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24/04/2017

Deus não faz Impeachment, mas ajuda!


Caim mata Abel. Com isso, elimina de sua vista aquilo que mostra o que não pode ver: o merecimento não está no âmbito do plano do mundo. Eis a lição: os que oferecem seus dias podem não obter nada em troca, ao menos não o que esperam. Muitos pensam que essa passagem Bíblica é sobre a inveja, mas não é. É sobre justiça e destino. É sobre a noção de Deus. Deus é justiça e destino. A justiça de Deus é destino. Deus é Destino. Quando o destino nos favorece para obtermos justiça após um caminho tortuoso, dizemos então, “Deus escreve certo por linhas tortas”. Sabemos bem, ao dizermos isso, que uma tal fala só tem sentido de felicidade quando dita a posteriori.

Essa noção de Deus, que é uma noção judaica, e que se repete no pedido louco do Senhor a Abrahão, para que mate seu próprio filho, nunca esteve sozinha no mundo Antigo. Também tinha a ver com a noção de Deus dos estóicos, a principal filosofia da elite romana, que se fez hegemônica durante 500 anos, abrangendo assim parte antes do nascimento de Jesus e parte depois. Deus é destino. Mas é também organização. Deus é Logos para os estóicos. Também em um dos Testamentos ele aparece assim, como Verbo. Ou seja, a posteriori o que se faz racional e então “escrito nas estrelas” é Deus. Um “conluio de Deus” é então sinônimo de uma certa racionalidade escondida no Destino. Um jogo de dados aleatório que, ao fim e ao cabo, dependendo do resultado, pode ser tido como “feliz”. Pode-se então falar, sem peso, frases do tipo “foi Deus que quis assim”, quando o resultado é satisfatório.

Janaina falou em “conluio de Deus”. O conceito de Deus utilizado por Janaína Paschoal ao final de sua peça de acusação contra a presidente Dilma no Senado, hoje, dia 30/08, é exatamente este. É religioso e antropológico ao mesmo tempo. Pode ser tomado como laico, se o lado antropológico se faz como que excluindo o lado religioso. Posso usar o termo “Deus” assim, pelo conhecimento que tenho em história e antropologia e saber popular. Mas posso agrupar a isso a esperança (a última da Caixa de Pandora) e a fé (a confiança que tudo dará certo) dos religiosos. Para boa parte de nós, pessoas com formação escolar moderna, ou seja, herdeiros do Iluminismo e também do romantismo católico, esses dois modos não se excluem e, em geral, utilizamos ambos.

O conluio existiu, sim, mas não foi nenhuma manobra para derrubar Dilma. Foi o destino que tramou colocar pessoas certas juntas no momento certo. Então, Deus, pode se dizer. Poderia haver  uma Janaína com o pedido do Impeachment, mas foi necessário a própria Dilma mostrar que havia mentido durante o processo eleitoral (e isso se fez pela crise) para que as ruas falassem e, então, políticos viessem a se mobilizar. Foi necessário os empresários tirarem o apoio a Lula e passassem a apoiar o PMDB, e isso menos pelas ruas que pela crise. Foi necessário que o PMDB rachasse com o PT. Só assim, por essa constelação de fatores, então, o destino fez vingar o processo de Impeachment. Podemos colocar mais elementos nessa história. Todos cabem na noção de Logos visto a posteriori,  ou Destino ou Deus. Agora, nessa história, para o lado que perde, essa constelação de fatores pode ser lida com o obra do Diabo. Sendo o PT o acusado, pode-se imaginar que seja mesmo obra do Diabo, que então veio cobrar a alma daquele que, para governar durante mais de 14 anos, havia feito um pacto com ele. É isso.

Para pessoas normais, inteligentes, é fácil entender o que escrevo – como sempre -, mas para pessoas com DCS (*) as dificuldades sempre serão grandes. Não estranharei ao ver respostas de pessoas aqui no meu blog, ditas de esquerda, me xingando do mesmo modo que a direita faz quando o texto puxa as orelhas dos desmandos dos que adoram colocar negro amarrado em poste para dizer “não venceu pelo mérito, então, chicotada nele”. Mas sou filósofo, e não vejo esquerda e direita como obra de Deus. Não há sagrado nisso. Não obedeço, não reverencio. Não me calo.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 30/08/2016

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8 Responses “Deus não faz Impeachment, mas ajuda!”

  1. José do Carmo
    15/09/2016 at 04:34

    Deus ou o Diabo?

    Acho que o Brasil está mais para o diabo do que para deus. País realmente estranho.

  2. Osmar G. `Pereira
    31/08/2016 at 17:28

    Ok, Professor, todavia o público visado por Janaína não é/eram os Filósofos. Os juristas se fizeram quando, de certa forma, ajudaram a fazer o Estado, Janaína representa uma parte do campo jurídico em luta pelo poder de falar, oficialmente, em nome do Estado, nesse sentido invoca Deus para se fazer entender – e ganhar simpatias e adesões -, e defender sua(dela) causa.
    Um abraço e tudo de bom.

    • 01/09/2016 at 07:03

      Osmar já imaginou se um advogado representasse todo os juristas? Isso se chamaria URSS.

  3. Luciano
    31/08/2016 at 14:07

    Pegaria fácil. Coroa bacana apesar de doidinha. Pegaria também, Paulo?

    • 31/08/2016 at 14:41

      Luciano, eu nunca falo isso de uma mulher. Sou Old School. Ou seja, nem no condicional eu me coloco como podendo fazer algo. Seria muita pretensão da minha parte, se fosse solteiro, dizer isso. Seria arrogância até.

    • Guilherme Picolo
      07/09/2016 at 10:13

      Hehehe. A resposta do Paulo foi a melhor possível!

  4. Matheus Tudor
    31/08/2016 at 07:16

    Deus não joga dados – Einstein

  5. João Emiliano Martins Neto
    30/08/2016 at 17:41

    O filósofo só deve reverenciar o aprendizado, a tudo o mais nom serviam!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo