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27/06/2017

Para além do cogito lógico, o cogito sonoro


Peter Sloterdijk falando do que é a filosofia contemporânea, e da necessidade de ultrapassar o cogito lógico para irmos ao cogito sonoro. 

Lao Tzu ficou oitenta anos no útero, só então nasceu.[1] Por isso, o mestre do Taoísmo foi um sábio. Como Zaratustra, que veio da caverna já com sabedoria e só então desceu a montanha, Lao Tzu não veio igual a nós ao mundo, prematuramente aos nove meses. Nem ele e nem Zaratustra buscaram, como em Platão, o conhecimento fora da caverna. De maneira alguma Lao Tzu e Zaratustra viveram em um mundo de ilusão interno à caverna, para então encontrar o mundo real fora dela. No escuro da caverna-útero, onde ter olhos não importa porque tudo é vivido por vibração e sinestesia, é que o “instinto de relação”, descrito por Martin Buber como sendo próprio da criança, se tornou um instinto. Toda a sinestesia necessária à formação de um ser-aí-relacional é gerada na “experiência” da caverna-útero. Nela tudo é “entre”, tudo é “meio”, tudo é simbiose e ressonância.

Na esfera uterina cumpriu-se a ontologia de Tales, “tudo é água”. Anaximandro com o indeterminado e Anaxímenes com o ar tiveram de esperar. Apesar de que não devemos desprezar que o indeterminado de Anaximandro é o que mais se aproxima com o segundo arkhé uterino, o som, a sonoridade que banha todos segundo ondas sinestésicas que não terminam, mas apenas são canalizadas, quando se tem o ouvido. Se pudéssemos ficar oitenta anos nesse campo, como Lao Tzu, sairíamos para a luz sem dar tanta importância ao “claro e distinto”. O iluminismo filosófico? Chego a duvidar de que pudesse ter existido! A metáfora das “Luzes” não seria a nossa principal metáfora no campo do conhecimento. Seríamos menos enganados no desprezo que damos ao ouvido. Então, junto da pergunta “onde estamos quando estamos no mundo?”, de Sloterdijk, sempre viria outra, dele mesmo: “onde estamos quando escutamos música?”. Duvido que Sloterdijk não se sinta regozijado quando lê a frase nietzschiana “sem a música a vida seria um erro”. Ou seja, talvez nem houvesse vida e, havendo, seria um erro, a vida de algo pouco esperto.

Lao Tzu saiu do útero mais sábio que muitos, e Zaratustra, por sua vez, veio da caverna para lançar seu evangelho, a sua boa nova; ambos tiveram tempo de viver as fases pré-orais, quando tudo é o meio, quando o meio gera e proporciona o que é necessário, quando todas as ressonâncias que constituem o meio constituem o que devem constituir. É necessário ir do meio chamado líquido amniótico que se mistura com o cordão umbilical, com o sangue, com ondas vibráteis sonoras e de ondas líquidas, com a experiência de se estar entre paredes semi-elásticas, para o meio em que a vibração sonora tem fundamental importância, chegando então ao meio em que a respiração se impõe, mas que, ainda assim, se mantém sonoro. A segunda fase pré-oral, a fase sonora, é a que cria o contínuo entre as transformações esféricas. O som é o que não cessa. Por isso mesmo, talvez o som seja, mutatis mutandis, o arkhé mais digno de nota. A transmutação da esfera íntima tem na sonoridade seu elemento contínuo.

Mas se o som é de tal importância, como compreender filósofos como Sócrates, que apesar de dançarino, não parecia ser um grande apreciador de música, ao menos não aquela caracterizada pela vinda de Dionísio. Como compreender Descartes, o homem que fundamentou tudo no cogito, no silêncio do pensamento? Sloterdijk mostra então que é necessária uma pequena revisão na história da filosofia, a partir da esferologia enquanto uma compreensão que faz justiça aos ouvidos, ao som, ao mundo de vibração sonora.

Sloterdijk lembra que Sócrates ganhou fama por ficar em pé, sem comer e beber, e completamente alheio ao que estava ao seu redor. Nesse período, Sócrates não estaria envolto em outra coisa senão com um som capaz de eliminar o som exterior. Uma melodia? Uma voz? Várias vozes? Se o retiro de Sócrates era para o pensar, então ele não exercia senão o que Platão chamou de pensamento: “a conversa da alma consigo mesmo”. Uma conversa sem audição? Impossível. Ouvimos vozes quando pensamos uma vez que nosso pensamento é dependente da linguagem.

Quanto a Descartes, Sloterdijk é mais radical. Descartes teria se enganado ao não bem notar um cogito sonoro. O pensador francês acredita na certeza enquanto pensa, mas não se dá conta, ou não valoriza, que ao alcançar o si-mesmo é dependente de escutar-se a si mesmo. Parece não ter presente que é somente nessa situação que pode estar seguro de si mesmo e de seu pensamento, porque o escutar-se precede o seu pensar-se. É como se ele tivesse podido ficar absorto no conteúdo do pensamento, não dando atenção alguma ao som da voz em seu cérebro pensante. Descartes não atenta para o cogito sonoro, por isso pega o caminho da descoberta da certeza, e faz dela o fundamento. Caso tivesse dado atenção para o cogito sonoro, e não prioritariamente para o que mais se parece com um cogito lógico, as coisas teriam sido diferentes. A filosofia moderna não teria sido a filosofia da “certeza do cogito”. Pois a atenção às vozes e sons interiores é impressão pura; trata-se de uma disponibilidade para presenças acústicas eventuais; não se ganha com elas um fundamento, mas uma experiência de se estar sob as ressonâncias. “O pensamento está no sujeito como o som no violino: em virtude de uma relação de vibração”. “Os homens são, enquanto pensam, como instrumentos de música para representações que significam o mundo. Ora, “quando o ‘instrumento’ repara em si mesmo, torna-se evidente: não sou um fundamentum inconcussum, senão um medium percussum.[2]

Sloterdijk tira daí uma chave para expor, segundo o seu vocabulário, o que é a reação à filosofia moderna, ou seja, a própria filosofia contemporânea. Para ele, a filosofia contemporânea se esforça para “desfazer as imagens idealistas enganosas do cartesianismo e em expulsar as quimeras da subjetividade absoluta, em favor da uma inteligência personalizada. Existencialidade em lugar de substancialidade, ressonância em lugar de autonomia; percussão em lugar de fundamento”.[3] Entender essas substituições buscadas pela filosofia contemporânea é entender o quanto a sonoridade presente na microesfera da intimidade se fez importante para o Dasein. O do ser-aí é um aí vibrátil.

O que se está dizendo, nesse caso, é que o do ser-aí não é prioritamente “o conjunto das relações sociais” (Marx) ou “a intersubjetividade” (Habermas) ou coisa do tipo, mas a prioridade do meio e, basicamente, a prioridade da sonoridade da esfera íntima inicial, que se perpetua e se transforma em uma história da subjetividade que é a história da esfera – essa história que se descobre na investigação denominada “arqueologia da intimidade”. Onde estamos quando estamos no mundo? Em esferas. Onde estamos quando escutamos música? Imersos na ressonância da esfera sonorizada. Assim, o Dasein visto dessa maneira, não procura colocar as coisas em distância, para melhor ver, mas se põe imerso no que é vago, penetrante, moldado e moldante. O homem tem um “instinto de relação”, e não um aprendizado de relações vindas após a fase oral. Uma narrativa ontológica que leva isso em consideração pode nos descrever de modo bem menos substancialista, individualista. Optamos então por uma descrição que evita o essencialismo, pois falar em essência é sempre perigoso quando “as coisas não vão bem”, pois é a hora em que se quer ficar com o essencial para se descartar o que ganha valor periférico. Nós bem sabemos que isso não tem consequências só sobre o conhecimento, mas terríveis consequências ético-morais, as eliminações que ocorrem na vida prática.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

[1] Sloterdijk, P. Sphären I. Blasen. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1998, p. 308.

[2] Sloterdijk, P. Extranãmiento del mundo. Valencia: Pre-Textos, 2008, pp. 302-3.

[3] Idem, ibidem, pp. 303.

escuto

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6 Responses “Para além do cogito lógico, o cogito sonoro”

  1. Márcio Nunes
    23/09/2015 at 00:21

    Boa noite Paulo,
    sou professor de Geografia do estado do Rio e do município de Quatis (interior) e estou cursando Pedagogia pela UNIRIO EaD no polo de Volta Redona. Agora na disiciplina Seminário I me deparei com um texto que foi postado sem identificação e que pesquisando descobri ser do filósofo Peter Sloterdijk através de uma página da internet que você assina. Assiti ali um video seu muito bom sobre a questão do Thymós. Foi a primeira vez que tive contato com esta rerflexão e achei muto bom.
    Bem voltando ao asunto, estou lhe escrevendo, pois queria uma dica sua sobre como ler este texto que achei a linguagem muito difícil e pensei que talvés tenha um caminha que possa me ajudar na leitura. O texto me parece ser uma parte de um dos livros do filósofo que tem como título “onde estamos quando ouvimos música” do livro O estranhamento do mundo. Queria aproveitar para dizer que gosto muito do seu trabalho embora conheça somente seus livros de Filosofia da educação, que descobri na faculdade de Geografia e que fico feliz de retomar o contato com sua obra novamente.
    Um grande abraço.
    Márcio

  2. Matheus Kortz
    24/02/2015 at 10:25

    Agora sim Sloterdijk me pareceu uma leitura prazerosa.

    • 24/02/2015 at 12:16

      Kortz sua frase me decepcionou! “Agora sim?” Putz!

  3. 23/02/2015 at 19:29

    Paulo, estou pensando bastante, dentro da teoria da mídia de Sloterdijk, na internet, no telefone e em outros meios de comunicação. Se eu pensar a internet, por exemplo, como um fluxo, eu me livro da relação sujeito-objeto e também da intersubjetividade. A minha dificuldade está em como a esfera íntima pode aparecer em um ambiente em que as relações são entre perfis com identidades definidas.

    Quando estou em relação com a minha mãe, pela internet, pode existir ressonância? Ainda estou com um pouco de dificuldades para formular as questões, porque não ainda não absorvi bem o vocabulário sloterdijkiano.

    • 23/02/2015 at 19:59

      A internet não é um útero, ela é uma confecção de quem veio de um útero, alguém que, por isso, tem “instinto de relação”, além disso, trata-se do Dasein que é designer”. Você está fazendo transposição mecânica das coisas, sem ver que o Esferas I mostra a dinâmica das esferas, a história da subjetividade enquanto uma arqueologia da intimidade.

    • 23/02/2015 at 20:18

      Agora sim, entendi! Obrigado.

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