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01/05/2017

Derrida e a (in)segurança dos textos


A filosofia clássica e, de um modo geral, toda a filosofia até os tempos contemporâneos, sempre quis nos dar um porto seguro. Nossos tempos se distinguem de todo o passado, e por isso o reconhecemos como “uma época”, porque justamente a filosofia resolveu dizer que talvez o melhor que possamos esperar dela é a de ajuda na construção de portos, mas nunca algum que possa ser seguro. O filósofo nascido na Algéria, Jacques Derrida (1930-2004), foi um dos maiores representantes – e talvez o mais típico – desse nosso tempo “sem eira e nem beira”.

A história do elemento mais marcante da filosofia de Derrida, a “desconstrução”, começou com o linguista suíço Ferdinand Saussure (1857-1813). As lições desse homem foram cuidadosamente anotadas por seus alunos, e o que elas diziam trouxeram, ao longo do século XX, um novo entendimento a respeito da linguagem. Ele investigou um dos centros de atenção de quem estuda a linguagem, o significado. Ele definiu o signo, depois estruturou uma teoria para o significado e, enfim, redefiniu a linguagem.

Saussure viu a linguagem como um sistema de signos. Disse do signo que ele era uma articulação entre significante e significado, ou seja, uma entidade que agrupava um som (ou áudio-imagem) a uma ideia (ou conceito), e insistiu na tese de que o modo desse agrupamento era arbitrário, puramente convencional. A linguagem nada seria senão um sistema de signos forjados sem qualquer conexão previamente estabelecida “por natureza”, digamos. O som “cachorro” não tem nenhum vínculo com a ideia cachorro. Os estudos de Saussure se fixaram exatamente nesse caráter arbitrário da natureza do signo. A existência puramente relacional dessas entidades, o significante e o significado, (o som e a ideia) foi enfatizada por ele como uma relação negativa. Ele chegou a dizer deles algo como “sua característica mais precisa é ser o que os outros não são”. Ele fez, como Wittgenstein, analogias com um jogo de xadrez: as regras do jogo são uma coisa, que caracterizam o jogo de xadrez como o jogo de xadrez, agora, a forma das peças pouco importa; é-nos permitido usar qualquer coisa no lugar da rainha, podemos definir a peça que chamamos hoje de cavalo como rainha se a função é a de rainha, ou seja, andar em todas as direções. Podemos colocar um caroço de abacate no lugar da rainha, e assim mesmo estaremos no jogo de xadrez quando o caroço for a peça que pode andar em todas as direções dentro do sistema ou estrutura de regras “jogo de xadrez”. Assim, o signo (ou seus elementos, o significante e o significado) é a peça do jogo e, portanto, não depende da sua forma ou qualquer essência própria, mas somente da função dentro do jogo, ou seja, da função dentro do sistema a que pertence: uma linguagem.

Essas conclusões de Saussure, visivelmente anti-essencialistas, foram do campo da linguística para o da filosofia, atingido de modo ferino o platonismo. De certo modo isso se fez de maneira semelhante ao que disseram, por outra via, os pragmatistas americanos e o próprio Wittgenstein. Saussure deu o background para Derrida falar da linguagem.

Saussure criou elementos comuns da corrente filosófica (e de ciências humanas) chamada estruturalismo. A linguagem foi vista como um estrutura, como um organismo com vida própria. Quando Derrida retomou os estudos do linguista e tirou deles consequências ainda mais relativistas, inclusive para fustigar outro estruturalista, Levy Strauss, ele foi chamado de pós-estruturalista. Levy Strauss viu a estrutura como ainda dependente de certo naturalismo. Derrida não, ele manteve a arbitrariedade para os elementos da linguagem, signo e seus componentes, significante e significado, e acentuou o caráter negativo deles. Sua existência como o que seria definido em função das regras que estruturariam a linguagem, mas sendo tudo aquilo que o que o cerca não é. O caroço de abacate joga como rainha e, por isso, ele não faz a função do peão ou do bispo etc.; só assim emerge com sua cabeça de caroço de abacate vestindo coroa.

Assim, o que Derrida fez foi afirmar que toda presença do significado é uma ausência e toda ausência dele é uma presença. Claro: o significado se põe negativamente, de modo que ao se colocar o faz negando uma série de outros significados e, assim agindo, se apresenta à medida que se retira. O significado se excede, ao se por mostra um superávit. Derrida usou para essa característica a “différance”, uma palavra cunhada por ele como uma corruptela de différence. Aproveitou-se de que o verbo francês différer indica, de modo equivalente ao nosso “diferir”, divergência e também adiamento. Seguindo que sua marca é sua função na linguagem, então o significado estabelece-se em différance, isto é, expõe distinções e adia novas relações, aponta divergências e não identidades e ao mesmo tempo dá a previsibilidade de novas configurações.

Tudo isso, grosseiramente, pode ser visto na multiplicidade de significados que todas as palavras carregam nas costas. Assim: “ela é uma gatona”, que pode estar falando de uma gata caseira grande, de uma mulher bonita ou de uma leoa. Cada palavra traz um grande número de significados seja lá qual for seus usos. Assim, notamos o poder da linguagem em sua arbitrariedade, pois não é só o contexto que determina o significado dado no texto, mas o significado também determina o contexto. Gosto de citar esse exemplo de Terry Eagleton, falando do aviso no metrô londrino: “Cães devem ser carregados no elevador”. Para vários ali, com cães, o texto determina que peguem os seus cães no colo para subir ou descer escadas rolantes, enquanto que para um determinado homem o texto cria um pânico: teria ele de voltar para casa e pegar seu cão para, então, poder usar a escada rolante?

Essa propriedade dos significados em seus usos cria então o que Derrida chamou de desconstrução. Todo texto ao se firmar também se põe de modo diferente, se desconstruindo. Todos os textos são autodestrutivos, e isso não depende de cada uma das pessoas atingidas pelos textos, mas é uma característica factual da linguagem. Como o pensamento humano e a linguagem são ou o mesmo ou possuem grande afinidade, o próprio pensar humano é desconstrutivo. Buscar sair da prisão da linguagem é pegar um caminho de volta para a prisão. Ela constrói nosso mundo e ao mesmo tempo nos mantém nele, na sua contingência e suas multiplicidades semânticas relativas. A consequência disso para a teoria filosófica da subjetividade é que a linguagem cria o eu. O sujeito é então diferente do cartesiano e moderno, e se apresenta descentrado, de emergência pontual e contingente. O sujeito é o que fala, mas mesmo quando fala de si-mesmo, o faz também segundo a différance, dos poderes desconstrutivos.

Mutatis mutandis é o que Nietzsche falou sobre o sujeito. A desconstrução está no clima de Nietzsche. Este foi quem tirou a autonomia do sujeito (do eu) ao dizer “não sou eu quem falo, mas o pensamento que meu vem”, e também dizendo que o sujeito não é um ponto fixo ou essencial, mas um elemento gramatical, apenas um elemento que faz a frase ser enunciada segundo a estrutura da nossa gramática, que estabelece-se em uma estrutura de frases com sujeito, verbo e predicado. Essas observações formaram um tapete para o trabalho de Davidson, Rorty e outros, ainda estes dois últimos tenham aprendido tal coisa também do lado da filosofia analítica, principalmente da herança de Quine.

De Saussure a Derrida o que se tem aí é uma tese antiplatonista: o significado ou o ser, ou seja, “o que é”, não nos dá porto seguro, não remete a algo absoluto, mas ao que ao se fazer se desfaz e se refaz. A desconstrução é permitida a nós não por decisão voluntária, mas por decisão das características da linguagem. Assim, as traduções entre linguagens são, no sentido estrito, impossíveis, como já havia declarado Quine e de modo radical Davidson (o que não significa, de modo algum, que não possamos nos entender e nos comunicar, muito pelo contrário!).

Também aqui há uma proximidade com o projeto de Sloterdijk, que busca uma teoria da mídia antes que uma teoria de elementos. A linguagem com funções contingentes não se impõe como uma mídia? Traçar uma descrição do mundo e de nós mesmos segundo uma teoria da mídia é, também, não deixar de considerar essa poder dessa mídia chamada linguagem, e neste, o seu poder de desconstrução que lhe é inerente. Ao mesmo tempo, uma linguagem que assim é, se faz no deslizamento de conceitos, e utiliza de inúmeros discursos que não precisam se hierarquizar epistemologicamente, ou melhor, não precisam se hierarquizar segundo a Verdade, que seria o critério platônico. Por isso mesmo, a maneira que Sloterdijk faz sua narrativa contida na esferologia é uma narrativa multidisciplinar, digamos assim, ainda que o termo não seja muito agradável.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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12 Responses “Derrida e a (in)segurança dos textos”

  1. Humberto
    07/10/2015 at 22:24

    Poderia citar a referente da frase de Nietzsche? Obrigado

    • 08/10/2015 at 01:28

      Humberto sobre Nietzsche você pode começar pelos aforismos 17 e 19 de Além de Bem e Mal, e também pelo 13 de Genealogia da MOral. Bem, esse tema é um universo em Nietzsche.

  2. walmagson
    18/03/2015 at 19:25

    Caríssimo a discussão aqui é de caráter hermenêutico no sentido global. O texto explica o sentido de significado de forma contudente. Mas a questão é das implicações que essa discussão toma a partir de seu caráter prático…

    • 18/03/2015 at 19:54

      Putz! Mas para ir para o “caráter prático”, como se não estivéssemos nele (ai meu Deus!) é necessário que exista o entendimento do texto. E pelo que falou, você não entendeu o texto.

  3. walmagson
    17/03/2015 at 21:10

    O termo ”Différance”, no contexto fundamental da filosofia de Derrida. A descontrução, pode ser tomada como a dissociação entre o sentido, sentido este baseado no sentido do conteúdo mental atrelado a consciência num contexto limitador ao qual sempre o homem está. E a plenitude do mundo das coisas, assim sendo a linguagem é uma mera coincidência entre a consciência e o mundo. Então estamos limitados a somente ao fenômeno da nomeação das coisas. Assim sendo a pretensão das ciências e da filosofia se resumem a uma simples atividade de nomeação das coisas do mundo?

    • 17/03/2015 at 21:28

      Walmagson. Sentido é sempre sentido objetivo. Não mental. Por isso fiz questão de mostrar que noção parte de Saussaure. Não há psicologismo nenhum.

    • walmagson
      18/03/2015 at 00:11

      Então Derrida, não faz com a linguagem o que Rorty faz com a metafísica? Derrida e Rorty não estão em oposição quanto à linguagem. Acho que o que está atrapalhando você é que você não sabe o que é “significado”, “linguagem” etc. no registo da filosofia contemporânea. Mas o artigo diz o que é.

    • 18/03/2015 at 00:14

      Derrida faz com a linguagem o que Rorty faz com a linguagem a partir de Derrida.

  4. Henrique
    14/03/2015 at 15:30

    pra Derrida a linguagem é autoreferente?

    • 15/03/2015 at 00:28

      Henrique explique o que quer dizer. Obrigado!

    • Henrique
      15/03/2015 at 10:33

      Se a linguagem não toca a realidade (“não há nada fora do texto”), ela é algo mágico. Pensar o processo de origem da linguagem nesses termos seria impossível, pois deveríamos pensar um momento histórico em que ela não existisse, e estando submersos absolutamente na linguagem e não havendo algo fora dela, não seria possível pensar em algo antes dela. (não sei se fui claro, fiz confusão?)

    • 15/03/2015 at 12:16

      Henrique você está confundindo a linguagem com a gênese da linguagem. E pior, não entendeu a intuição de verdade: “S é verdadeiro se e somente se s”, mas como saber s sem S?

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Filósofo