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23/10/2017

Django só é possível à luz de Sloterdijk


A história da cultura tem sido contada e escrita por meio de uma perspectiva erótica. O filósofoDjango Livre alemão Peter Sloterdijk, ao menos no livro Ira e Tempo, tenta abordá-la a partir de uma perspectiva timótica. Com Django Livre, Tarantino faz o mesmo no cinema.

Eros é o deus do amor. Eros ou o amor é a força que une. Cada coisa no mundo busca a outra porque não tem o que a outra tem. A carência cria o impulso para a aproximação. O amor (eros) realiza então o enlace, a junção, a fecundação. Nossa história toda sempre foi contada como uma história de guerras e alianças, conflitos e paz, brigas e conciliações, lutas de classes e colaboração de classes, desuniões e uniões. Esse tipo de história conta muita coisa, mas deixa mais um bocado de outras de lado.

Como fazer uma história em outra perspectiva? Podemos investigar a psique e arrancarmos outros elementos humanos não enfatizados? Que tal irmos à psique em sua origem filosófica?

A psicologia de Platão mostra uma alma (psique) tripartite: razão, apetites e uma parte intermediária chamada timos, o lugar daquilo que nós modernos, ao optarmos pelo regime dualístico de razão e paixão, colocamos no segundo campo, o campo das emoções e sentimentos. Coragem, fúria, medo, ira etc. – eis aí os elementos timóticos. Não são elementos nem racionais e nem sensíveis. São elementos emocionais, paixões. Esses elementos timóticos, na tradição grega e platônica, são responsáveis pelas nossas identidades. Por eles e com eles exigimos reconhecimento, ou seja, queremos que o outro nos aponte segundo o que queremos ser e, principalmente, parecer. Uma história timótica é uma história em que o fio condutor é o reconhecimento, ou seja, a identidade arrancada da ira, da vingança. É isso que aprendemos de Platão, na leitura instrumental de Peter Sloterdijk

Django Livre nada é senão essa “virada para a ira” feita por Tarantino. (1)

Tarantino sempre trabalhou com a violência e a vingança. Mas ainda não fazia uma história timótica. A vingança aparecia em seus filmes para cumprir uma função aristotélica: a catarse. Em Django livre ele muda. A vingança aparece como um elemento de reconhecimento, de criação de identidades. Eis então que a trama aparentemente simples de Django se torna uma das tramas mais complexas, em termos de profundidade psicológica, de Tarantino.

Alguns críticos do filme caíram na armadilha de Django Livre. Tomaram Django Livre como um filme simples, até simplório. Mas esse pessoal poderia reescrever suas críticas caso levassem a sério essa saída da história erótica para a história timótica.

A pergunta do filme não é outra senão “quem é humano?” Os negros são humanos? Podem eles frequentar a Casa Grande como gente? Nessa hora, já no meio do filme, Tarantino prega uma peça. Ele tira de cena a disputa entre negros e brancos para colocar no centro do filme a incômoda verdade, a disputa entre dois negros para ver quem pode ser chamado de humano pelo branco. Afinal, quem conseguiu colocar sua força timótica – sua ira – contra si mesmo, contra seus desejos, podendo atravessar a soleira e adentrar a Casa Grande? Ou, nos termos do filme: quem conseguiu fazer seu crânio de negro mais parecido com o daquele negro que mais se aproximou do humano, aquele crânio com as marcas naturais da submissão?

O negro Django (Jamie Fox) não tem de se vingar heroicamente do branco Calvin Candie (Leonardo de Caprio). Não! Pois Candie está longe de ser a real maldade. A real maldade é a própria vingança, mas não qualquer vingança. Trata-se da vingança contra si mesmo, que depois se transforma no ímpeto vingativo contra toda e qualquer mudança. Esse mal é o que está encarnado em outro negro: Stephen (Samuel Jackson). (2)

 Esse homem, Stephen, é o vingativo que fez a vingança se virar contra si mesmo, em uma forma não incomum. Negando tudo que pudesse nele representar os desejos, tudo aquilo que poderia lhe mostrar como animalesco, ele passou então, como rei de si mesmo, a temer qualquer mudança do mundo que viesse a lhe jogar na cara uma nova verdade: “olha Stephen, seu sacrifício, sua dor, foram em vão, pois nenhum negro precisa se ferir tanto para ser gente”. O mundo só pode ser mudado uma vez, de modo que toda e qualquer desgraça que se tenha de passar, que ela seja única. Duas vezes, não. Duas vezes seria insuportável. É isso que Stephen pensa e teme. Ele teme que negros e brancos possam se dar bem juntos, esta seria a segunda mudança que faria dos negros obterem o direito de entrar na Casa Grande sem sacrifício. Isso lhe tiraria o reconhecimento que conseguiu com tanto sacrifício.

Stephen é o negro realmente vingativo, não Django. Stephen se vingou de si mesmo na sua louca transformação de animal selvagem africano para animal doméstico americano. Fez-se senhor em uma terra imutável, um cosmos que jamais se alteraria novamente de modo a nunca mais fazê-lo sofrer o que já havia sofrido. Nessa terra sem mudanças, ele adquiriu um segredo: o conhecimento da sua própria psicologia e, portanto, uma arguta capacidade de perceber o significado escondido nos olhares de seus irmãos de pele. Ora, com isso em punho podia transitar facilmente na Casa Grande, tinha uma utilidade a mais do que a de simples animal doméstico.

Stephen aparece no filme duplamente caracterizado. Há momentos em que é o negro velho puxa saco, uma espécie de ama velha do patrão, nada mais que o animal doméstico. Há momentos em que de velho bobo ele não tem nada, menos ainda de escravo. Sentado na biblioteca do patrão como se fosse o dono da casa, com um copo de vinho na mão e com as pernas cruzadas de um modo que só um branco faria, conta ao jovem proprietário de Candyland como este está sendo enganado pelos visitantes. Stephen faz isso porque não pode admitir o mundo alterado. Ele já sofreu demais para conseguir de dentro do inferno se tornar não o ajudante do demônio, mas o próprio demônio. Ele se vingou do destino que teve impondo a si mesmo a mais dura e terrível disciplina: a daquele que põe sua ira contra seus desejos em favor da razão, mas uma razão que não é propriamente sua, mas do outro. Sua razão manda ser servil e matreiro. Sua vingança não pode parar, ela atinge todos que possam sonhar tornar esse mundo ser diferente do que é. Seu ódio de Django não é tanto por Django, mas porque este não quer aceitar o destino, este não quer se ferir para se tornar humano, mas quer se por humano simplesmente porque se acha humano. Este homem, Django, preanuncia para Stephen o mundo alterado, o mundo em que todo o esforço timótico dele contra si mesmo aparecerá como sendo em vão. Trata-se do mundo que, logo depois, realmente é criado pelo principal produto da Guerra de Civil, o fim da escravidão.

Quando Stephen prende Django, o que ele mais quer é mandar o herói para um campo no qual o negro morra pela rotina. Django não quer ferir a si mesmo! Django vive no futuro, um mundo em que um negro anda em um cavalo! Django vive num mundo em que o negro deverá colocar sua ira contra si mesmo em uma quantidade talvez igual a do branco, mas não mais! Ora, para Stephen, Django tem de aprender que esse mundo não pode existir. Que Django aprenda isso voltando ao que há de menos humano na face da Terra: viver sob os ciclos naturais, como fazem os animais, um inseto, o de levantar e quebrar pedras o dia todo, sem nome e sem qualquer aspiração.

Todavia, as coisas não saem como Stephen quer. Django destrói Candyland do mesmo modo que a Guerra Civil, logo depois, colocará pelos ares a escravidão. Vinga seu povo. Mas essa vingança não é a vingança que Tarantino tematiza como a principal. A vingança que move o mundo, e que está na base do que corrói almas e faz história, é da pior espécie, ou, dizendo de outro modo: é a vingança mais dolorida. Trata-se da vingança contra todos os que querem fazer com que duvidemos que o Sol, amanhã, nascerá novamente, em eterna repetição. Stephen diz ao final, agonizante, profetizando o destino sempre igual que ele imagina que será o de todo negro e de todo branco. Ele grita para Django: “você não vai conseguir matar todos os brancos que irão ao seu encalço, eles o pegarão”.

A Guerra Civil desmentiu Stephen só em parte. A escravidão acabou, mas a discriminação não. Aliás, sabemos bem, ela veio bater em nossa porta. Com a discriminação, foram produzidos muito mais Stephens que Djangos. Assim, junto da literatura e da filosofia evocada por Tarantino, seu show de imagens traz de brinde essa possibilidade de continuarmos a pensar sobre o estágio de nossa consciência social atual.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

1. Tarantino dá a dica para os críticos, que não a pegaram: o segredo está na biblioteca da Casa Grande: lá há um volume do escritor negro Alexandre Dumas. Bem, ele é o autor de O conde de Monte Cristo. Sloterdijk lembra que esse clássico de histórias de vingança é um livro de cabeceira de Fidel Castro.

2. A cena decisiva do filme, em que ele se mostra totalmente timótico, é uma cena muda. Trata-se da mudança de expressão de Stephen ao ver Django chegando na fazendo … a cavalo!

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30 Responses “Django só é possível à luz de Sloterdijk”

  1. Maria Madalena
    09/10/2013 at 23:18

    Se essa notícia do Rick for verdadeira é um excelente salário esse inicial de 4 mil e poucos. Ainda mais levando em conta o salário dos brasileiros. A maioria dos brasileiros não ganha mais do que dois salários mínimos.

    • 10/10/2013 at 09:35

      Maria Madalena, pois é, os professores estão todos bem de vida e estão apanhando na rua porque gostam de apanhar.

    • Maria Madalena
      10/10/2013 at 11:16

      Bela tentativa de tentar se passar por mim com o mesmo nick rsrs.

      Deixo todo meu apoio aos colegas professores do Estado do Rio.

      E Rick, ainda que esse salário fosse o líquido nem seria o suficiente.
      E vc certamente não soube fazer o cálculo no site. Procure se informar melhor.

  2. Rick
    09/10/2013 at 07:20

    Paulo, o que vc achou do plano de carreira dos professores proposto pelo gov do RJ? Segundo me informei, o professor no fim da carreira receberia mais de 9 mil.

    • 09/10/2013 at 08:35

      Informe-se melhor!

    • Rick
      09/10/2013 at 13:27

      Paulo, no Rio, a proposta do Eduardo Paes é que os professores recebam, por uma jornada de 40 horas, um vencimento inicial mínimo de R$ 4.147,37.

      Vc disse num vídeo seu que o professor deveria ganhar no mínimo 3 mil. Então, a prefeitura do Rio está de parabéns, na sua opinião?

    • 09/10/2013 at 16:23

      Rick – você quer que eu o leve a sério? Os professores estão nas ruas porque ficaram ricos e, então, de tanto dinheiro, resolveram patrocinar uma festa dos Black Blocs. OK? Acorda vai. Não polua mais meu blog.

    • Rick
      09/10/2013 at 17:31

      Eu não disse que os professores estão satisfeitos, que ficaram ricos ou que essa remuneração é adequada. Só dei a informação.

    • 09/10/2013 at 17:55

      Rick você está mais para informante que para informador.

    • Rick
      09/10/2013 at 17:34

      Aliás, os professores continuam em greve porque não aprovaram o novo plano de carreira, que já foi aprovado no legislativo e cujo salário inicial é o que passei.

    • 09/10/2013 at 17:54

      Pois é Rick, daqui a pouco você vai sair falando que os professores estão ganhando bem e que as manifestações são vagabundagem.

    • Rick
      09/10/2013 at 13:47

      Segundo este simulador, criado pela prefeitura do Rio, um professor sem pós, ganharia no início da carreira 4 147 reais http://www.rio.rj.gov.br/web/sme/simuladorpccr

  3. Maria Madalena
    08/10/2013 at 13:37

    Professor Ghiraldeli, você tem vontadi de fazer algum filme um dia? Gosto do seu trabalho de chargi. Abraço

  4. Rick
    08/10/2013 at 05:49

    Paulo, vc deveria postar textos comentando filmes, com mais frequência. Sempre que leio um desses textos, se não vi o filme, vejo o e adoro.

  5. João Pedro
    08/10/2013 at 01:22

    Você já fez algum trabalho no cinema?

  6. Jocas
    07/10/2013 at 21:17

    Paulo, o Deleuze, aquele que matou a mulher e pulou da janela, era um filósofo cinéfilo.

    • 07/10/2013 at 23:35

      Jocas, parece que você está bem mal informado. Acho melhor, sendo ou não cinéfilo, pular da janela – do décimo andar, por favor.

  7. Rick
    07/10/2013 at 07:55

    O Paulo deve ser cinéfilo. Estou, certo?

  8. Patricinha
    06/10/2013 at 13:39

    Caro escritor Giraldelli, você assitiu a entrevista do professor de filosofia Clóvis de Barros Filho no Programa do Jô, sexta-feira? O que achou? Eu achei interessante e.. hilário.

    bjs.

    • 06/10/2013 at 14:30

      Não, não ainda não vi.

    • Rick
      07/10/2013 at 04:04

      Fiz a mesma pergunta para o PG em outro texto dele.

      Paulo, vc tem de ver a entrevista. Está bombando no youtube. Deveriam chamar o Clóvis para o HC.

    • 07/10/2013 at 06:51

      O Hora da Coruja não funciona por Ibope, funciona a partir das temáticas relevantes que avaliam época e solicitações. Essa é a vantagem de estar em uma TV livre.

    • Jocas
      07/10/2013 at 13:20

      Paulo, vc tem medo de se tornar um filósofo popular, logo de povão, e se tornar um filósofo banal?

    • 07/10/2013 at 13:46

      Jocas, não existe “filósofo popular”, alguns filósofos tem mais popularidade porque tendo de escrever para a mídia, escrevem jornalismo cultural etc. Só isso. Agora, filósofo não tem como ser popular, porque a filosofia tem uma linguagem técnica, é algo de confraria.

  9. Rick
    04/10/2013 at 22:49

    Paulo, Tarantino é seu diretor de cinema preferido?

    • 05/10/2013 at 00:46

      Tarantino é bom, mas eu nunca tenho alguém preferido em absoluto no mundo da cultura. Nem mesmo na filosofia. Eu tenho o dom da inteligência, não fecho portas. Só os tolos possuem ídolos.

    • Rick
      05/10/2013 at 03:07

      Acabei de ver o filme. Vi duma vez só, não obstante sua longa duração, quase 3h. Excelente. Não consegui parar até terminar. Esse Tarantino sabe mesmo como prender o espectador do começo ao fim.

  10. Rick
    04/10/2013 at 22:46

    Esse filme ainda não vi.

  11. João Pedro
    04/10/2013 at 19:25

    Este tema é interessantíssimo, assisti novamente ao filme, e a primeira aparição do Stephen é bem descritiva, é a surpresa seguida de raiva do que não se pôs contra seus próprios desejos e não aceitou o “mundo como ele é”. Já entrou na minha lista o Ira e Tempo, vou comprar logo.

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