Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

27/05/2017

O ânus como a última porta


A arte não tem que ser bela. Ao menos não após a fim da história da arte, como o filósofo americano Arthur Danto efetivamente já mostrou em diversos livros. Isso é quase que uma definição: a história da arte chega ao fim à medida que, entre outras coisas, ela própria, a arte, dispensa os filósofos e começa a filosofar por si. Ela faz isso quando se divorcia do belo. O belo vai para um lado, a arte vai para o outro. Eis então que já estamos no passo do surrealismo para a arte contemporânea.

Quando falamos do belo, falamos de artes plásticas. Mas o uso da palavra se estende facilmente, desde a Grécia antiga ou principalmente na Grécia antiga, para o bem, o justo e o verdadeiro. Nesse sentido, o teatro de pantomima, capaz de expressar a comédia e a tragédia, podiam ser belos. Cá entre nós, a pantomima é bela por ela mesma enquanto movimento corporal humano.

Nos tempos contemporâneos a pantomima desgarrou-se do teatro enquanto “peça”, enquanto narrativa historiada, bem representadas na tragédia e na comédia. Ela tornou-se instrumento de algo chamado performance. Na performance a história perde para a filosofia. Ou seja, uma pantomima como performance é antes um ensaio de cunho literário-filosófico que propriamente um enredo de uma narrativa, a trama de uma história. É uma boa performance principalmente se permite várias interpretações consistentes.

A leitura superficial de “Macaquinhos” é forçado pela falta de memória. Depois de Zé Celso, não há nenhum sentido numa performance chocante no sentido moral rasteiro. Por isso mesmo, acreditar que “Macaquinhos” é isso, uma peça para fustigar gente inculta, é entrar por uma via que pode ter sua verdade, mas que não valeria a pena comentar se fosse só isso. No meu comentário, exposto aqui neste blog, quis ressaltar que a peça tematiza – e isso tanto faz se os autores, criadores e artista sabiam disso ou não (1) – o “dentro” e o “fora”. Essa é uma preocupação filosófica. A filosofia se preocupa com isso porque o homem é o único ser que quer ver dentro, na observação arguta de Bachelard. O homem fala do dentro e do fora porque inventou o âmago, o interior e central, observou Sartre. A filosofia é o lugar mestre dessa invenção moderna.

Nossa linguagem toda mudou, e não apenas a linguagem filosófica, quando passamos a utilizar o “dentro” e o “fora” com a naturalidade que fazemos hoje. E assim fizemos quando começamos a romper com aquilo que, então, nomeamos a partir da palavra “dentro”. “Inside” ou “side” & “in”. Quando Nero criou a cesariana, em ato bárbaro cujo nome os médicos utilizaram exatamente para avisar que nascer é entrar no curso da morte, abriu-se a era do “dentro” e do “fora”. Vagina, orelha, ânus, boca e dobras em geral: elas dão passagem para o que está “dentro”. Jack o estripador, médicos e alguns filósofos vieram com essa escola de Nero: ver o que está dentro. De onde vim? Vim de dentro. Então, que abra o dentro, quero ver dentro.

É fácil remeter essa curiosidade a respeito do dentro para a antropologia. Macacos e outros mamíferos parecem querer procurar o dentro. Mas um coisa é o dentro sem linguagem e outra coisa é o dentro com linguagem, com a invenção do “dentro e fora”, e com a valoração correspondente. Quando nos defrontamos com a linguagem, com a sua história, percebemos que é tardia a metáfora do dentro e do fora. O grego antigo, com toda sua filosofia, não a fez central. “Dentro” e “fora” são criações modernas. Tem a ver com o cristianismo e, principalmente, mais tarde, com o nosso rompimento com o Grande Dentro. Trata-se do horror moderno, como o de Pascal, de perceber que não estávamos num universo fechado, num novo útero, mas no aberto, na imensidão. Foi só aí que perdemos o dentro e, por perdê-lo, soubemos o que é o dentro e o fora. A partir daí, todas nossas metáforas do dentro como o importante e o fora como o não importante proliferaram. A verdade está dentro – passamos a dizer isso com naturalidade. Ora, para Platão a verdade estava fora, no exterior da caverna! Nós modernos, filhos de Rousseau, ao contrário, damos à intimidade o nome para o lugar que nos mostraria o que somos. A quatro paredes é que achamos que conhecemos alguém. Milhares de “dentros” povoam a linguagem.

Olhar o orifício anal do outro para entrar nele, para descobrir a verdade do mundo, do homem. Eis uma tarefa impensável para o não moderno. Não a vagina, que é uma verdade só da mulher, e sobre a qual padres, ginecologistas e feministas tomaram posse. Mas o ânus é o dentro comum, a porta comum. Porta de saída e de entrada, como qualquer porta. Mas, ao mesmo tempo, porta que ainda posa de secreta. A porta mais recolhida que temos, a dobra mais dobrada, a prega mais bem feita. Vamos examinar isso, o caminho para o dentro, em uma sociedade de macacos que estão ainda nessa de achar que o dentro é importante.

Uma sociedade pós-moderna não estaria nem aí com o cu. Porta para o dentro? Ora bolas! Mas uma sociedade ainda moderna está sob o domínio dessa ideia fantástica que é inventar o interno e o externo e eleger o primeiro, o escondido, como lugar da verdade.

Toda a história da filosofia é uma grande briga entre as importâncias do interno e do externo, do dentro e do fora, do subjetivo e objetivo, do útero e não-útero, da ser-aí lançado e do ser que se volta. Em um mundo como o nosso, em que a transparência se impõe, vemos a guerra de todo não-privado contra todo não-privado, uma guerra de tudo contra tudo, uma vez que nada mais é privado, talvez ainda exista o dentro. “Macaquinhos” é isso. Um réquiem tardio para o dentro. Há a possibilidade de ainda termos algo que chamamos o dentro? Não será a “porta do cu” a nossa última ilusão sobre o dentro?

Não é muito irônico que nessa hora, nesse último sonho moderno, tenhamos companhia só de oxiúros e, claro, ao redor, de um bando de néscios cujo entendimento da pantomima é bem menor do que a de qualquer micro-organismo presente?

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

1 Para autores e artistas, pelo que consta, eles estão fazendo algo inspirado em livro de Darcy Ribeiro, em expressão popular ali contida etc. etc. Isso interessa ao crítico de arte, mas menos ao filósofo. OK?

PS 1: Pessoal que é meu leitor de sempre: leiam os comentários dos que não entendem nada e se divirtam. Eu respondo alguns.

PS 2: Para os que não possuem pouca informação sobre a pantomima, veja aqui!

PS 3: Informação sobre pantomima também aqui!

PS 4: O QUE FEZ A FILOSOFIA COM “MACAQUINHOS”? A performance “Macaquinhos”, segundo seus autores, queria chocar o público por meio de uma inspiração em texto de Darcy Ribeiro. Dei-lhes mais que isso com o meu texto, e espero que agora, leitor, você saque como a filosofia trabalha: ele nunca resume ou comenta, ela amplia dando mais perspectivas. Inclusive a dela própria, a de notar como que estamos, às vezes sem saber, no contexto do “espírito de época”. A filosofia, disse uma vez Hegel, é a captação da época em pensamento. Dei-lhes pistas, pelo comentário da peça, de como ela está no contexto de uma época que inventou o “interno” e o “externo”, valorizando o primeiro como local da verdade.

Tags: , , , , , , , ,

9 Responses “O ânus como a última porta”

  1. Marina
    23/11/2015 at 18:21

    A questão mais importante é como essa peça causou um furor na pergunta, O que é arte? Seria essa limitada? Qual a limitação da arte? Alguns artistas criticaram impondo limite à arte, seria uma perseguição ao que causa estranhamento, o não belo? O feio incomoda, o nojento incomodo, o fedor incomodo, e porque uma parte do nosso corpo incomoda tanto? Porque é suja, ou porque é utilizada na forma de prazer? O sexo pode ser sujo, pode ser lindo e feio, depende de quem sente, de quem vive. O que seria da arte se ela não tivesse uma ruptura ou um choque? Acredito que as pessoas posssam não gostar de Macaquinhos, mas afirmar que isso não é arte como muitos aqui disseram é ter atestado de inferior mesmo. Sair da caixa é muito dificil. Pior ainda quando esses caras conseguiram chegar no Sesc… então o ódio aumenta com uma lupa gigante!

    • 23/11/2015 at 18:23

      Marina agradeço sua colaboração. Todavia, devo lembrar, meu artigo não é sobre esse assunto, OK? Mas tudo bem, se quis comentar isso, seja bem vinda.

  2. 23/11/2015 at 09:10

    Acho que isso não é arte, é uma extensão da imbecilidade e ignorância humana de incapacitados que através da idéia de um otário maior como Mavi Velos que foi um dos idealizadores da peça resolvem chocar, claro! conseguiram. Na verdade as críticas ocorridas devido a esta imbecilidade, não tem nada a ver apenas com o mérito de pessoas moralistas ou falsos moralistas não entenderem a proposta, simplesmente não vemos nenhuma, não agrega nada a ninguém, não oferece cultura alguma, não ajuda a arte, temos que parar de ser hipócritas e mais imbecis ainda qd algum formador de opiniões respeitado pela sociedade elogia um trabalho deste gênero e começarmos a tentar achar sentido numa porcaria destas. inculto ou não, isso a obra ” macaquinhos” (kkkkk) não é nada mais do que a merda que sai do cu por onde eles querem entrar.

    • 23/11/2015 at 12:48

      Flávio, discordo de você sobre arte. Ao menos é arte se seguirmos os critérios atuais, sobre os quais não há espaço para dissertar aqui, mas que podem ser vistos nos livros mais atuais de Arthur Danto. Além do mais, a pantomima é arte sim, e nesse caso está bem feitinha. Mas gostaria de lembrá-lo que meu texto NÃO é sobre crítica de arte. Meu texto é filosofia na crítica da cultura. Se considerarmos o critério da filosofia, posto por Hegel, de que ela é a apreensão do tempo em pensamento, então, o que eu fiz foi mostrar que nosso tempo é aquele da invenção entre o fora e o dentro, e isso a performance expressa. Não é necessário que os artistas tenham conhecimento disso. Aliás, a peça fez sucesso não pelo moralismo das pessoas, nem pelo “chocante”. Público de teatro chocado com isso seria ridículo. A peça foi sucesso porque ela põe em questão essa inauguração moderna do interno-externo, em que o primeiro polo fica com a verdade. Essa é uma visão filosófica. Uma pessoa culta, mesmo que não saiba nada de filosofia, percebe o que meu texto disse. Afinal, o esquema de Hegel está na cabeça das pessoas cultas. Todas sabem o que é um “espírito de época” – você sabe. Bem, creio que com essa explicação você pode agora ver a performance e ler meu texto e produzir o seu texto. É para isso que escrevo. Claro que quando o leitor é um burraldo eu não respondo, apenas lhe dou a cintada que ele veio aqui pedir. O burraldo é masoquista.

  3. Nila Madureira
    23/11/2015 at 00:17

    Mesmo não conhecendo nada sobre crítica artística. Tive uma concepção semelhante. A intenção mesmo era chocar. Mas a maioria dos comentários que li a respeito da performance são toscos do tipo: isso é arte? Como se arte tivesse uma definição singular.

  4. Orivaldo
    22/11/2015 at 18:34

    Bom!
    Primeiro: O que se nota nos comentários anteriores é que a ira é mais dirigida ao Paulo do que a “peça”.
    Segundo: O comentário do filósofo extrapola o assunto dando a tal performance uma importância que nem seus criadores supunham possuir.
    Terceiro:Valeu a performance, valeu o reforço filosófico do Paulo e valeu os comentários inteligentes (que foram poucos) dos que acharam válido a discussão, gostando ou não da performance,

    Eu particularmente não sei se teria saco pra assistir a “peça” , mas lendo o texto acho não perdi o mais importante.

    • 22/11/2015 at 19:10

      Orivaldo, eu não falei da peça, eu falei do vídeo. Ele é o meu tema principal.

  5. Matheus Kortz
    22/11/2015 at 18:09

    Paulo essea dias eu tava mepensando em questao da identificaçao humana, e dos nossos horizontes de sensibilidade, e é obvio que a nossa sensibilidade é muito mais audiovisual do que em qualquer outro sentido. É obvio que nos sensibilizaremos mais por aqueles animais com os quais podemos estabelecer uma comunicaçao, um comum, a barata e a formiga nao produzem sons nem respeitam os nossos gritos para se afastar, se nos vissem certamente nao subiriam em nós que somos muito mais um empecilho gigantesco no meio de sua rota que qualquer outra coisa, os caes, gatos, a maior parte das aves e diversos outros cordados se situam no nosso campo sensorial passivel de comunicaçao, e atraves desse comum, nos identificamos nos sensibilizamos, nos afetamos, nos envolvemos por eles. Mas os demais animais usam muitos outros sentidos do que nós. Como no caso os macacos e seu olfato, talvez essa peça tbm nos de pistas sobre o que somos o que poderiamos ser, mas principalmente uma critica a todos os que nao se deixam sensibilizar e, que agora, no seu blog ou em outros espaços vociferam contra aqueles que se deixam percorrer outros caminhos

  6. 22/11/2015 at 13:53

    Gostei do texto! Parabéns!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo