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30/05/2017

“Diário da Esperança” estreia Peter Sloterdijk


Ao contrário do que as mais informadas e críticas sinopses indicam, Diário da esperança (A nagy füzet, Janoe Szasz, Hungria, 2013) (1) não é um filme de Guerra. Não tem a ver com a guerra. Se o tempo é o da II Guerra Mundial, isso é mero pretexto, não texto.

Há no filme um texto, sim, mas talvez nenhuma narrativa que se possa chamar de “uma história”. Também não há sociologia. A película é um ensaio de filosofia. O que se quer ali apresentar é a maneira pela qual irrompe a subjetividade, caso possamos pensar na filosofia do estoicismo como uma forma de constituição do indivíduo que aponta para a modernidade, ainda que pertença originalmente ao mundo greco-romano.  Todavia, se fosse só isso, teríamos algo pouco original.

O filme deslumbra porque ao fim e ao cabo apresenta um caso fantástico contado na filosofia somente por Peter Sloterdijk. A película é sloterdijkiana. Trata-se da história do nascimento e formação da subjetividade segundo uma premissa básica desse filósofo alemão contemporâneo: a subjetividade se faz pela esfera que contém um duplo, ou seja, somos todos gêmeos em origem. Somos seres de relacionamento porque nunca fomos sozinhos, mas no mínimo dois. E nossa tarefa é saber conviver com o outro e perder esse outro, substituindo-o de maneira cada vez mais sofisticada no interior da esfera.

A história do filme é simples. Passa-se na Hungria. Vem a II Guerra Mundial. O pai vai servira nagy fuzet o exército e a mãe leva os filhos gêmeos para viver com a avó no campo, que ela não via há mais de vinte anos. Deixa-os lá. De um dia para outro, de uma vida aconchegante e carinhosa eles passam para uma vida infernal, nas mãos da velha que, não à toa, é chamada por ali de “a bruxa”. Em um determinado momento, então, o caderno que ganharam do pai para um diário se transforma em uma cartilha-agenda de construção de um eu, um sujeito capaz de erguer-se pelas duas pernas a partir de si mesmo – e está é uma boa definição de sujeito.

Sendo assim os gêmeos põe-se à prova. Ficam voluntariamente sem comer, trocam espancamentos planejados, enfiam-se nos desafios mais audazes em meio a bombardeios a fim de perderem o medo, elaboram planos para domínio de situações. Preparam-se para o pior, ou seja, tudo aquilo que lhes escapa do controle por não pertencerem aos seus próprios domínios. Fazem a lição do filósofo Epíteto: andar de manhã notando o que pertence ao si e que escapa ao si, de modo a ter consciência do que se é possível realmente ter como seu eu, um eu que deverá sofrer ações do exterior e que, então, não irá se frustrar exatamente por não esperar nada além, conhecendo seus próprios limites. Tudo que se precisa saber aí, do estoicismo, pode ser encontrando em Foucault, em sua “hermenêutica do sujeito”. Mas o sentido do filme não é foucaultiano. Não se trata de ver o contraponto entre o sujeito da ação reta e o sujeito da verdade. O que é embalado é a subjetividade como o que é imanente, o vivido de Deleuze, a ressonância de Sloterdijk.

As surpresas do filme? Conto-as aqui sem contar de fato: o caráter da mãe que reaparece é desvendado, e o da bruxa também, e por fim o do pai; a transformação dos meninos se torna evidente de um modo quase inesperado; também o caráter de outros personagens, por boa índole ou por piedade abrupta ou simplesmente por ironia da narrativa, são transformados ou os fazem agir de modo diferente do previsto; além, disso, quando todo o caderno de tarefas parecia ter terminado, havia ainda uma lição final, a lição que é o centro da teoria das esferas de Sloterdijk, o âmago sobre a que vem a ser o desdobramento necessário para que emerja no mundo o sujeito. Isso implica uma atitude dos irmãos, que são gêmeos e que precisam, agora, seguir o destino da esfera que os acolhia, a esfera gerada por eles mesmos por meio da ressonância entre ambos. E qual é o destino contínuo da esfera?

Durante todo o percurso a filosofia se sobrepõe à narrativa histórica. Desse modo, o caderno dos dois nunca aparece sujo e a letra nele gravada é impecável e nada tem de uma letra de criança. É um caderno sem pauta, mas nenhuma letra se desvia um milímetro da linha imaginária de sustentação. É um caderno que está na trama, mas uma peça que visivelmente está acima da narrativa. Um boa imagem para um manual estoico, uma vez que Epíteto de modo algum o escreveu.

Os garotos nunca são chamados pelo nome. Nem eles se falam. Não precisam disso. E nem precisam de nomes; para a velha avó eles são “bastardos”, e, por sua vez, entre eles não é necessária nenhuma conversa. Eles não são grudados como Floyd e Lloyd, os gêmeos de Nabokov, mas é como se fossem.

Peter Sloterdijk diz que o homem nada é senão um “selvagem designer de interiores”. Os garotos constroem o seu interior o tempo todo. Uma esfera a dois, como tem de ser. Imunizam-se nela. E assim se apresentam prontos para, em um determinado momento, poderem vir ao mundo, quando do fim da Guerra, como indivíduos.

O filme é um convite para a leitura da “trilogia das esferas” de Sloterdijk, caso se deseje vê-lo com a sofisticação interpretativa que a película merece.

1. A tradução ficaria melhor se mais literal, “O caderno”.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

VEJA O FILME aqui, embora no cinema seja sempre melhor.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo