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24/06/2017

Dilma como objeto de desejo sexual


Quando perguntada em campanha política se era lésbica, Dilma respondeu algo bem estranho: “sou avó”. Eu entendi: ela quis deslocar a repórter, pedindo respeito. Mas a resposta melhor seria um “não” ou um “sim”. Fernanda Montenegro e Natália Timberg estão mostrando o que todos nós já sabíamos: mulher beija mulher não só quando se é menina. Gays envelhecem, sabiam? E alguns não optam pelo mais fantasioso na cabeça do senso comum, que é a ideia de que “para gay velho pasto novo”. Os mais velhos, gays ou não, fazem sexo. Oh!

Agora em época de crise, o desempenho sexual de Dilma vem sendo posto na pauta tanto quanto o gênero. Os chistes correm: “Dilma não fode com ninguém individualmente, então fode com todos nós, coletivamente”. A resposta dos governistas preocupados com esse tipo de coisa vem na ponta da língua: “desrespeito machista”. É isso?

Chiste é chiste. Uma piada respeitosa não deve ser o único repertório do humorista que, se assim faz, deixa de ser humorista. Danilo Gentili é esse caso, aquele que deixou de ser humorista porque a única coisa que faz é sempre contar a piada desrespeitosa. Mas não se pode pedir para um contador de piadas qualquer que ele elimine de seu repertório tudo que não for para menores de nove anos de idade. A engrenagem do besteirol ocidental não pode parar, a não ser com uma mudança cultural que tem seu tempo, estancá-lo por lei abruptamente é caso a ser pensado, discutido, e muito. (Em outro texto já ponderei sobre como que a sensibilidade nova e as leis novas precisam andar juntas).

Mas o pior dessa história não é o chiste, mas a reação. Algumas mulheres governistas deveriam defender Dilma pelo que ela fez de bom, se fez algo, e não pelo subterfúgio que obriga cada brasileiro a não falar nada contra a Presidente por causa dela ser mulher. Falou contra, vira “machista”? Fácil assim ser governista, não?

As mulheres precisam adquirir o direito de serem devassas e serem aceitas como devassas, sendo ou não. As mulheres precisam ter o direito de posarem com as pernas abertas e continuarem a poder ficar nos cargos de trabalho que estão. Um professor que dance num baile funk rebolando a bunda não é demitido de um colégio, mas uma professora sim. Isso não pode. Isso tem de parar. A acusação de “machismo” ao invés de ajudar essa discriminação parar, ela contribui com ela. Pois a palavra “machismo” nunca vem fora do contexto de uma avaliação antes moralistóide que moralista sobre a vida da mulher. O exemplo de Dilma vem a calhar: ela deveria ter respondido “sim” ou “não”, agora, à medida que ela disse “sou avó”, ela mesma deixou claro que a pergunta não lhe parecia pertinente. Bobagem. Para a liberdade da mulher, uma tal pergunta tem de ser pertinente. Ora, ela já havia respondido “sim” ou “não” para outras questões embaraçosas. Mas, na hora dessa específica pergunta, ela se viu no direito e dever de “enquadrar” a jornalista. Ou seja, sancionou o senso comum conservador: não se pergunta a uma senhora sobre sua vida sexual. Ora, em política, em campanha, se pergunta tudo para um homem e para uma mulher. Era assim que ela deveria ter reagido e, então, bastaria um “não” ou um “sim”.

Uma mulher no governo não tem que imitar a caricatura da Rainha Virgem, o artifício da religião nacional britânica para fazer o povo não católico também ter sua Virgem para a Adoração. Agora, se outras mulheres feministas começam a falar que ataques contra a Dilma é “machismo”, sendo ou não, o que fazem é alimentar isso – o correto é Dilma poder colocar a roupa que quiser e ter sua vida sexual como quiser, ora bolas. Proteger a Presidente com o “não fale isso porque isso é machismo”, é justamente o que não contribui em nada para o movimento das mulheres no sentido de liberdade e igualdade. O machismo acaba sendo de quem acusa tudo de machismo. Pois o pressuposto de uma tal defesa é que a mulher é efetivamente fraca e deve ser protegida para além da investidura do cargo, mas com adereços da convenção social.

Dilma deve ser objeto de desejo sexual, ora bolas!

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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