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20/06/2018

Voltando à ditadura do amor


As ditaduras são vistas como regimes de ódio. E são. Mas uma das piores ditaduras é aquela em que não conseguimos identificar o ditador. As ditaduras do amor estão sob essa rubrica. Entre as ditaduras do amor, a mais perversa é a que apanha a mulher condenando-a amar sua prole incondicionalmente.

Uma mulher que cai na prisão por qualquer crime só é unanimemente molestada pelas outras caso sua falta seja a de abandonar um filho. Jogadas ao azar da vida, as mulheres na prisão, barbarizadas, enxergam que devem fazer justiça com as próprias mãos se uma outra mulher não cumprir sua “função de mãe”. A sociedade fora das grades faz a mesma coisa. A mãe que mostra qualquer gesto visto como o do não-amor ao filho só tem equivalente em monstruosidade ao homem que é acusado de pedofilia (1). Essa moral das cavernas é reproduzida no lar, na manicure, no trabalho e na universidade. A mulher pode não mais saber cozinhar e pode falar com gosto que “cuidar do marido” é coisa do passado. Mas, ser mãe e amar os filhos, ou ela faz isso e, mais importante, diz que faz, ou será posta para escanteio. A mulher não perdoa a mulher por não viver a ditadura do amor à prole.

Não são poucos os filósofos que, quando buscam a essência do que seria o amor verdadeiro, querem encontrá-lo na relação mãe-filho. (2) Talvez eles até tenham alguma razão nisso. Mas a contrapartida aparentemente lógica dessa idéia não é nada boa. Diz-se então, numa falácia, que se a mulher não mostra que ama seu filho, então ela não ama nada. Um homem que não ama nada é um homem frio. Uma mulher que não ama nada é um alienígena perverso que merece a morte – mas não sem antes uma boa tortura.  Sabe-se muito bem que bruxas não têm filhos.

Essa ditadura é aceita pelas mulheres e incentivada antes por elas mesmas que pelos homens. Na história do Ocidente só mesmo o movimento anarquista, em algum momento, conseguiu falar em “greve de útero”. Foi esmagado talvez antes por isso que pelas supostas greves no trabalho. Atualmente, qualquer atividade que possa aparecer como a negação da atividade materna, antes em teoria que de fato (!), é vista com maus olhos. As mulheres que defendem o direito ao aborto são as primeiras a ficarem horrorizadas com algumas de suas colegas que, antes do direito ao aborto, querem ter o direito de não ter de gastar o amor com filhos.

A ditadura do amor, porém, não tem só defensores explícitos. São dezenas de profissionais os que estão a serviço dela, trabalhando dioturnamente para que a lei da maternidade seja cúmplice e incentivadora, subrepticiamente, do que se pode chamar de lei do amor a todo custo. Li esses dias na nossa imprensa uma dessas sutis incursões a favor da ditadura do amor. (3) Psicólogos, terapeutas, pedagogos e outros dessa linha falando do “movimento pelo brincar”. Esses inventores da roda e descobridores de Américas dizem que as crianças precisam brincar. Falam (vagamente, é claro) sobre as distorções causadas pela falta da brincadeira tradicional na vida de meninos e meninas. Rousseauístas inconscientes e acríticos, eles insinuam que os adultos não serão boas pessoas caso não brinquem. Tentam apavorar as mães com as estatísticas, mostrando o quanto as crianças do mundo todo estão deixando de brincar, optando pela “abominável TV”, a Internet e atividades programadas em escolas ou atividades extra-curriculares. A classe média se apavora com o futuro de seus rebentos. A conclusão é óbvia: de um lado, as escolas interessadas no dinheiro, podem voltar ao lúdico, caso a classe média engula essa “novidade”; de outro, as mães devem, por amor, voltar a brincar mais com seus filhos. Nesse caso, toda e qualquer mãe! E até não-mães! Haja mulher para agarrar e botar nessa senzala.

Não! Não adianta as mães contratarem babás. Nem adianta a Gelol querer dizer que “não basta ser pai, tem de participar”, porque a sociedade nossa não é movida familiarmente pelo macho e, sim, pela fêmea. A mãe é trazida para dentro de casa, amarrada com bola de ferro aos filhos, infantilizada pela brincadeira das crianças, separada de sua vida sexual e, então, ou se transforma em bola de puro amor ou deve ser jogada no poço do desprezo. É claro que as mulheres, diante disso, entram em depressão.

A raiva das mulheres contras os que denunciam a ditadura do amor é tamanha que não espante o leitor inteligente quando ler os comentários a este texto, de mulheres gritando contra mim: “eu sou feliz por brincar com meus filhos, sou feliz, sou feliz, sou feliz”. Vão esgoelar – duvidam? Outras dirão que não sei de nada, e que elas arrumam tempo para não só cuidar dos filhos como também brincar com eles. Outras falarão do quanto é importante não só para os filhos, mas também para os adultos, aprenderem a brincar com seus próprios filhos – aliás, já há profissionais da psicologia dizendo isso por aí. O romantismo disseminado pelo filósofo que Nietzsche chamava de “a tarântula moral”, Rousseau, sempre teve algo de malévolo, ditatorial e, enfim, como todos sabem, conservador.

É claro que do ponto de vista dos sociólogos, o mundo nunca tem problema. Entendendo pouco dos componentes subjetivos da vida, uns vão dizer que a questão se resolve com creches, através de uma política social democrata, outros vão dizer que o socialismo, criando uma nova sociedade, também disporá dos meios de fazer a criança brincar na escola. Ou seja, que se arrumem mães em algum lugar! O que não pode parar é a ditadura do amor.

Mas nós filósofos, que não temos como solucionar os problemas com tanta facilidade assim, iremos desconfiar de que essas medidas não trarão senão a libertação da mulher para que ela entre em outra prisão do amor – talvez a mesma! A ditadura do amor é a mais perversa invenção nossa, e que começou a partir do momento em que viemos a criar a possibilidade de reservar a mulher livre para o sexo – que acabamos nem fazendo direito –, prendendo as restantes a uma forma de amor que é o da relação com o mundo infantil.

Essa ditadura do amor foi uma invenção nossa, de homens e mulheres, mas não tem trazido felicidade real para nenhum de nós, embora suas verdades sejam mostradas como verdades para todo o sempre, certezas tão certas que… banais.

© 2015 Paulo Ghiraldelli Jr. filósofo, escritor e professor da UFRRJ

1. Pedofilia é uma doença, não crime. E por isso mesmo nossa legislação fala em punição ao abusador de crianças, não ao pedófilo. É difícil para as pessoas aprenderem isso, porque elas usam de modo errado o termo “pedófilo”. O pedófilo não é necessariamente violento, em geral é apenas infantil. O abusador de crianças raramente tem a doença chamada pedofilia, e agarra crianças como poderia agarrar animais ou mulheres. Procura antes o indefeso.

2. Harry Frankfurt assume isso em As razões do amor. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

3. Movimento em Prol do Brincar: Estadão online de 16 janeiro de 2011.

Post scriptum. Esse é o tipo de texto que revolta as mulheres, mas que põe homens de cabelo em pé, principalmente os homens de QI mais baixo. Reparem pelas reações.

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10 Responses “Voltando à ditadura do amor”

  1. Orquidéia
    29/03/2017 at 07:57

    A “ditadura do amor” faz parte da nossa atribuição.
    É um dever a cumprir, não tem alternativa.

    • Orquidéia
      29/03/2017 at 08:49

      Hã…
      eu já tinha lido esse texto há dois anos…
      ainda não desligaram o sinal analógico do meu cérebro. [ rs…

  2. Gedel
    28/03/2017 at 23:13

    Concordo plenamente com o texto. Qual seria a solução para que as crianças que tiveram a sorte de terem mães que por optaram por não amá-las, sendo que naturalmente crianças precisam de amor e afeto para crescerem ao menos minimamente mentalmente saudáveis? Como seria o mundo sem essa ditadura? Seria só alegria e felicidade as pessoas crescerem sabendo que suas mães escolheram não amá-los?

  3. Guilherme Gouvêa
    31/03/2015 at 07:37

    A título de off-topic:

    Agora, estão discutindo a PEC da redução da maioridade penal, com grande apelo popular e boas chances de aprovação (e o STF provavelmente vai canetar)…
    *
    A julgar pela evolução legislativa no Brasil, a próxima PEC colocada em pauta vai discutir se poderão ser admitidos choques no testículo como método de punição ou se a reprimenda se limitará à palmatória e à chibata…

  4. Carlos Eduardo
    30/03/2015 at 20:17

    Olá Paulo!

    Sou formado em uma universidade particular bem fraca, e estou pensando em fazer um outro curso em uma universidade púbica, e para isso estou estudando por conta própria.

    O Sr. acha que o estudo por conta própria é aconselhável, ou é necessário ingressar em algum cursinho?

    No momento estudo por conta própria, mas com planejamento.

    Abraços.

    • 30/03/2015 at 20:36

      Faz os exames simulados e veja se dá. Boa iniciativa. Parabéns.

    • Guilherme Gouvêa
      31/03/2015 at 22:02

      Pois é, estou num dilema também: gostaria de estudar Filosofia numa faculdade pública e até passei no vestibular pretendido.

      Porém, atuo profissionalmente na área jurídica e não tenho disponibilidade de cruzar a cidade diariamente ou dedicar os dias integralmente ao curso. Então não sei se sigo numa particular que não tem tanto prestígio…

    • 31/03/2015 at 22:37

      Gouvê, não inventa! Quem quer fazer a coisa boa faz.

  5. Thiago Carlos
    30/03/2015 at 13:17

    Saindo da ditadura e indo para a Anarquia:

    Paulo você tem algum texto ou recomenda algum que faz uma explanação geral sobre o anarquismo? Eu procurei na 2ª parte do aventuras da filosofia, na parte de filosofia política e se não me engano você discute a teoria do Nozick sobre propriedade e liberdade. Mas sobre o anarquismo em si não achei nada. Como estou começando a estudá-lo na aula de filosofia política, gostaria de uma introdução além dos textos que estou lendo. São eles:

    Desobediência civil do Thoreau
    Nascimento da Anarquia: Morte da Propriedade do Prodhon
    A igreja e o estado do Bakunin
    O princípio Anarquista do Kropotkin

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