Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

29/03/2017

Existe Dia da Mulher na pós-história?


O Dia da Mulher existe como 8 de março, apesar das controvérsias sobre os eventos que o originaram. As mulheres queimadas pela ganância e pela maldade deram o componente trágico necessário para o Dia da Mulher. A coisa ocorreu nos Estados Unidos. As mulheres, ao menos inicialmente, não ganharam a sua data de homenagem por conta de terem desobedecido seus maridos ou o “mundo masculino”, e sim por terem entrado em confronto com o patronato. Mas, é certo, o Dia da Mulher foi esquecido e só foi recuperado no calendário dos movimento sociais nos anos sessenta, quando então as mulheres protestaram, entre tantas coisas, também contra seus maridos. Aliás, é nesse contexto que se deu a difusão da palavra “machismo”.

O Dia da Mulher, gerado na América, está antes de tudo escrito no contexto de uma história que, na conta de Marx, é a história dos humanos como história da luta de classes (e que se entenda essa frase como literário-filosófica). Nem o Dia do Trabalho, ao menos na América, se manteve como um dia trágico! Os americanos comemoram o seu Dia do Trabalho em data diferente da do resto do mundo. É que o Dia do Trabalho no mundo todo é comemorado por enforcamento de trabalhadores libertários nos Estados Unidos. Podemos dizer, até, que a nação americana não aguentou esse fardo e resolveu oficializar para o seu Dia do Trabalho não o 1 de Maio, mas no início de setembro, a partir de um evento alvissareiro de conciliação de classes.

Os americanos adoram a história e a suportam bem, mas, quando ela remete a um desmentido da América como um exo-útero, isto é, como uma invernada de mimos que pode garantir à América a sua imagem interna de uma nação da pós-história,   surge no horizonte alguma tentativa de escamoteamento.

Uma nação integrada na história, nas mudanças, nas possibilidades de ocorrência de transformações radicais que destruam a estrutura própria da sociedade e destrua o sonho do American Way of Life, não é o que os americanos podem suportar. Aliás, ninguém no mundo pode suportar que a América perca essa função de nação pós-história. A América precisa ser um lar, uma casa, um lugar onde as mudanças sejam domésticas, como a troca de um quadro, uma mudança de móveis, um conserto no banheiro, a saída de um filho para a University. Quando a América é reclamada como nação histórica, ela o faz pelo “imperialismo”, ou seja, pelas tropas que salvam lugares não-democráticos integrando-os na democracia – e isso é dito aqui com e sem ironia.

O 11 de Setembro complica tudo: precisa ser lembrado, pois isso mantém certas paredes da casa que formam as espumas, o conjunto de prédios e cidades, segura a existência de certo ambiente interno pois edifica um tipo de altar doméstico – uma invenção do paganismo romano – e ao mesmo tempo não pode ser posto na conta da mudança da imagem da América como nação pós-histórica. Por isso, ainda que a data seja lembrada, as imagens das Torres Gêmeas não podem continuar a aparecer. Todo o ambiente onde estavam as Torres foi remodelado. A geografia deve reconstruir a história colocando as coisas de modo a fazer a América não aparecer como algo que não seja um lar. Ninguém suporta viver num lar histórico. Lar tem geografia, não história.

Se repararmos tudo isso com olhos ensinados por Sloterdijk, de quem podemos tirar essa noção de pós-história, que não fica tão longe da de Rorty e Fukuyama, então o Dia da Mulher ganha um colorido diferente. Torna-se uma das poucas datas que põe os Estados Unidos no campo da história. O sentimento que isso provoca nos americanos é bastante confuso. Eles lutam para domesticar esse dia. Não no sentido de torná-lo dócil, mas no sentido de torná-lo algo “da casa”, e então, dócil. Pode ser um dia radical, pode até lembrar a morte das operárias, mas não pode deixar de ser algo bem americano, no sentido de que se trata de um traço capaz de se reintegrado pelo feminismo dos anos cinquenta (luta da “guerra dos sexos”), algo também tipicamente americano.

A ideia básica é esta: que se comemore o Dia 8 de Março junto com todos os povos, mas que o conteúdo da comemoração seja o das liberdades femininas que já possam estar no contexto de uma casa, de uma invernada, de um lugar de mimo.  É sim um mimo e uma desoneração poder não ter que se referir ao marido como um senhor ou ao homem como um dominador, ainda que se deseje que ele não se transforme, totalmente, numa figura sem virilidade. Todavia, a virilidade é algo que cresce no sangue, no combate, no pertencimento histórico. Uma nação pós-histórica não precisa de machos, pode contar com andróginos. Uma casa tem apenas o pai na função de homem, os irmãos devem ser andróginos e não desejar as mulheres da casa. Esse componente de Totem em Tabu reinterpretado assim, dá bem o sentido da casa que pode comportar um espaço de mimo, uma casa, uma América.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Tags: , , , , , , ,

One Response “Existe Dia da Mulher na pós-história?”

  1. Matheus Kortz
    11/03/2016 at 21:59

    Esse texto tbm é literário-poético além de filosófico.

    Só para parafraseá-lo, prof. Paulo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo