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22/09/2017

Desconstruir (em Derrida) não é destruir ou demolir!


O que é desconstrução?

Logo ao fim da campanha presidencial última, algumas pessoas reclamaram do PT por conta do partido ter “desconstruído” a imagem de Marina Silva. Caso quem tivesse dito isso fosse alguém do senso comum, eu entenderia. Mas vi isso até em artigo jornalístico de filósofo! Nesse caso, realmente, não dá para engolir.  O que o PT fez foi simplesmente propaganda contra Marina a partir de frases de Marina. Toda campanha política “anti” é assim.

O termo “desconstrução” não era empregado por nós, não com frequência, antes de ter se tornado uma palavra que Jacques Derrida trouxe para o vocabulário filosófico. Foi só a partir daí que os jornalistas se apropriaram da palavra e começaram a utilizá-la sem qualquer critério, e eis que até filósofos que acabam se restringindo a serem exclusivamente jornalistas, terminaram por utilizar o termo de maneira pouco cabível.

Desconstrução não é demolir ou destruir ou “botar abaixo”. Desconstruir também não é reordenar. Desconstruir é um termo de Derrida que tem a ver com o termo “redescrição” em Rorty. Mas redescrição não é simplesmente descrever de novo ou escrever de outro modo. Nem é igual ao re-significar da tradição pragmatista de John Dewey. O que Derrida fez, ao desconstruir textos, tem a ver com o redescrever de Rorty porque eles levaram a sério um movimento real da história da filosofia como a caracterizou o filósofo americano Whitehead. Toda a história da filosofia não é mais que notas de rodapé ao texto de Platão, disse ele. Exatamente: não existe uma história da filosofia em torno do mesmo objeto ou tema ou palavra, mas sim um recomeçar a partir de um novo ponto, mas sempre tendo como referência a leitura da obra platônica. Assim, a história da filosofia é, ela própria, uma desconstrução. É a desconstrução de Platão. Derrida nada fez senão tomar esse procedimento (que não havia se visto a si mesmo senão por essa frase de Whitehead), como o que faz cada novo filósofo voltar aos clássicos e recolher um termo, um assunto, um objeto, e redescrever o clássico citado. Desse modo, o que seria a sua central mensagem é aparentemente desprezada (ao menos para aquele filósofo que entende que a filosofia é descobrir ou inventar conceitos) pois o caminho iniciado desconstrói o texto, mas eis que, ao final, ainda assim o texto novo exige sim algo que podemos dizer: trata-se de algo com sentido, “faz sentido agora”, “saiu fora dos cânones interpretativos mas, ainda assim, reconheço o clássico ali, intacto”. Intacto e, portanto, não demolido, mas … desconstruído.

Quando lemos o texto Khora, de Derrida, aprendemos então a tarefa da desconstrução de maneira bem clara. Derrida se propõe a ler Platão, mas não pega nenhuma ideia dita tradicionalmente fundamental, nenhum termo que os platonistas diriam que é um conceito ou categoria chave, e sim um termo que aparece praticamente em um só livro, o Timeu, e então faz a leitura de Platão, e também a própria figura de Sócrates, como o que podem gerar nova narrativa. Ao final, o texto de Platão ganha uma nova leitura – finalmente uma leitura realmente nova, sem que se possa dizer, dali para diante, que não é aquela leitura que poderia ser a da intenção de Platão. O próprio Sócrates é visto como khôra, ou seja, um tipo de útero não físico e não intelectual, mas que forja o físico a partir do intelectual. Khõra é a palavra para o molde que molda a matéria a partir das ideias, faz o mundo igual ao mundo das ideias e, ainda assim, um cópia. O que é a palavra khõra, então? Ora, algo que não é matéria e nem algo é pensável racionalmente. Podemos chamá-la de “ideia bastarda”, como faz Platão. Mas alguém que é um lugar e ao mesmo tempo não é de lugar algum, pois é da ordem do que não tem respostas e modos próprios de algum local, não nos lembra a figura de Sócrates? E se Sócrates é Khôra, então a própria obra de Platão não estaria sendo pedida para ser lida como o que é também o lugar sem lugar? Eis que ao terminarmos a leitura do livro Khôra, nunca mais poderemos ter em nossa frente o Platão construído, muito menos reconstruído, mas redescrito em um sentido especial: desconstruído. Platão parece então, uma vez lido dessa maneira, como que um autor que pediu para que olhassem para seu texto como uma mensagem que precisa ser pronunciada em diversas vozes, em tempos e lugares diferentes, como se a própria obra fosse sempre um lugar sem lugar. Foucault diria: um lugar sem lugar é uma utopia.

A desconstrução não é um método. Ela é uma atividade filosófica que ocorre na cultura. Pode-se ter um autor que escreve um texto em que ocorre a desconstrução. Mas a própria desconstrução não funciona no mundo com um autor, um sujeito, e sim como um constante brotar de novas perspectivas (como Nietzsche diz) que se impõe sem respeito a qualquer hierarquia epistemológica.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

 

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