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29/03/2017

Deus é fútil


Futilidade é uma palavra de origem médica: tratamento sem resultado ou procedimento que não leva a lugar algum. Mas, nas origens, tem a ver com um mito grego sobre filhas que foram ordenadas pelo pai a matar seus maridos, e todas obedeceram exceto uma; as que obedeceram foram punidas, tiveram de carregar água para lá e para cá sem serventia alguma. É assim que usamos os derivados do termo latim futilis. Mas aí reside os perigos de um pântano.

O fútil não é o desnecessário. E mais ainda: não produz resultado, sim, mas estamos falando de resultado em relação a que?

Minha filha um dia me disse: “pai, pode haver alguém fútil como eu, mas mais que eu, duvido”. Depois, pensou um pouco e completou: “não pai, não há ninguém fútil nem mesmo igual a mim”. Paula era capaz de passar um dia todo, todinho, fazendo suas unhas. Cortando, lixando, pintando e esmerando. Para quê? Para absolutamente nada. Não iria sair, não iria exibir, não iria colocar uma roupa nova, não punha o resultado no facebook, não tinha sequer o objetivo de experimentar novos esmaltes. A busca do resultado zero era seu único afã. Perguntei a ela se aquilo produzia ao menos prazer interior, algum tipo de satisfação. E ela chegou a ensaiar um não. Todavia, o “não” não veio à tona. Havia algo lá no fundinho daquela ação interminável: um prazerzinho. Mas qual? O prazer de poder ser fútil. Não o prazer de se dizer fútil, para me irritar. Não, nem isso. Mas o simples prazer de dizer para si mesma: sou fútil, sou tão fútil que não participaria de um campeonato de futilidade, pois eu acabaria vencendo e, então, teria conseguido algum resultado, e isso me faria perder o campeonato!

Todavia, um resultado se produzia: as unhas terminavam pintadas. Mas Paula era tão fútil, tão fútil que ela, tão logo terminava, começava o processo de tirar o esmalte. Nada poderia vir de uma ação fútil. Um prazerzinho somente. O prazer da futilidade, ou seja, de fazer algo que é menos que um pum inodoro e da temperatura anal, um pum que não se dá ao trabalho nem mesmo de esquentar o rabo.

Nessa completa futilidade, sabemos no entanto, que há algo ali como algum resultado. Esse prazerzinho de desdenhar de qualquer finalidade ou resultado é quase uma aproximação a um estado de demiurgo. Não se trata de fazer algo que tem valor em si. Isso seria da ordem de uma axiologia, uma razão ética posta a funcionar. Não! A futilidade é vazia nisso também, pois não se exerce para que nos tornemos deuses, e nem consegue isso. Mas, vista de soslaio, tem esse problema, pode sim nos colocar como deuses. Pois nada pode ser mais fútil que um deus. E não digo apenas deuses pagãos. Também Deus, o judaico-cristão. Caso assim não fosse, não teria dado a Moisés os Mandamentos. A existência dos Mandamentos dados em tábua é exatamente isso: tudo que Deus fez não seria considerado como resultado de alguma coisa caso algo sério, capaz de nos fazer ficar em desconforto, não fosse nos dado. Os Mandamentos trouxeram tarefas para os homens, e então estes puderam ver a criação de Deus por meio das implicações de suas Leis. Só então perceberam que Deus não era fútil. Mas, exatamente por serem avisados disso, é que sabemos que Deus era fútil. Ainda é. Deus não produz nenhum resultado se lhe tiramos os Mandamentos. A criação do mundo não produziria algo a mais que aquilo que ocorre com a Paula, quando ela termina seu dia.

Somos obreiros, falantes, linguarudos, obedientes aos Mandamentos, tudo isso porque Deus é fútil.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 21/09/2016

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7 Responses “Deus é fútil”

  1. Thiago
    26/09/2016 at 14:39

    O tema textual é o conceito de futilidade, mas me parece bastante incrementado através da polêmica referência a Deus.

    • 26/09/2016 at 18:44

      É por isso que o autodidatismo não dá certo. A referência é Deus. Leia dez vezes.

  2. Thiago Carvalho
    25/09/2016 at 13:38

    Acho que o posto por PG, César, foi um paradoxo lógico, que você compreendeu; mas perdeu a esportiva. O problema de PG, o da futilidade de Deus, consiste em um problema próximo ao paradoxo de Russell, cujos cujo detalhes esqueci, mas tem direta relação às classes lógicas. PG, César, nos propõe um entretenimento teo-lógico.

  3. Cesar
    23/09/2016 at 18:52

    Paulo, só pra saber se compreendi. Você diz que os homens perceberam que Deus não era fútil por causa dos dez mandamentos. Porém, é por causa dos dez mandamentos que sabemos que Ele é fútil, visto que se tirarmos os mandamentos, consequentemente, ele não produziria resultado nenhum. Por essa lógica posso dizer que o senhor não é filósofo, pois se tirarmos suas obras e publicações não teria resultado nenhum. Ainda posso afirmar que todos somos fúteis, visto que é só tirar tudo aquilo que nos torna não fúteis. Só acho que não foi um bom raciocínio. Você está definindo coisas excluindo a realidade. Ajude-me.

    • 23/09/2016 at 22:24

      Cesar se acha mesmo que eu preciso de você para eu ser filósofo? Acorda nenem!

    • Cesar
      24/09/2016 at 11:24

      Não foi isso que quis dizer, Paulo. Não interprete assim. Apenas transferi sua ideia a outros campos( sua vida e a minha). De qualquer forma, desculpa e tenha um bom dia!

  4. Orquidéia
    23/09/2016 at 07:10

    Deus é beleza pura, sem usura nem arrivismo, ele só quer sorrisos e foge de choradeira.

    *Onde estão os outros místicos,que não comentaram ?
    Nem Deus ligou para suas palavras poéticas,prof.,pois elas tentaram atingi-lo de algum modo,e Deus,como um bom mineiro, é desconfiado.

    Kkkkkkkkk…

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo