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18/11/2017

A democracia é a menos culpada pelos supostos “coitados”


Quando começo a ler um texto em que a democracia aparece encaixotada pela conversa sobre “direitos versus deveres”, algo me diz que o final não será bom. Um texto desse tipo acaba sempre em tom conservador com alguma frase de tia velha ou professora anorgásmica de ginásio. Fala-se em direitos para condená-los e dizer que até seriam bons, mas que em geral quem os quer esquece dos deveres. Mentira.

A democracia moderna nasceu junto com cartas de direitos liberais. Deu novos direitos para quem tinha poucos e inaugurou direitos para quem não tinha nenhum. Por que os liberais não falaram igualmente de deveres tanto quanto falaram em direitos? Por uma razão simples: quanto aos deveres todos, até mesmo os burgueses que iniciavam o processo de enriquecimento, estavam até às tampas. O regime feudal e o regime de monarquias absolutistas deram deveres a todos, de uma maneira que ninguém podia esquecer. Até os superiores tinham deveres. Era dever do servo trabalhar na terra do senhor e ainda por cima dar uma parte da sua produção ao senhor, quando trabalhasse no quinhão do qual fazia parte; mas, em contrapartida, também era dever do senhor cuidar da segurança do servo – e para isso tinha que ter exército, pagá-lo e, enfim, cuidar para que ele fosse fiel e não servisse a outro senhor. Não pense que era uma tarefa fácil. Durante anos o mundo só conheceu deveres.

O mundo liberal veio para libertar não só “os de baixo” de muitos deveres, mas prometia também fazer o mesmo para os “de cima”. Em parte, fez isso. O mundo liberal foi denunciado como ideologia por Marx não pelo que fez, mas pelo que prometeu e deixou de fazer.

Mas superamos a situação da hegemonia de deveres? Não! As democracias liberais atuais, com menos ou mais cores de social-democracia dependendo do lugar, são ávidas em impostos, e muitos são os que pagam como quem faz um dever. Aliás, é um dever – amargo. Mas quanto aos direitos, não raro, para que se consiga a efetivação dos já existentes do ponto de vista legal, há de se recorrer a advogados e a políticos. Isso quando não se tem de recorrer aos movimentos de protesto na rua. Isso ocorre em graus diferentes, claro, mas nenhum país escapa dessa situação. Mesmos as ditas democracias ricas e azeitadas possuem aí um batalhão de advogados prontos para entrar com processos contra um Estado que não cumpre obrigações legais. E cobram caro para conseguir apenas um acordo.

Sendo assim, a conversa de que a democracia faz mal e gera a “ideologia do coitadismo” é antes de tudo mera ideologia também. Por mais que uma democracia gere grupos que se acham com direitos, o fato histórico é que o número de direitos conseguidos e que de fato são executados, principalmente em relação aos pobres e às minorias, não é muito não. Aliás, no Brasil, não se pede direito à toa. Muitos dos direitos que são pedidos pelos pobres e pelas minorias são pedidos cansativos exatamente porque estão há anos nas pautas políticas e sociais e não vingam. Alguns até estão no Congresso há décadas, e nunca se transformam em leis. Se notarmos a lentidão com que eliminamos paulatinamente a escravidão, teremos uma ideia de como a democracia imperial foi lenta no Brasil, e se notarmos que hoje ainda se fala, entre nós, que trabalhador dá prejuízo para patrão, veremos com a democracia republicana sofre de dores intestinais que a puxam para trás.

Todavia, é triste ter de repetir isso não só para jovens, mas até para professores que deveriam saber disso.

Só um ignorante da filosofia política pode hoje dizer que pobres e minorias no Brasil possuem direitos fantásticos e não cumprem nenhum dever. Em um país como o nosso, em que os pobres e os setores médios pagam impostos sem perdão, e que tais impostos são altos se comparados com o benefício social correspondente, é uma total incompreensão do fenômeno da democracia moderna falar em direitos dentro do cânone “direitos versus deveres”. Não há esse jogo. Pois os direitos estão na série “B” do campeonato, e desta série a TV transmite só alguns jogos.

No Brasil, não raro, estamos nos acostumando a endossar uma confusão feita por curiosos em filosofia política que posam atualmente de entendidos. O que se quer fazer é politizar o “mimimi” dizendo que se trata de uma disposição (ou melhor, uma indisposição) criada pela política. O que se quer afirmar é isso: um país que ensina todos as terem direitos sem deveres gera o “mimimi”. Talvez isso seja verdade, mas esse ensinamento não é político, é caseiro, familiar, e não vem dos setores mais pobres, para quem o mundo disciplinado do trabalho chega logo e realmente ensina sobre quão poucos direitos temos. A ideia de se ter direitos ilegítimos vem exatamente de setores médios e ricos. Trata-se do comportamento típico do “playboy” e do “filhinho de papai”, agora imitado por setores médios que fazem das tripas coração para parecerem ricos. Os pais vivem de privações para deixarem seus rebentos terem de tudo e ainda reclamarem de direitos. Foram os ricos que ensinaram isso aos setores médios no Brasil, até porque, em nosso país, filho de rico sempre herdou a empresa do pai para fali-la, nunca para levá-la adiante. Nunca foi de muita responsabilidade.

Para entender o Brasil temos de levar a sério o pensamento do sociólogo americano Wright Mills: “as pessoas com vantagens relutam em crer que são felizes porque possuem vantagens”. Sabemos bem como no Brasil atual os ricos possuem vantagem, inclusive diante do Estado, e como eles se comportam em relação a isso.

Culpar a democracia por uma moral que quer mais direitos sem deveres é a pior discussão que alguém pode fazer quando toca em assuntos sobre a moral moderna. Alunos de esquerda e de direita que não querem fazer tarefa escolar, e que inventam desculpas políticas para tal, acusando professores de os perseguirem, são só delinquentes que adotam, mesmo quando não podem, o comportamento do “playboy”. Essa garotada nada tem a ver com a democracia, tem a ver com seus pais ou seus próprios desvios de caráter. Inclusive, aparecem em todos os lugares, onde há direitos sociais e onde não há. Aqui no Brasil até demorou para aparecer, dado que estamos há quase vinte anos sem nenhum ensino médio funcionando e, portanto, com uma juventude sem qualquer disciplina.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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4 Responses “A democracia é a menos culpada pelos supostos “coitados””

  1. pedro
    22/05/2015 at 08:08

    se ela é a menos culpada, então, o filosofo reconhece que ela tem culpa no cartório também, a verdade é que esse discurso não foge a regra da lógica, tem tudo a ver com a logica do VALOR, não tem novidade nenhuma, fica prezo ao sujeito do sistema produtor de mercadorias e seus dogmas. fica prezo a uma ideologia também. parece coisas daquelas pessoas que querem ter as respostas certa para tudo e para todos. me diga por favor o que tem de novo neste artigo que não seja a repetição de alguns outros. Tantas coisas boas ja foram escritas por aqui. desculpa professor, no momento para mim, essa não dá.

    • ghiraldelli
      22/05/2015 at 09:54

      Pedro! Você leu algum livro meu? Algum artigo filosófico meu? Não! Nenhum. É um leitor de jornal e, portanto, fica sob a crivo dos artigos para jornal e blog, que são sempre, de todo mundo, repetitivos, dado que há gente nova chegando e gente que precisa de ler mais uma vez o mesmo. Aliás, sua reação ao artigo mostra que você é um leitor que precisa de mais uma vez do mesmo.
      NÃO HÁ NADA DE LÓGICA DO VALOR no meu artigo cara! Putz!

  2. Guilherme Gouvêa Picolo
    19/05/2015 at 12:19

    Já dizia Delfim que o Brasil é o país do “ingana”: impostos da Inglaterra, serviços públicos de Gana.

  3. edson melo
    18/05/2015 at 20:22

    Excelente,professor,o ponde esta cada vez mais carola e acefalo

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