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22/09/2017

Dilacerados entre a família e a cidade: bíblicos e helênicos


Todos nós Ocidentais somos filhos de uma família e de uma cidade. Essa situação natural é também nossa condição cultural. Mas a segunda situação, a cultural, está longe de vir em completa harmonia. Pois não nascemos na família segundo a mesma cultura que nascemos na cidade. Talvez a maior parte de nossos dramas, tanto para o bem quanto para o mal, venha disso.

A partir de um olhar filosófico, temos de admitir que somos filhos de uma família por filiação à cultura judaico-cristã, e somos filhos de uma cidade por vínculo com a nossa herança greco-romana. Os dois grandes mitos de origem que temos em nossa cultura nos dizem bem isso. O mito bíblico da criação nos põe na linhagem da família, o mito greco romano equivalente nos põe na área da cidade. Quando comparamos o Gênesis, da Bíblia, ao mito do sofista Protágoras, contido no livro com seu nome, de Platão, saltam aos olhos essa nossa dupla marca, extremamente distintas.

No mito bíblico somos feitos por um Deus oleiro, cuja tecnologia é a do barro. Um Deus que cria inclusive o próprio tempo, e junto dele o mundo e nós em especial. No mito de Protágoras o tempo já corre (Cronos é Titã, anterior aos deuses olímpicos), e eis que mostra uma data predeterminada para que os seres vivos sejam criados. Eles são feitos de barro, sim, mas também de fogo – e esse dado mostra uma tecnologia que irá dar um tom diferente para a narrativa, se comparada com a narrativa bíblica.

No mito bíblico a estrutura é triangular, vertical, sendo Deus o pai, e seus filhos são gerados no Paraíso, um lugar onde o querer não se faz presente. Tudo é só satisfação. No mito de Protágoras a situação é horizontal, onde a preocupação inicial já é ecológica, pois não há qualquer paraíso. Epimeteu cuida de dar qualidades aos seres vivos, de modo que possam viver em uma cadeia alimentar sem serem mutuamente dizimados. Todavia, distribui todas as qualidades que tinha com os animais, e nada deixa ao homem. Prometeu, então, vendo que a data de mostrar o serviço vinha chegando, tratou de encontrar algo para dotar também o homem. Roubou a tecnologia do fogo dos deuses, bem como a habilidade. Surrupiou Hefeso e Atena. Pagou caro por isso, mas, enfim, fez dos homens seres com dotes divinos. Assim, se no mito bíblico os dotes divinos do homem surgem por serem feitos à semelhança de Deus, como filhos podem se parecer ao pai, no mito helênico os homens adquirem algo de divino a partir de uma relação puramente de relações exteriores, o roubo e a entrega.

As distinções se acentuam quando notamos o mundo dos judeus, um povo nômade, que só poderia mesmo adotar um mito que mostra a vida possível única, a da família. Mesmo depois, com o nascimento de Caim e Abel, os homens ainda se relacionam com o patriarca, Deus, e não vão mostrar seus feitos para seus pais biológicos, Adão e Eva. Ora, no caso do mito helênico não há amostragem de feitos, há sim a disputa entre os homens e, então, a dispersão deles; pois se reúnem em cidades, possuem a tecnologia para enfrentar a natureza, mas não possuem a tecnologia para se relacionarem: falta-lhes a ciência da política. Assim nota Zeus, e manda então Hermes levar essa ciência aos homens, para que possam viver na polis. Desse modo “o que mais bem distribuída entre os homens” são a justiça o respeito. Hermes fornece aos homens essas qualidades, de modo que eles possam cultivar a arte de viver na cidade, a política. Esse é um problema inexistente no mito hebraico. Neste, as relações familiares são de subordinação: Adão e Eva não tem nenhuma ciência para conviver que precisem aprender: devem obediência e lealdade ao pai, e Eva, por sua vez, deve obediência inata ao parceiro Adão, uma vez que é um apêndice dele. Eva não veio do barro, mas de uma costela de Adão.

Somos assim, segundo a fusão dessas duas situações culturais, cujos mitos de origem explicam bem e diferentemente. Da nossa tradição judaico-cristã, somos seres de família, como bem disse Santo Agostinho. Por nossa tradição helênica, aprendemos com Aristóteles a ideia de que o homem, ou seja, nós, somos animais políticos. O mundo burguês moderno tentou articular essas condições a partir de uma separação da esfera pública e da esfera privada. Mas, claro, essas coisas não são fáceis. Nossa origem dupla nos faz cruzar, misturar, confundir. Em alguns momentos queremos aplicar leis hebraicas, ou seja, estritamente familiares, à política, e em outras horas fazemos com que saberes e leis políticas, tipicamente gregas, atravessem a soleira da porta e venham nos pegar na vida familiar. A democracia liberal burguesa é uma tentativa, uma experiência histórica, que reconhece essa nossa vinculação relativa a dois planetas distintos, e tenta nos manter em um caminho possível. Mas, não é fácil.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 06/12/2016

Segue aqui o mito de Protágoras em RTF.

Gravura:  Prometheus Brings Fire to Mankind by Heinrich Fuger, 1817.

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2 Responses “Dilacerados entre a família e a cidade: bíblicos e helênicos”

  1. ivan lázaro
    07/12/2016 at 02:08

    Recentemente escrevi um artigo pra uma disciplina do mestrado sobre público e privado no liberalismo, se senhor tivesse feito esse texto antes eu teria usado essa base mítica. Hahaha! Muito bom professor!

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