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09/12/2019

Do educador Paulo Freire ao palestrante Leandro Karnal: “tudo é político”, isso vale?


Envolver a política em tudo é algo que precisa ser repensado, para deixarmos nossas narrativas menos confusas.

Quando da vigência do regime militar de 1964, a retórica de um de seus homens de frente, Jarbas Passarinho, dizia o seguinte: “estudante é para estudar”. Nada mais verdadeiro. Hoje podemos dizer isso, e com razão. Mas, na época, isso queria dizer: estudante está politizado demais, fica muito tempo fazendo política e pouco tempo na sala de aula. E queria dizer ainda mais: os estudantes estão todos com opção à esquerda, e o regime aceita oposição, mas não contestação, ser de esquerda é fazer contestação.

Por causa disso, logo surgiram os novos burocratas do MEC, alinhados ao regime militar, dispostos a fazer do ensino, tanto médio quanto universitário, um lugar despolitizado. A ideia central não era tola. Ela vinha de uma linha de um tipo de positivismo sociológico (de cunho não uspiano e francês) de linha anglo-saxã, que afirmava que é possível ter uma educação com conteúdos que seriam objetivos e neutros politicamente. Se a escola se pautasse por isso, os estudantes aprenderiam o que tinham de aprender, sem excessivos juízos de valor postos, segundo essa ótica, pelos que haviam enodoado o ensino com a politização. Isso se casava com o ideal da Revolução de 1964, que dizia que todos os políticos eram corruptos. Optar por uma educação política era, então, optar não só pelo esquerdismo, mas pela corrupção. Assim pensavam os generais e seus técnicos civis, senão todos, ao menos a maioria.

Foi aí que a oposição, tanto no Brasil quanto aquela já no exterior, exilada, veio com o mote “tudo é político”. Paulo Freire despontou na época por conta do êxito de sua tese, publicada nos Estados Unidos e divulgada pela Igreja Católica no mundo todo, e ele foi um dos principais teóricos anti-regime militar a insistir nesse mote: toda educação é política, tudo tem articulação com a política. Depois da Anistia (1979), quando Paulo Freire foi professor na PUC-SP (época em que recolhi material para, bem mais tarde, escrever o Lições de Paulo Freire (Manole)), ele já havia abandonado esse ideia tão genérica. Ele havia refinado a tese, deixando-a mais ou menos assim: “tudo tem uma articulação política porque entendo a política não como administração da polis, mas com relações de poder, e isso dentro de determinados contextos”.

Hoje em dia vemos na boca de palestrantes midiáticos a frase “tudo é político”, “tudo envolve decisões políticas” etc. Isso é errado. Claro que quando digo que uma flor é bela não estou ligado a questões de poder, não necessariamente. Juízos estéticos e outros não estão, a priori, envolvidos com o poder. Habermas defendeu essa tese ao arriscar que mesmo juízos intelectuais não estão articulados ao poder. A frase “feche a porta” é uma frase de mando, envolvida com o poder, mas para o poder se manifestar a frase precisa ser entendida na sua pureza intelectual, ou seja, é preciso saber o que é “porta”, “fechar” etc. Habermas usou disso para dizer que, antes do contexto ideológico da fala, há um contexto puramente intelectual,  que funda a linguagem num plano puro e ideal. A “comunidade ideal de fala” é um ponto de partida quase-transcendental, e é um horizonte utópico político no ponto de chegada. Foi assim que Habermas deu instrumentos para relativizar de vez Paulo Freire e para eliminar o que virou uma tolice, que é dizer que tudo é político.

Mas se um palestrante como Karnal, que é jovem e não viveu o regime militar senão quando este já estava acabando, pega a ideia da politização de tudo, e afirma que fato histórico importante envolve decisão política – e isso para contestar o projeto Escola Sem Partido atual -, então temos de lembrar tudo que lembramos até aqui para mostrar que isso é um erro. Um erro duplo. Podemos contestar esse erro, didaticamente, assim: o aparecimento do Viagra foi casual, foi um fato histórico sem dúvida, mas não foi um fato político. E podemos contestar dizendo mais: ter a pretensão de ser um positivista não é um erro, e podemos sim pensar num assunto ou conteúdo escolar que esteja, ao menos em uma instância, sem vínculos políticos (Marx acreditava nisso). Ninguém pode achar que a invenção do sutiã não é um fato histórico nos costumes, mas isso só secundariamente está envolvido com a política e só nos anos 60 passou a ser visto, ao menos num momento, como alguma coisa que podia ter relações com o poder. (Aliás, o conceito de biopolítica de Foucault não diz que tudo e´político, é bem outra coisa).

A política é uma área da vida humana, da atuação dos humanos, seja a política como administração da polis seja a política em termos amplos, como o que envolve relações de poder. Há dezenas de outras áreas, perfeitamente historicizáveis, que envolvem relações que ou não são políticas ou só o são secundariamente.

Espero que isso tenha esclarecido de vez essa banalização do “tudo é político”, dito por palestrantes por aí e fazendo gente que procura guru segui-los sem pensar. Aliás, isso sim é político: a proliferação de gurus midiáticos que afirmam que a TV é ideológica, e não saem dela, proliferando o discurso do senso comum.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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10 Responses “Do educador Paulo Freire ao palestrante Leandro Karnal: “tudo é político”, isso vale?”

  1. 24/09/2016 at 11:09

    Eu passei por um pensamento semelhante, mas percebo que preciso primeiro saber o que é política, apesar do trecho dito por PF “mas com relações de poder, e isso dentro de determinados contextos”.

  2. Thiago
    20/07/2016 at 14:22

    Mais um texto excelente, Paulo. Eu penso que as pessoas buscam esses gurus por preguiça de pensar, aí terceirizam a opinião de outros para ser delas mesmas com base em gatilhos mentais de autoridade e talvez gostem da boa dicção deles, e assim acabam agindo de maneira irrefletida e sem pensarem com a cabeça, que nem quando Hanna Arendt falou dos nazistas. Obrigado por fazer a diferença.

  3. 08/07/2016 at 09:01

    Thiago você está com problemas com o Karnal? Não consegue admitir que ele não sabe o que fala? Ele não sabe.

  4. 08/07/2016 at 09:00

    Thiago nem mesmo potencialmente.

  5. Leonardo
    07/07/2016 at 18:00

    Belo artigo, Paulo. Acho que é preciso desmistificar muitos desses palestrantes profissionais hj em dia, que saem por ai a comentar/opinar sobre tudo, por meio de frases feitas e do politicamente correto. Sempre dizendo o que a plateia quer ouvir. Faz lembrar a velha figura do sofista na Grécia de Sócrates…

    • LMC
      07/07/2016 at 19:17

      Leonardo,quem não gosta do politicamente
      correto é você e seu ídolo Pondé.

  6. João Neto
    07/07/2016 at 16:38

    Viva, Paulo.
    Quando vejo a enxurrada de videos de palestrantes que tem circulado pela net e zap zap com suas certezas e definições que eles acreditam incontestáveis e absolutas tenho a mesma convicção que tu tens de que no meio de algumas afirmações aceitáveis estão outras ideologias enfiadas e emaranhadas com conclusões que deveriam ser discutidas mais a fundo. Fecham-se portas e colocam-se pontos finais em tudo. A simplicidade das afirmações facilita o rebanho de fãs a encontrarem um caminho, afinal para muitos pensar cansa e muito. Esquecem-se de coisas simples, mesmo de ditos populares (que tem lá sua sabedoria dentre outras mais aademicas) como por exemplo da frase “ni jamais ni toujours”. Todos são principes e todos são semi-deuses. Depois de ver um destes livros declamo em voz alta o Poema em linha reta do Fernando Pessoa. Será que só a gente é assim?
    Beba água.
    Abc

    • 07/07/2016 at 18:02

      João Neto, esse pessoal atingia só quem não ia para a escola, mas agora, é preciso de vez em quando dar certo combate, para que os estudantes saibam que esse pessoal é só blá blá blá

    • LMC
      11/07/2016 at 14:19

      Que o Paulo Freire saiba no além que as
      mulas do Escola Sem Partido queimariam
      os livros dele,e se estivesse vivo,queimariam
      ele também.Pra eles,o PF é marxista,
      bolivariano,integrante do Foro de São
      Paulo,blá,blá,blá,blá….

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