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22/10/2017

A diferença entre ser fã e ser adepto


Ter um ídolo e ser um fã parece ser algo pouco perigoso. Ter um salvador ou um vingador, ser comandado e um adepto dele, isso sim me parece uma fonte de perigo.

Se as pessoas gritam diante de um Mick Jagger ou reverenciam alguém como Umberto Eco, isso não me causa preocupação. Mas se as pessoas fazem algo parecido diante de um Lula ou um Bolsonaro, tudo muda. O fã pede um trabalho a mais ou homenageia um trabalho feito. O adepto quer alguém que o pegue pela mão e o ponha para fora de seu fracasso. Isso me causa profunda preocupação.

Aplaudimos nossos ídolos por um sentimento de generosidade. Reconhecemos neles a capacidade de serem designers de tendência e, assim, abrirem o campo da liberdade para nós, criando mais caminhos para trilharmos. Criam a moda, que nada é senão os caminhos abertos por um ídolo, para que outros possam experimentar, experienciar e quiça criar outros. Quando ouço aplausos do adepto para com o seu chefe, seu guia e vingador, sei que não é nada disso. O aplauso é, nesse caso, cheque em branco e pedido de desespero, significa isso: “degole os que tiveram êxito, os felizes, os que podem pensar, e se fizer isso até pode me deixar aqui na desgraça”. Os que aplaudem chefes trocam o prato de comida dado pela vingança.

Tudo que um fã quer é material para pensar. Ele quer mais livros, mais músicas, mais produtos vindos do ídolo. Ao contrário, o adepto nada quer de produtivo, ele quer que os produtos desapareçam, que o chefe ou vingador extermine, destrua e queime. Às vezes ele quer apenas que o chefe dê ordens, de modo que ele possa ter um pouco de prazer de mandar por meio do chefe. Ver os que pensam sendo mandados e, portanto, não poderem criar, é tudo o que faz o adepto acreditar que até pode ter orgasmo.

Gostar de Machado de Assis é uma benção. Pedir para que um Hitler intervenha na obra de Machado, extirpando-a, é uma desgraça pessoal. Isso é que marca bem a diferença entre o fã e o adepto.

É por isso que quando ouço alguém dizer-se adepto de uma filosofia, e não um fã, sei que esse alguém não encontrou nenhuma filosofia, apenas ideologia. Não é alguém capaz de pensar e, por isso, não está com nenhuma filosofia. A filosofia pode ter fãs, não adeptos. Não à toa Marx disse que não era marxista e tantos outros filósofos renegaram os “ismos” associados a seus nomes. Os bons filósofos, todos eles, se preocuparam com isso. Alguns até quiseram anular o seu “ismo” e, não conseguindo, o enfiaram na casaca de outro “ismo”. Trazer adeptos é alguma coisa que só os chefes, chefetes e autoritários do mundo querem. São saciadores de desejos alheios. São prisioneiros fáceis dos desejos dos seus adeptos. O ídolo é, ao contrário, livre de seus fãs, às vezes ele se dedica a inverter seu estilo, sua obra, só para poder contrariar o fã, tirá-lo da modorra, evitar que ele o confunda e se transforme num seguidor do que não pode ser seguido.

Sempre que vemos um adepto estão em geral diante do ressentimento em grau máximo, e de uma capacidade de achar que estão pensando quando, na verdade, apenas segue o não-pensamento. O adepto é adepto de partidos. São medíocres por razões biológicas. Adoram falar e pregar, odeiam refletir e se colocarem à prova. Podem nem saber quem são os tais “militares”, mas, sendo homens fantasiados de azeitonas, logo dizem: “que venham e nos salvem”. Assim gemem os adeptos em todo o mundo.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo, 17/07/2016

 

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6 Responses “A diferença entre ser fã e ser adepto”

  1. Valmi Pessanha Pacheco
    18/07/2016 at 11:04

    Sábias palavras Prof. Guiraldelli
    Permita-me citar, a propósito, um pensamento de Roberto Calasso em “A Literatura e os Deuses”, discorrendo sobre a influência das mitologias na literatura: “Entre as ideias que, no século XX, tiveram consequências terríveis , e destrutíveis em diversos graus, destaca-se a da comunidade boa, onde são fortes os laços de solidariedade entre os particulares, onde tudo se funda sobre um sentir comum. Dessa ideia a Alemanha nazista foi a manifestação mais lancinante; e a Rússia soviética a mais duradoura e dilatada. E o mundo ainda está cheio dos defensores dessa ideia.”
    Valmi Pessanha

  2. 17/07/2016 at 09:30

    Ontem estávamos falando sobre lideranças,o mal que muitas fazem, mas como não sabemos explicar,gostei muito do que Paulo escreveu e também das 3 respostas que li. É preciso explicar muito emuito essa situação de fã e ídolo.Muitas vezes e em lugares de alcance mais amplo,

  3. Isaias Bispo de Miranda
    17/07/2016 at 08:58

    Paulo, recentemente eu me deparei com um grupo de alunas da minha faculdade fazendo uma espécie de protesto contra um suposto professor assediador’. Um ato organizado. Comandado por uma mestranda em filosofia e líder de um coletivo. Quando eu questionei as provas – rumores de que ele fazia piadinhas com as alunas – e perguntei se elas não se preocupam em saber que embora as provas fossem mais que incertas, o dano na vida do professor era fato, uma delas olhou para a comandante e disse: ”Ele tá defendendo um macho assediador! Faça alguma coisa!”

    • 17/07/2016 at 09:12

      Você sabe que eu passei por isso. Tudo é feito assim, na base da imitação do “fascio”. Esse é o comportamento fascista. É gozado que esse pessoal se ache de esquerda. É como se ele não soubessem que fascismo é antes de tudo “método”.

    • 12/08/2016 at 03:25

      This inutodrces a pleasingly rational point of view.

  4. Adalberto Braga
    17/07/2016 at 06:59

    Sobre os militares, não poderia ser dito melhor de outra forma. Esses seguidores que clamam pela volta das ‘azeitonas redentoras’, (achei o máximo), não sabem o trabalho que deu bota-las de volta no frasco depois que sairam em 64.

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