Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

26/03/2017

Desculpe o transtorno, preciso falar de Sócrates


Nunca tive um pingo de ciúmes de Alcebíades. Jamais me comportei como Platão, que desmereceu o general por um rabinho, talvez, de inconformismo. Não foi mérito meu, mas factualidade: não estive com Sócrates cara a cara, nádegas com nádegas, dialética com dialética. Dado a fama de Sócrates, o feio sedutor, juro que não sei o que poderia ter ocorrido comigo se tivesse ido a algum banquete com o homem, ou frequentado campos militares. Todavia, o que passei com Sócrates vai muito além do ICQ ou do MSN. Vai além de desfrutar daquela flauta que o próprio Alcibíades dizia que era coisa de deixar o homem bochechudo, feio, e por isso mesmo algo desaconselhável. Minha vida com Sócrates não é de minguados cinco anos. Ninguém vive nada em cinco anos.

Antes de encontrar Platão, Sócrates sonhou com um cisne que veio até ele, pousou em seus joelhos, e depois seguiu voando. Antes de meu encontro com Sócrates não sonhei porra nenhuma. E ele muito menos. O que ocorreu foi bem diverso. Fui alertado pelo meu pai: não siga por esse caminho. Passei anos tentando seguir o conselho do meu pai, e o fantasma de Sócrates, aqui e ali, me perseguindo. Parecia uma prostituta da rua Santa Ifigênia, nos anos setenta. Oferecia sexo e anunciava: tenho quase todos os dentes da boca, pague-me um trago na Padaria Italiana. Sim, de frente para o cinema Boulevard, ali diante da esquina da Igreja Santa Ifigênia, onde fui batizado no dia da cidade de S. Paulo, com o nome de Paulo.

Sócrates era assim, sorrateiro. Pegava-me estudando matemática ou física. Tirava-me da leitura de Marx. Empurrava-me para a noite na Major Sertório em tempos de Ditadura Militar. Eu fugia dele. Fica ali vendo mulher pelada, para esquecer do seu chamado. Ele era a pior coisa que poderia me acontecer. Convidava-me para um filme juntos: a filosofia. Putz! Quem iria viver de filosofia? Filósofo não tinha vida, e naquele tempo, isso era tomado literalmente, dado que era uma época estranha. Época em que gente fardada não tinha dono, ou pensava não ter. Época em que moço que não fazia engenharia ou odontologia era viado ou candidato a vagabundo, ou pior: subversivo.

Fugi e fugi e fugi desse ateniense feio. Foi então que o desgraçado aplicou contra mim o golpe que os deuses haviam aplicado contra ele. Fez-me cair no conto do Oráculo de Delfos. Quando li o que ocorreu com Sócrates ao receber a mensagem do Oráculo, de que ele era o mais sábio da redondeza, fiquei altamente curioso sobre a sua atitude. Quando dei-me por mim, já estava fazendo a mesma coisa, filosofando por aí. Tentei por vários anos escapar de formalizar isso, não indo para a universidade, ao menos não a de filosofia. Mas quando fui, então soube que a melhor coisa é não fugir da felicidade. Filosofia se aprende, sim, na escola. E só nela.

O que vivi com Sócrates, embora ele já estivesse morto faz tempo, acho eu que é bem mais do que o prazer de fazer uma película ou de escrever para fazer propaganda minha mesmo. Vivi a descoberta de que filosofia não é debate, mas investigação conjunta. Sócrates me deu o prazer imenso de descobrir algo bem simples e ao mesmo tempo complexo e divino: o elenkhós, o verdadeiro método de Sócrates, e não a maiêutica, que Marilena Chauí e outros sabem que é apenas um método de Platão, mas insistem em ensinar errado. Cultura francesa demais não ajuda.

O elenkhós implica em colocar uma tese que ambos os parceiros de investigação concordam, aceitam, tomam como verdadeira, e então ambos devem tentar falsificá-la a partir de checá-la com outras teses que também possui crédito, e então notar que ambas as teses não podem conviver juntas no mesmo sistema de crenças. Assim, de trombadas lógicas em trombadas lógicas, de aporia em aporia, a investigação conjunta segue, o método se realiza, a filosofia anda, o amor pelo saber enquanto amor ao companheiro de investigação se efetiva. Quem já viveu isso sabe do que estou falando. Quem não viveu isso tem de ouvir o mito da Caverna, isto é, ficar só com o recurso didático. Dezenas de intelectuais acham que filosofia é leitura solitária, mas não é. Leitura sem escola, sem convivência, sem o elenkhós é completamente inútil para a filosofia, aliás, é um ato de completa falta de coragem. A convivência no  e pelo elenkhós, na investigação conjunta de base lógica, é o trabalho impulsionado por Eros.

Fugi de Sócrates porque intuía que ele tinha lá o poder das putas da Santa Ifigênia. Mas, felizmente, um dia, caí na sua rede. Ah, como é bom que não foram por cinco anos, mas pela vida toda.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 14/09/2016

Gravura: Alcebíades com Sócrates, de François André Vincent (1777).

Tags: , , , ,

9 Responses “Desculpe o transtorno, preciso falar de Sócrates”

  1. Pedro Possebon
    15/09/2016 at 20:57

    Sobre o texto:
    Existe uma tendencia de DAR alguma coisa nessa relação com Sócrates:
    “3- Uma vez perguntaram a um famoso violinista quando é que ele resolveu ganhar a vida com a música. O violinista desceu as sobrancelhas como quem estranhara a pergunta e respondeu: ‘’Ganhar? Eu dei minha vida por ela!’’”

  2. Filósofo Pablo Maranello
    15/09/2016 at 15:18

    Paulo Ghiraldelli Jr, boa tarde!

    Você joga PES ou FIFA?

  3. Filósofo Pablo Maranello
    15/09/2016 at 14:54

    Paulo Ghiraldelli Jr, boa tarde!

    Preciso saber sua opinião!
    Você prefere PES ou FIFA?
    É de suma importância! Minha vida depende disso!

    Grato!

    • Pedro Possebon
      15/09/2016 at 20:44

      Respondo eu,
      Bom, se for PES de mulher eu prefiro.
      PES ou Fifa?
      Fifa é para quem usa tornozeleira no PES, o que deixa sua questão um bocado redundante.

  4. 15/09/2016 at 13:29

    Bela leitura e simplicidade nas palavras.
    falou se do mito das cavernas o que o Platão entendia por isso Mitos da cavernas?

    • 15/09/2016 at 17:22

      Alegoria da Caverna, seria melhor. Um recurso didático para não-filósofos.

  5. AA
    14/09/2016 at 17:01

    Belo texto, sem dúvida, com jogos de palavras e algumas referências enigmáticas. Duas delas ao cinco, no primeiro e último parágrafo. Comemorando o quinto aniversário de algum evento?

    • 14/09/2016 at 18:52

      Não há nada, nadinha de enigmático. Se está com dúvida em alguma coisa, pode achar o nome na net ou perguntar ao autor. Meu textos pressupõe um certo acompanhamento do mundo da cultura, do entretenimento, dos jornais, não só da filosofia. Por isso o blog e de filosofia como crítica cultural. Não notou o título? Houve um auê pelo texto do Duvivier na mídia.

  6. Lúcio
    14/09/2016 at 10:53

    De novo show de bola! Valeu prof!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo