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28/02/2020

Dilma e Lula, os novos socráticos


O governo do PT no Brasil tem sido socrático. Foi preciso a esquerda governar nosso país para que o “conhece-te a ti mesmo” pudesse efetivamente chegar até nós. Quem diria, Lula e Dilma eram devotos da inscrição do Templo de Apolo! Eles nos deram a segunda chance de autoconhecimento de nossa história no pós-Guerra.

A primeira chance nos foi dada pela “Revolução de 1964”. Não sabíamos que, entre nós, tínhamos senhoras dos bairros ricos de São Paulo e Rio de Janeiro capazes de telefonar para a polícia, alertando sobre o “comunismo” do filho do vizinho, e fazendo os até então amigos perderem o garoto para a tortura. Ficamos conhecendo a “natureza do brasileiro” entre 1964 e 1985 mais do que em qualquer outra época, mesmo nas guerras. Em 1932 na Revolução Paulista, no Golpe de 1937, na ida dos Pracinhas para a Itália ou em 1953 na morte de Vargas tivemos lampejos, mas não evidências. Alguma evidência mesmo sobre quem nós somos só nos foi dada pela “Redentora”.

Todavia, cá entre nós, a “Revolução de 1964” não foi um grande espelho. Ela foi um espelho parcial, reservado aos mais escolarizados e mais politizados. Só a emergência do PT e o advento da Internet é que possibilitou ampliar o número de pessoas no mercado e na narrativa nacional sobre “os brasileiros”. Agora sim, de 2005 para cá, é que o temos podido seguir o “deus do Templo”, o patrono do “conhece-te a ti mesmo”.

Deixamos de conhecer os brasileiros por meio dos políticos e mandatários. Estamos cada vez mais conhecendo a nós mesmos, e de modo muito rápido. Uma coisa que desconfiávamos, mas não tínhamos certeza: há uma parcela de nossos ricos que, apesar de escolarizados, são de uma burrice e incultura fantásticas. Não poderíamos fazer isso caso Dilma tivesse feito a Copa para os seus eleitores, os mais pobres. Todavia, como ela fez a Copa para os eleitores do Aécio, isso nos possibilitou ver nas redes sociais e na TV aquilo que jamais tínhamos visto antes: os ricos tentando se divertir em festa popular. E veio à tona uma faceta dos brasileiros: primeiro o episódio do xingamento à presidente, e mais recentemente a vaia à torcida chilena na hora em que ela cantou o hino nacional do Chile, com o jogo correndo.

Sou um filósofo que odeia o “bom mocismo” e a polidez traiçoeira. Em geral o “bomLula e Dilma mocismo” é uma forma de puxa-saquismo bem conhecida entre nós. Por isso mesmo, posso falar tranquilamente que, nesses dois episódios, principalmente no caso da vaia ao hino, o que veio à tona é a alma do brasileiro. Sim, do brasileiro, porque em um país como o Brasil os escolarizados e com dinheiro acabam sendo donos da comunicação, das escolas e até das bancas de jornais, exercendo um papel formador muito maior que em outros lugares. Não são somente “formadores de opinião”, são compositores do ethos, da natureza humana brasileira. No Brasil, mais que em outros lugares, os pobres fazem de tudo para imitar os ricos.

Sempre ouvimos falar do desrespeito que vinha aumentando em escolas particulares de ensino médio e na universidade pública, por conta de certas camadas de pessoas com algum dinheiro, mas sem condições de poder conviver corretamente com a liturgia dos cargos dos ambientes de ensino. Mas só agora, nesses episódios, onde vemos tipos como Xuxa e outros berrando contra a presidente, ou garotas tratadas na base do Danoninho, lindas, vaiando o hino dos chilenos, é que entendemos do que os professores dos ricos estão reclamando.

Nosso país segue Sócrates. Ficamos sabendo muito do PT ao vê-lo no poder – e para tal Joaquim Barbosa ajudou bem. Mas ficamos sabendo muito de nós mesmos, de nossos ricos, ao vê-los nas festas do PT, todos os que poderiam estar, no paletó, com uísque do PSDB.  Longe de mim recaídas rousseaunianas que lambuzam de ouro os pobres, como “bons selvagens”. Não é disso que falo. O que digo é que estamos nos conhecendo a nós mesmos e, pela primeira vez, realmente nos espantando conosco em uma escala inesperada, pois o espelho está sendo posto de modo escancarado nessa “guerra de todos contra todos”.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014).

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16 Responses “Dilma e Lula, os novos socráticos”

  1. Adalberto Barreiros
    11/07/2014 at 17:37

    Está em pauta neste momento no Senado a possibilidade de um plebiscito sobre federalização do ensino básico que ocorreria no 1º turno dessas eleições. Tá acompanhando?

    • 11/07/2014 at 22:10

      Adalberto, sou tão cético a tudo isso, porque sei que o salário do professor eles nunca cuidam, então …

  2. Adalberto Barreiros
    01/07/2014 at 21:15

    O que acha das prisões arbitrárias que estão ocorrendo nas pequenas manifestações e aulas públicas em SP recentemente, e pouco se vê na imprensa?
    Dentre eles estudantes, advogados e professores.

    • 02/07/2014 at 02:04

      Adalberto estamos sabendo mais de nós! Muito mais. E não adianta dizer que já sabíamos. Não sabíamos.

    • Adalberto Barreiros
      02/07/2014 at 16:33

      Será? Imagina o que se deu e não saiu na imprensa.
      Cara, acho que alguns dos seus textos mereciam ser traduzidos para o inglês e, então, compartilhado por aí no mundo. Aquele da ‘Sociedade do Espetáculo’ é um exemplo.

    • 02/07/2014 at 17:29

      Adalberto às vezes eu penso em escrever em inglês. Mas não tenho tido tempo.

  3. Valmi Pessanha Pacheco
    30/06/2014 at 10:50

    PAULO
    Getúlio Vargas suicidou-se em 24 de agosto de 1954 (e não em 1953; nesse ano morreu outro ditador, o georgiano Stalin). Eu cursava o então 4º ano ginasial, pela manhã. Por volta das 10 horas as aulas foram suspensas e toda aquela agitação anterior provocada pelo atentado ao jornalista Carlos Lacerda, que resultou na morte do Major Rubens Florentino Vaz, da Aeronáutica, de repente, esvaziou-se e a Cidade do Rio de Janeiro, simplesmente emudeceu.
    “Meninos, eu vi”, com licença do I Juca Pirama do grande bardo Antonio Gonçalves Dias.
    Abraços.
    Valmi Pessanha.

  4. 30/06/2014 at 07:49

    Este deslumbrar do que somos, apenas começou!

  5. Alexandre Magno
    30/06/2014 at 06:39

    Eu não concordei com a questão da vaia e em nenhum momento disse isso, apenas percebi (acredito eu) o que estava por trás da vaia em termos de motivação, isso não significa que eu concordei com o meio que utilizaram para concretizar essa motivação.
    Se a vaia diz algo a respeito de quem vaiou é preciso entender o que motivou a vaia para se chegar a uma determinada conclusão a respeito de quem vaiou. Poderia ter sido, por exemplo, por xenofobia, não creio que tenha sido esse o caso.
    O fato de terem vaiado no momento em que os chilenos cantaram depois do tempo previsto para se cantar o hino diz algo a respeito dessa motivação, foi somente isso que eu quis dizer.

    • 30/06/2014 at 10:32

      Você não entendeu nem mesmo minha observação sobre sua discordância. Tá voando sem rumo.

  6. Alexandre Magno
    29/06/2014 at 22:24

    Eu até compreendi a questão da vaia, não estou dizendo que concordei, mas eles não vaiaram o hino do Chile, eles vaiaram o fato dos chilenos terem cantado à capela, trata-se do significado que cantar à capela passou a ter para a torcida brasileira.

    • 30/06/2014 at 00:19

      Meu Deus, nem sei mais o que dizer! Chegamos a um ponto de que tudo é permitido porque todo mundo descobre um vírgula que lhe dá razão. É o casuímo total. Parábens. Pegue sua taça. Saia pelado na rua comemorando. É sua. Vai. Não volte.

    • MARCELO CIOTI
      30/06/2014 at 10:57

      Os puxa-sacos da Dilma e do
      PT dizem agora,que,quem
      torceu pelo fracasso da
      Copa quebraram a cara.
      Ué,não é a esquerda que
      dizia que Copa do Mundo
      e a Seleção Brasileira
      eram o “pão e o circo”
      pra “alienar”(odeio essa
      palavra)o povo?

    • 30/06/2014 at 11:13

      Marcelo a esquerda disse isso ou você é aquela cara, igual ao Pondé, que fala de “esquerda” pelo que ouviu dizer de gente que nem mesmo fez o ensino médio? Nunca a esquerda falou isso. Isso tá mais para tonto de extrema direita. E você gosta sim de falar “alienar”. Pois caiu no conto que criou para si mesmo. E isso é o alienar.

    • MARCELO CIOTI
      30/06/2014 at 12:07

      Quem gosta de falar
      em “alienar” é a
      extrema-esquerda
      a la PSOL,PSTU,
      PCO,etc.Não é
      coisa de extrema-
      direita,não.Estava
      falando da esquerda
      a la Vladimir
      Safatle,um tonto,
      aliás.

    • 30/06/2014 at 12:11

      Claro que é coisa da extrema direita também, até mais. Você está se deixando levar por esteriótipos, está igual ao Pondé.

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