobrou (?) do que seria (?) o núcleo da intimidade burguesa, é uma perspectiva infernal.

    Se bem que, pensando melhor, essa esfera íntima nunca esteve em paz, a não ser como imaginário ou como ideologia…

    • 08/07/2014 at 13:17

      Renato, será que você não resolveria essas questões lendo o texto? Parece que está claro. Não sei se percebeu mas não é esfera íntima burguesa, ela se perdeu, perdemos a distinção público-privado.

    • Renato
      08/07/2014 at 14:53

      Ok, entendido. Vou checar melhor.

  2. Juca
    07/07/2014 at 10:24

    Resta aos filmes que ninguém vê ou conhece fazer justiça ao conde Drácula. Embora não tenha vampiros, Stoker (lançado no ano passado, do diretor de Oldboy) é totalmente um filme de vampiros – onde o vampiro faz a virgem senhorita descobrir sua sexualidade. É um filme muito freudiano, com belas (e perturbadoras) cenas, vale a pena. Mas não sei se o vampiro do filme é um ‘inimigo’ ou não.

    Outro filme recente de vampiro, Cronos do del Toro, o vampiro é praticamente bom, embora assuste. É, pois é.

    Ler seu texto me fez pensar que o próximo passo do Drácula é tornar-se pedófilo, hehehe. Não temos virgens, mas temos crianças!

    • 07/07/2014 at 11:22

      Juca sim, isso é já o subproduto. Não cola. A onda passou. Nós os herdeiros dos burgueses, se tivermos inimigos, são como você disse: do âmbito familiar, pedófilos.

    • MARCELO
      09/07/2014 at 10:30

      Gostei muito da atitude do
      Papa em receber as vítimas
      de padres que abusaram
      de menores de idade.
      O Pondé e o Olavo de
      Carvalho estão se
      mordendo até agora.

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