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22/06/2017

Desapega! O lema da mulher OLX


A nova novela da Rede Globo entra na onda do site OLX: “desapega”. A ideia básica é desapegar do amor que supostamente parece não corresponder. É a ampliação da ideia contra a qual se insurge o professor argentino de filosofia, Bergloglio, que por sinal é o Papa Francisco: o descarte, o “deixe de lado”, o “não ligue mais”, o desafaça-se, o desapegue. “Tô nem aí, cada um com seus problemas”, já dizia a música que abria a moda do que hoje virou a regra.

Jesus disse para o rico se desapegar. Este, não cumpriu a sugestão e nem voltou para dar satisfação. Claro que o ensinamento de Jesus continua o mesmo. Não temos que nos apegar a bens materiais. Ora, mas o problema é que o capitalismo também nos diz isso: tudo é valor de troca, não mais valor de uso, ou seja, tudo é desapegável e vira dinheiro, e nada tem mesmo que ficar em nossa mão. Assim funciona o mercado e o mundo moderno. Tudo é desapegável. Inclusive cães, mães, pais, namorados, medalhas e até a alma. Tudo pode ir embora não do modo que Jesus pediu, mas exatamente da forma que ele jamais imaginou que ocorreria.

O mundo do descarte entrou no lugar do mundo do desapegar-se de modo que todos ficaram apegados não mais às coisas e pessoas, mas ao seu substituto universal, a abstração chamada dinheiro. Cumpriu-se o que Jesus pediu, mas não o que ele queria. Então, hoje em dia, temos aí o Papa falando para não mais nos desapegarmos. A novela da Globo vem para desmentir o Papa: amores não são para serem refeitos, são para serem abandonados, esquecidos, desapegados. Ninguém pode sofrer por amor. Há a obrigação de ser feliz de modo fácil, e então não vale a pena nenhuma compreensão do outro. Deu certo deu, não deu, então tchau!

Essa ideia de que há o direito divino de ser feliz sem qualquer esforço, que temos que ser aceitos “do modo que somos”, que temos que cultivar a intolerância e a incapacidade de se colocar no lado do outro é a regra do desapegue-se, descarte, caia fora, esqueça. Não sofra por ele, ele não merece. Casamento, casa, filhos, fetos, cães, tias, doentes, pobres, pretos, mulheres, empresas, escolas, ah, tudo está enchendo o saco, tudo é difícil. Então, desapegue. Descarte. Mande embora. O mundo precisa de aumentar seu lixo tanto quanto “a fila anda”.

Não quero saber como alguém ficou como ficou. Chamo de fascista e pronto. Chamo de racista e pronto. Chamo de pedófilo ou de comunista e pronto. Chamo de mãe desnaturada e pronto. Chamo de bandido e pronto. Tá acabado. Descarto pela lei. Ponha para fora do emprego, da sociedade e da vida. Inauguro a lei nazi-fascista para tudo que não gosto.

A ideia de que, como indivíduos, “somos mais reais do que tudo que está em nossa volta”, como denuncia Peter Sloterdijk em Streß und Freiheit a respeito de nosso pensamento atual, inaugura o reino de uma compreensão de si mesmo e do mundo que beira a visão da Rainha do conto de Branca de Neve. A rainha sempre diante do espelho mágico, só enxergando a si mesma. Tudo que for mais belo, então, deve ser descartado. Que o caçador traga o coração da moça, morta na floresta. Que se descarte Branca de Neve. Vamos desapegar dela também. Eis a ordem das moças atuais. É a novela OLX. Um Jesus OLX.

Em uma época assim, onde não posso fazer nenhum esforço, menos ainda o de leitura e raciocínio, não é à toa que gente apta para o Stand Up tenha se posto como filósofo e gente que se diz leitor não consiga ler, exigindo só pequenos textos de facebook e exigindo a crônica curta que só repita o que quer ouvir. Vamos ter pensadores que não podem pensar. Tudo que puder minimamente ser considerado um esforço, terá seu fim na regra de ouro: desapega!

2015: o ano em que desapegamos.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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9 Responses “Desapega! O lema da mulher OLX”

  1. Jokas
    09/11/2015 at 16:09

    Essa é a modernidade líquida de Bauman. Infelizmente hoje em dia as pessoas são desapegadas, talvez o capitalismo e sua lógica da reificação tenha feito todo mundo ser tratado como mercadoria. Na medida dos interesses me aproximo de alguém e sou amigo, mas quando acabam as conveniências superficiais vou embora e nunca mais dou sinal de vida. Aqueles que ficam em posições subalternizadas ou nulificadas ficam ainda mais sujeitos a lógica do desapego feita pelos outros.

    • 09/11/2015 at 20:02

      Jokas,não é mesmo! Nada a ver com a bobagem do Bauman.

    • Matheus Kortz
      10/11/2015 at 08:22

      Na verdade ate tem um ponto de tangencia com os circulos, sitiamentos e tautologias do bauman que nao fundam teoria nenhuma.

      O problema do bauman é que ele só enxergou o problema, mas nao passa nem perto das causas ou razões, ele denuncia a modernidade liquida, mas sem ter lido nada de Nietzche ou escola de frankfurt, e se abusar sem ter entendido a critica à abstraçao (de Marx), fica girando em torno de uma frase só. Ao menos essa é minha opiniao

    • 10/11/2015 at 11:00

      Kortz o problema do Bauman é o Bauman. Ele não enxergou nada. São só clichés de jargões já batidos.

  2. José Silva
    09/11/2015 at 10:33

    Ontem fizeram uma matéria no Fantástico sobre isso. Foi até uma “escritora” que produz livros sobre isso pra dar conselhos para as meninas desapegarem. E ai delas se forem “apegadas”, é quase um insulto….

  3. Matheus Kortz
    09/11/2015 at 07:20

    Paulo, podemos dizer que algo do liberalismo também está incutido nesse descarte? afinal queremos nos livrar o mais rapido de qualquer problema, e se vier alguma lei, ou sançao moral doutra ordem, a fim de nos responsabilizar de algo, todos os olxises da vida, da direita à esquerda, virão dizer que estão retirando nossos direitos/ reduzindo nossa liberdade…

    • 09/11/2015 at 12:42

      O liberalismo é uma doutrina de azeitamento do capitalismo, não viu?

  4. 09/11/2015 at 00:54

    Ou seja, não é bem desapegar que vivemos
    e sim o descartar facilmente, (mas desapegaram a tudo o que é necessário
    ser trabalhado e compreendido), menos o dinheiro…

    • 09/11/2015 at 12:43

      Enoque, acho que você não entendeu o espírito, só a letra.

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