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01/05/2017

“Posso ir abortando por aí?” Da Lei Universal do Descarte (*)


Caso o aborto se torne algo não criminalizável, sim, você poderá abortar. Caso não, você poderá também, como já vem fazendo.  

No Ocidente, a cultura da irresponsabilidade manda em tudo. Todas as bandeiras, da esquerda ou da direita, não possuem nenhuma diferença, pois o aval é dado por aquilo que o professor de filosofia argentino Jorge Mario Bergoglio tem chamado de “cultura do descarte”. É a ideia de eliminação, de deixar de lado, de lançar no lixo, de descartar tudo que incomoda, é essa ideia que manda. O importante é que se realize o que outro argentino diz, ou melhor, argentina, a Suzanita amiga da Mafalda (fig. 1). Diante de mendigos na rua o que a espanta não é a existência deles, mas o fato do governo deixá-los ali estragando o visual das vitrines. Ela reclama, afinal não ocorreu o descarte total. A cultura do descarte é também a cultura da higienização, da limpeza máxima, a “limpeza social” que é a porta aberta para a “limpeza étnica” ou vice versa.

Uma gravidez indesejada? Há um só remédio: aborto. Um cachorrinho que faz cocô no quintal? Uma só solução: largá-lo na rua. Uma árvore que bate nos fios? Ah, simples: arranque-a! Favela? Nossa, mais simples ainda: ateie fogo! E o presidente que está governando mal? Ah, muito fácil: golpe militar nele! E a vovó que está doente em casa? Asilo! Rua! Que alguma irmã solteirona fique com ela. Afinal, qual a utilidade de uma solteirona, não é? E o menino que fugiu da escola para roubar? Puxa, esse já está descartado pela mira do cano do “45” do policial. E aquele professor universitário que quer ensinar? Basta descartá-lo acusando-o de alguma coisa qualquer da moda: doutrinação ideológica, racismo, machismo etc. E a professora primária já descartada por conta do salário ruim, continua reclamando? Podemos dar um segundo descarte nela, atingindo-a com gás e cassetetes. Há governos que se especializaram nisso, com aval da sociedade.

A “cultura do descarte” se tornou a única fórmula da nossa sociedade de lidar com aquilo que, em dado momento, ela pode identificar como um problema. E se eu mesmo sou o problema, como me descarto? Fumando maconha, bebendo ou me drogando de outras formas. Talvez eu possa também entrar na roleta russa do sexo. Os ricos nas cidades grandes (e São Paulo não está perdendo nisso) estão se organizando em festinhas onde todo mundo faz sexo com todo mundo, mas sem preservativo, e há sabidamente um aidético entre os convidados. Fico à mercê do descarte e, com isso, usufruo da última “adrenalina” antes do descarte real. É por aí. Caso não tenha tal sofisticação dada pela riqueza, posso me enfiar em algo equivalente: religião de igreja caça-níquel. Viro fiel ou pastor – tanto faz. São formas de descarte também. Eu me descarto como ser pensante.

Sabemos desses problemas. A “cultura do descarte” nos incomoda. Fazemos leis contra o descarte, tentando retirá-lo da sociedade. Criamos as leis de pensão, para que não descartemos filhos. Criamos as leis de proteção animal, contra o abandono e coisas do tipo, para que não descartemos os bichinhos. Criamos as leis contra drogas, para que o autodescarte não se exacerbe. Falamos em Direitos Humanos, para que o indivíduo não seja descartado perante o Estado ou para que o genocídio não venha montado na “lei do descarte” como sempre aparece. Falamos em escola pública boa para todos, de modo a não descartar a juventude. Criamos a lei de criminalização do aborto, para que a morte de bebês não seja uma forma fácil pela qual o descarte soluciona a nossa incapacidade de tomar a pílula mês seguinte (ou coisa parecida). Mas, nesse último caso, a lei nos pega no contrapé: também não lidamos com o apoio à mãe carente grávida, pois se ela morrer é um pobre a menos, alguém a menos, um descarte a mais. A “lei do descarte” parece sempre vencer-nos.

A direita usou do descarte como política de massa: descartou judeus, aleijados, negros etc. Descartou cientistas, artistas e “pessoas diferentes”. O nazismo foi o suprassumo da “lei do descarte”. Hitler tinha um plano de descarte da própria nação embutido no futuro: era para que Berlim fosse incendiada, na iminência de perder a Guerra.

Por sua vez, a esquerda descartou oposicionistas de todo tipo, e até aliados, em 1917. Lênin não mandou matar só o Czar e sua família, mas também companheiros, como os anarquistas. Stalin mandou matar todos, inclusive os não-adversários, os “amigos do peito”. Quando fez isso, inaugurou o descarte do próprio corpo, uma vez que a essa altura seu corpo era o corpo do partido e da nação. Não à toa, quando isso se acabou, o povo da ex-URSS fez um enorme bolo do corpo de Lênin na praça e o comeu. Tratava-se da reintegração, de um simbolismo para o fim do descarte. O homem que ensinou o descarte não seria descartado, seria engolido. Mas, como a “lei do descarte” é mais forte, também aí ela venceu. Em menos de vinte e quatro horas, Lênin foi descartado e vazou pelos esgotos, em forma de fezes.

Há algo que faz com que possamos parar o descarte? Há algo que faça com que a Amazônia não seja descartada? Há algo que possa nos ensinar a não descartar nossa alma, coisa que fazemos todos os dias ao comprometê-la com o demônio em cada esquina? Parece que estamos impotentes diante dessa lei.

Paulo Ghiraldelli Jr., 57, filósofo.

(*) Este é um de meus textos em que tento mostrar minha perspectiva em filosofia social, minha “posição”, em especial para o leitor leigo e com certa indisposição para textos mais longos ou acadêmicos. Para mais que isso, sugiro a leitura de Filosofia política para educadores (Manole, 2013)

Figura 1.

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9 Responses ““Posso ir abortando por aí?” Da Lei Universal do Descarte (*)”

  1. Matheus Kortz
    02/06/2015 at 20:12

    Excelente mesmo, nunca tinha parado para pensar nesse descarte, e lendo-o e lembrando das palestras da Olgária, só me ecoa na cabeça uma “desresponsabilização” acho que é esse o “grande mal” moderno. Pais desresponsabilizados criam mimimis que nunca se responsabilizarão por nada também, e aí, nessa sociedade sem laços, sem interesses, sem abertura para diálogo, resta só descartar, tudo necessita de “cortar o mal pela raíz” assinando o extermínio, e o convívio não é apenas impossível como indesejável; sociedade sem desejo, sem possibilidades de firmar laços, e todo mundo se desresponsabilizando, bem como recorrendo a qualquer argumento para justificar sua irresponsabilidade e fazer mais um mimimi

    • ghiraldelli
      02/06/2015 at 23:58

      Fiz outros textos cercando o tema.

  2. Paula Pucci
    29/05/2015 at 08:56

    Contundente e verdadeiro. Apesar de eu ser a favor da legalização do aborto por questões de saúde pública, sou obrigada a reconhecer que a lei do descarte é soberana. Cruelmente soberana e onipresente…

    • ghiraldelli
      29/05/2015 at 12:25

      Paula o aborto é um descarte total, talvez o maior, porque não abortar foi uma conquista, sabia? Aliás, eu não quero forçar posição, meu artigo não é para plebicisto, mas é de filósofo, e como filósofo devo lembrá-la que o aborto é a volta da barbárie, não o avanço, o aborto é a volta da contracepção das cavernas, e que não tem NADA A VER com “saúde pública”, um termo do higienismo social.

  3. Isabel Ferreira Barros
    27/05/2015 at 11:37

    Simplesmente real. Adorei e texto e estou completamente de acordo. Parabéns pelo conteúdo tão bem teorizado. Uma hora deve se preocupar com tudo que vc nos proporcionou com esta pequena grande tese. Penso que passa da hora e que estamos coniventes com esta lei de descarte por ser conveniente e imediatista vomo o mundo de hoje.
    Triste realidade.

    • ghiraldelli
      27/05/2015 at 13:27

      Pois, uma das teses do professor argentino (sabe quem é?) que eu reaproveitei.

  4. Angela Miranda
    27/05/2015 at 02:57

    Excelente texto Paulo a gente vê e descarta tantas coisas que as vezes até acha que é normal…

  5. Bruno Oliveira
    26/05/2015 at 20:57

    Que texto triste, Paulo.

    • ghiraldelli
      26/05/2015 at 21:08

      A filosofia pode ter bom humor, Bruno, agora ela não serve como entretenimento e diversão.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo