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18/11/2017

A juíza e o negro: destronando Sartre? Não mesmo!


O caso está em sites e redes sociais da Internet. O vídeo já se espalhou. A cena é americana: um homem de 49 anos está para receber sua sentença perante uma corte de Miami. A juíza o reconhece como um colega de classe escolar, no ensino básico. Ele põe a mão no rosto e exclama, chorando “Oh my God! Oh my God”. A juíza Mindy Glaser então revela ao público que o homem ali na sua frente, julgado por roubo e resistência à prisão, Arthur Booth, era o melhor menino de sua escola, e que havia jogado futebol com ela.

A notícia escrita e o vídeo são emocionantes. Mas, sem a filosofia desbanalizando o banal, isso pode ser tomado como um caso comum. Raro talvez, mas comum. Para a filosofia, ao menos da maneira que a faço, devemos ficar no que há de visível, de escancarado, não necessariamente irmos ao que supostamente estaria escondido.

Não vou procurar nada que esteja “por detrás” do acontecimento. Ao contrário do que dizem muitos afoitos em ciências humanas, a ideologia envolvida vem na frente. Ela está escancarada na fala da juíza, aparentemente neutra e solícita, e reiterada em grande parte dos comentários da Internet, em vários países. O fio condutor dos comentários, tirando excessos, é o seguinte: o mundo possui caminhos, em determinado momento alguns pegam o caminho errado. Eis aí o suprassumo do liberalismo tradicional, ou, em termos mais atuais, o liberalismo como ideologia, mas bem sutil. Fala a verdade, mas do modo que fala, desvia a atenção de outras verdades.

Ora, o mundo possui caminhos, mas há um pequeno problema no vídeo: Glazer é branca, Arthur Booth é negro. Ambos fizeram a mesma escola e, sendo assim, ao menos em parte, tiveram as mesmas chances. Além disso, Both tinha boa índole. No entanto, ao atingirem meia década de existência, estão ambos ainda patinando na vitória dos Federados contra os Confederados, lá do século XIX. Ela ainda se faz presente na história de cada um. A Guerra deu o passo para o fim da escravidão, mas a falta de oportunidades para negros ainda é uma tônica nos Estados Unidos. É uma tônica no mundo todo para as minorias que se fazem minorias não só pelo positivo, mas pelo negativo, ou seja, pela opressão velada ou explícita. O presidente negro americano, Barack Obama, reconheceu isso de público por esses dias: o preconceito e o ódio racial não estão apagados nos Estados Unidos. Certamente o caminho posto para Glazer não foi o caminho imposto a Booth.

Todavia, se pararmos aqui, a filosofia não terá feito nada além do que uma sociologia política poderia fazer e certamente faz. O importante é dar o segundo passo, e desfazer confusões que podem alimentar os comentários idologizados (por esses dias vi uma confusão típica do que vou explicar aqui, na leitura que Pablo Ortellado fez de um artigo de Contardo Calligaris: veja)

Uma confusão importante que sempre aparece é a posta entre a sociologia e a filosofia, ou, mais acertadamente, uma sociologia amorosa em relação à social democracia e uma filosofia que gira em torno de pressupostos existencialistas. Trata-se do embate entre a determinação social e a liberdade responsável de escolha. Intelectuais de formação sociológica tendem a usar de casos como o Glazer-Booth como um dado na argumentação sobre o destino inescapável, mesmo em democracias ricas, dos grupos populacionais que tiveram má sorte no passado. Filósofos de formação existencialista ou próximo disso às vezes aparecem como um empecilho para tais intelectuais, uma vez que Sartre deixou claro que sempre há uma escolha, e que o homem é escravo da liberdade uma vez que acaba por ter de fazer a liberdade acontecer, e o faz escolhendo. Não escolher também é uma escolha.

Ora, são incompatíveis tais explicações? Não! O que o existencialismo faz não é trazer à baila as diferenças entre o homem sob as determinações sociais e o homem capaz de amenizar as amarras que possui diante de determinações sociais. Essa é a tarefa da sociologia. A filosofia existencialista nega que possa haver o homem aquém ou além de condições sociais ou, melhor dizendo, terrenas, isso porque não há um homem em essência fora da Terra, fora dos compromissos que caracterizam o homem como homem. Portanto, todo homem tem sua essência na existência. Ou seja, não tem essência nenhuma. O homem é homem como aquele que está diante de nós, como nós, ou seja, sem a oportunidade de deslocar para fora do mundo e continuar a ser alguma coisa ainda chamada homem. Nesse sentido, para o existencialismo, o homem sempre escolhe porque sem a escolha não seria o homem. A liberdade não é uma essência humana, ela é fruto empírico da evidência de que o homem existindo projeta sua vontade aqui e ali e abre caminhos (virtuais) para todos os outros homens, ou fecha! O homem desnuda a liberdade ao existir.

A questão do existencialismo não é, portanto, a mesma questão da sociologia. A questão do existencialismo é mostrar que o essencialismo, que pressupõe algo chamado homem fora do mundo, este mundo humano, não faz sentido. Para o existencialismo alguém como Booth é homem porque é o Booth que está sendo julgado. Nunca houve um Booth fora da Terra, alheio às escolhas. Sendo assim, o homem Booth é o homem Booth que está sendo julgado e suas escolhas, que o levaram até ali, foram de fato suas, de mais ninguém. Nenhuma sociedade escolheu por ele. Só ele é responsável pelas suas escolhas e, portanto, pelo seu destino. Agora, deu azar dele ter nascido em uma sociedade em que o leque de boas escolhas possuem um limite mais estreito para os negros que para os brancos. Então, exercendo suas escolhas, ainda assim, sua chance de não fazer boas escolhas sempre esteve posta. Mas a chance diminuta de fazer boas escolhas não implica nunca em dizer que o homem não escolhe ou não pode escolher ou que escolheram por ele.

O combate do existencialismo, portanto, não é contra a sociologia que quer informar a política sobre deficiências de oportunidades para minorias. O combate do existencialismo é contra a filosofia essencialista, que diria que um malfeitor fez o que fez porque sua natureza essencial, boa ou neutra, foi corrompida socialmente (ou o inverso). O existencialismo protesta e diz: não há qualquer natureza, qualquer essência, o homem é homem agregado a tudo que o faz o homem, o homem é do barro, da Terra.  “Nem Rousseau e nem Sade!” é o que poderia ter dito Sartre.

Em termos sociológicos posso entender perfeitamente que Booth pertence ao um grupo de pessoas com menos chances de boas escolhas. Mas, em termos do existencialismo posso compreender muito bem que Booth pertence ao grupo dos humanos, e um tal grupo tem por determinação a escolha. O homem nunca fica sem escolher, sem agir mais ou menos como pede o figurino da noção de sujeito moderno (1). Mas, é claro, não o faz senão dentro da Terra, e esta não é geográfica e historicamente homogênea. Não à toa Cioran diz que “não vale a pena matarmo-nos, visto que nos matamos demasiadamente tarde” (O inconveniente de ter nascido, Letra livre, p. 2010, p. 32). Ou ainda: pode haver algum conforto em “ter cometido todos os crimes, exceto o de ser pai” (p. 8). Posto no mundo, o homem é homem e começa sua tarefa de escolhas que, se assim ocorre, confirma sua condição de homem. Essas escolhas ganham graus de reconhecimento de serem “conscientes” segundo a avaliação de outros homens.

O igualitarismo e a liberdade, no campo sociológico, são metas rapidamente transformadas em objetivos políticas, ao menos no mundo moderno e, de certa forma, nos tempos contemporâneos. No campo da filosofia existencialista, porém, a escolha inerente ao humano já está sempre dada, no sentido de que ele só é humano escolhendo. Fora de sua escolha, não o reconheceríamos como homem, e de fato não seria o homem.

A narrativa sociológica segue em um plano, a narrativa filosófica segue em outro plano. Não estão em regime de atropelo. Pensar com ambas é melhor que pensar com uma só.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

(1) Sartre colocou no horizonte do humano a figura do sujeito, mesmo em um século de crítica à subjetividade.

PS: Fico triste em saber que os alunos de Direito, inclusive de faculdades públicas, saiam formados sem conseguir entender esse meu texto, que é básico para qualquer pessoa que lida com a lei: entender a narrativa sociológica e a narrativa filosófica, ao menos nesse específico caso e nessa situação de determinada sociologia e determinada filosofia.

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23 Responses “A juíza e o negro: destronando Sartre? Não mesmo!”

  1. Julia
    11/11/2015 at 17:10

    Afinal, qual seria a abordagem certa então para o caso. Náo entendi

  2. Felipe Lara
    25/07/2015 at 08:25

    Paulo. Esse texto se encaixa perfeitamente no texto que havia lhe pedido. “Só se é livre dentro de um engajamento.” Excelente texto, que explica o Existencialismo de forma completa e sem demagogias. Difícil ver uma abordagem tão bem colocada como essa. Poderia me dar uma luz em relação a contingência. Qual seria a contingência desse caso?

  3. roberto quintas
    06/07/2015 at 16:38

    “o mundo possui caminhos, em determinado momento alguns pegam o caminho errado. Eis aí o suprassumo do liberalismo tradicional, ou, em termos mais atuais, o liberalismo como ideologia…”
    isso não tem coisa alguma com liberalismo.

    • ghiraldelli
      06/07/2015 at 17:17

      Roberto a ideia de “caminhos escolhidos sem condicionantes sociais” é uma ideia vinda do mundo liberal, não de uma doutrina, mas do básico do guarda chuva liberal: a ideia do sol nasceu para todos. Está em todos os pensadores do liberalismo tradicional. Mas vou esperar seu livro que vai desmentir todos, inclusive Locke. Se já publicou, avise, vou correndo agora na Martins Fontes buscar. É uma revolução!

    • roberto quintas
      06/07/2015 at 19:19

      para ser bem suscinto: escolha depende de acessos, recursos e capacidades. uma vez que o homem é um animal social, é dificil haver escolha sem condicionantes sociais. isso nos conduz um pouco à questão do livre-arbítrio, uma noção religiosa, mas que livre-arbitrio há ao individuo dentro de um jogo cujos dados estão condicionados?

    • ghiraldelli
      06/07/2015 at 19:28

      Roberto, se quiser avançar, sugiro vir conversar sobre o Filosofia política para educadores (Manole). Livro meu para o caso. O CEFA está sempre aberto para quem quer aprender. Quem já sabe tudo, meu blog não serve e o CEFA e o HOra da Coruja também não.

    • roberto quintas
      06/07/2015 at 19:59

      anotado!

  4. Chico Greter
    06/07/2015 at 09:23

    Sempre é bom mostrar essa diferença entre a perspectiva sociológica e a filosófica, comumente confundidas por tratarem às vezes do mesmo objeto de análise!

  5. Caio
    05/07/2015 at 13:11

    Eu achei curiosa a menção a alunos de Direito no fim do texto, e gostaria de entender o porquê da absoluta essencialidade de se compreender a narrativa filosófica e a narrativa sociológica para pessoas que lidam com a lei.

    • ghiraldelli
      05/07/2015 at 18:15

      Caio eu acho curioso e triste você não saber isso e não saber a razão da necessidade de saber isso. Tomara que você não vire advogado sem saber isso. Putz!

    • Caio
      05/07/2015 at 23:09

      Senhor, eu penso ter compreendido ambas as narrativas, e entendo que a interdisciplinariedade é importantíssima para a exegese, tão cara ao Direito. Mas a minha pergunta é (ou pretendia ser): por que o destaque especial ao Direito, frente a outras ciências? Talvez porque os cientistas sociais e filósofos estejam além dos juristas nesse tipo de análise, que deveriam incluir esse conhecimento em sua grade de estudos, ou porque essa capacidade analítica é especialmente importante para os profissionais das leis?

      Além disso, eu queria perguntar sobre o que o senhor pensa sobre a função da agressividade, da cutucada, já que a emprega constantemente. É forçar a reflexão? E se a pessoa falha em entender mesmo depois da cutucada, o senhor explica? Ou cutuca novamente, até a pessoa entender? Não leve a mal, eu fiquei verdadeiramente interessado!!

    • ghiraldelli
      06/07/2015 at 15:02

      Caio eu não cutuco coisa alguma. Apenas respondo o que tem que ser respondido. Quanto ao problema do Direito, ele é óbvio, é ridículo eu argumentar por ele. Volto a dizer, se você está fazendo direito e não entendeu o que eu falei, meu Deus, comece a estudar melhor e para valer, tá muito fraquinho. Não pode.

    • Sátiro Satire
      06/07/2015 at 17:32

      Caio, hoje, se o aluno de Direito sair da faculdade ou universidade sabendo algo da constituição já está de bom tamanho, imagina com noções de filosofia do direito e sociologia. Sucesso garantido!

  6. Noelia Coutinho
    05/07/2015 at 08:41

    O Existencialismo poderia ser ensinado desde a escola primária. Ele mostra o que diferencia o ser humano: a escolha.

    • ghiraldelli
      05/07/2015 at 10:56

      Noelia não é necessário se fixar nisso. Pode-se dizer outras coisas do tal ser humano, mas hoje em dia não dizemos nada do ser humano, estamos fora do humanismo

    • Chico Greter
      06/07/2015 at 09:22

      Minha cara Noelia, a obrigatoriedade da Filosofia no Ensino Médio foi aprovada em 2008 (Lei N°11.684/08) e faz parte do currículo desde 2009 em todas as escolas do Brasil; faz parte dos conteúdos básicos discutir essa questão em Filosofia!!!
      Prof. Chico Gretter
      Vice-presidente da http://www.aproffesp.pro.br

  7. Ponty
    04/07/2015 at 22:48

    Mas as escolhas e a liberdade para escolher implica em responsabilidade, como aliás o próprio Sartre ressaltava. Então, tanto do ponto de vista sociológico quanto do ponto de vista filosófico cabe perguntar: até que ponto Booth é responsável por estar onde está e a juíza por estar onde está? Essa é a questão. Para os liberais, Booth é o único responsável por estar onde está. Para alguém mais à esquerda a responsabilidade é da sociedade, do sistema. E antes que o nobre professor diga, como de costume, que eu não entendi o texto, digo que o nobre professor colocou a questão pela metade, pois a discussão é em torno da responsabilidade. Bom, mas isso não importa.

    • ghiraldelli
      05/07/2015 at 10:53

      O nobre professor falhou, pois não conseguiu explicar a questão para uma mente simples do Ponty. Tente ler de novo Ponty.

    • Marcio
      06/07/2015 at 10:30

      Quem colocou em discussão a(s) responsabilidade(s)?

  8. Rodrigo
    04/07/2015 at 21:43

    Olá, Paulo, o texto é exemplo de uma abordagem pragmatista? Tomando a parte pelo todo, quando você diz que não vai procurar “nada que esteja por “detrás” do acontecimento” enfatiza a abordagem utilizada. Estou errado?

    • ghiraldelli
      05/07/2015 at 10:51

      Rodrigo, sem ortodoxia, mas é mais ou menos isso sim.

  9. Helania Martins
    04/07/2015 at 13:03

    Parabéns pela reflexão! Existencialismo puro e simples.

    • Chico Greter
      06/07/2015 at 09:25

      O problema é que muitos entendem o “existencialismo” sartreano de forma idealista…aí ferrou!

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