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29/05/2017

A democracia de Carlinhos Brown não é a minha


Criticar a democracia é tão pecaminoso quanto “cuspir no prato em que comeu”. Se há um homem ingrato nesse mundo moderno é aquele que põe o dedo no focinho da democracia liberal. Conservadores e progressistas, até mesmo os das extremidades, nem existiriam sem a democracia liberal. Mais que um regime de governo ela tem se tornado quase aquilo que é nos Estados Unidos, o chão social pelo qual o país existe. Todavia, ainda assim, a ingratidão é necessária.

A democracia liberal nasceu segundo a regra da “civilização em mudança”. O filósofo americano John Dewey a celebrava exatamente por essa sua característica: trata-se da organização da vida de um modo que a nova organização da vida possa receber uma mais nova ainda organização da vida e assim sucessivamente. A democracia liberal, para Dewey como para muitos americanos, foi definida exatamente como o modo contrário ao do mundo antigo ou ao do mundo moderno totalitário. Naqueles, a estagnação e o tempo sem tempo são essenciais, nesta, só a alteração se faz real.  Infelizmente, nossa democracia está criando um sistema de meio termo: ela patina, não anda, não muda e não se aperfeiçoa.  Ao menos não no ritmo de nossas aspirações mais básicas e das nossas demandas centrais.

O que emperra nossa democracia liberal é que ela tem sido corroída não pelo nosso passado recente ditatorial, mas pelo nosso passado mais longínquo escravocrata e coronelístico. Acoplamos ao mandonismo antigo, responsável pelo caciquismo político que impede a democracia liberal de ser democrática e eficiente, a influência do poder econômico empresarial, este sim moderno, mas com toda a vontade de ajudar o antigo.

É fácil ver que o poder econômico no Brasil domina pessoas, partidos, governos, instituições de um modo que não é o tolerável. É fácil de ver que esse poder econômico moderno se ajusta bem aos critérios dos grupos que detém o controle político regional reinventando o sistema coronelístico toda vez que este é ameaçado por algum movimento popular.

O Brasil é carente de uma mentalidade capaz de exigir o direito de criar. Apesar da fama de criativo, o brasileiro adora o prato feito, e a criação é, para ele, uma ousadia, quase que um crime. Essa mentalidade é reforçada pela campanha do governo em favor do voto. Nessas campanhas a ideologia da solução pelo voto come solta. É pura ideologia mesmo. A ideia é a de que se você comparece às urnas “você decide o destino da nação”. Mas isso é uma bobagem. A mais tola criança sabe que do prato feito de arroz, feijão e ovo não sai outro alimento que não arroz, feijão e ovo. Não temos mecanismos de troca desses três elementos. E temos menos ainda chance de inventar outras “misturas”. Um organismo que come todo dia o mesmo prato feito é tudo, menos um organismo saudável. Não há tudo que é necessário em arroz, feijão e ovo.

Nos anos vinte e trinta nos Estados Unidos, John Dewey alertou os americanos de que havia entre eles a construção não de um país, mas dois. Um primeiro Estados Unidos era “A América”, o sonho de liberdade dos imigrantes, um outro Estados Unidos era o “conglomerado industrial-militar”, o sonho de poder de uma plutocracia. Em parte, a revolução americana não terminou. Pois essa tensão entre esses dois US ainda está presente, mas nenhum dos lados é o vencedor dessa batalha, ao contrário do que pensam os néscios brasileiros da esquerda e da direita. A cada passo do presidente americano hoje, notamos essa tensão. No Brasil, essa tensão não existe. Vence sempre, a cada passo de qualquer presidente, o regime plutocrático. Não temos tido a chance de quebrar as pernas deste destino. Talvez porque estejamos engolindo facilmente que a democracia é isso que o professor Carlinhos Brown tem ensinado na TV, pago pelo governo.

Nessas eleições há claramente isso: os candidatos com chance de vitória são todos eles herdeiros de um tipo de caciquismo e, por isso, se sentem ungidos. Às vezes falam como se estivessem ungidos. Uns falam que foram escolhidos por Deus, outros dizem que foram escolhidos pela História e outros falavam e falam que foram escolhidos pelos feitos do avô ou coisa parecida. São legítimos por pertencerem aos donos da política. É o que dizem até com orgulho. E o que não dizem, mas que é de nocividade igual, é que estão ungidos, mesmo, pelo compromisso com forças econômicas que vão cobrar até mesmo antes da vitória.

Quem rejeita Carlinhos Brown com sua definição de democracia, e que não quer segui-lo é, talvez, não mais o autoritário de ontem, mas o único lúcido de hoje.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo.

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19 Responses “A democracia de Carlinhos Brown não é a minha”

  1. Guilherme Gouvêa
    20/08/2014 at 13:48

    Duvida que ele se reelege?

    http://www.youtube.com/watch?v=N_PTcGKaZiw

    • 20/08/2014 at 14:45

      Guilherme seu comentário sobre Tiririca é desinformado, elitóide e sem cabeça.

    • Guilherme Gouvêa
      27/08/2014 at 13:55

      Dá desânimo ver professores, escritores, filósofos e intelectuais relegados à marginalidade enquanto o poder é conferido aos menos preparados. Parece uma República às avessas.

    • 27/08/2014 at 14:00

      Gouvêa uma república é isso. Estamos aquém da grande república romana, onde Incitatus foi senador, ainda que, entre nós, Incitatus possa ser presidente.

  2. Antonio Fausto
    20/08/2014 at 11:37

    Poxa, Paulo. O Brown é brasileiro e mandou até um beijo pra você….

    • 20/08/2014 at 11:42

      Pode pegar o beijo dele, afinal, você parece brasileiro também. Pegue a minha parte.

  3. 20/08/2014 at 00:54

    Se temos um passado que reflete hoje a mesmice de que desde o início , a maioria querendo mamar no governo, não só político, sem uma imagem real de novidade dizem que a solução é “saber votar”. Mas adianta alguma coisa? Pois serão as mesmas situações, corrupção, interesses por ocupar grandes cargos e disputar poderes é visto a cada ano, só de uma roupagem diferente. Resultado do passado histórico? Ou já é algo que define o brasileiro, já que em levar vantagem em tudo começa no cotidiano e chega à política. Seria bom ter “consciência” não apenas na hora do voto, mas ver e pensar numa democracia mesmo desprezada e machucada, em comparação ao regimes que foram implatados, ao menos uma mínima consideração de que hoje temos oportunidade de realizar mudanças, sem esses dicursos superficiais, começando a fazer aquilo que está ao nosso alcance. Se o poder emana do povo… esse povo sedentários de novas ideias… o espaço fica livre para essas mesmas pessoas representar e reger dentro da democracia. “Na falta, vai tu mesmo”. Pois onde estaria a solução para pelo menos amenizar nossa problemática? Se é que existe.

  4. Mario Rossoni
    20/08/2014 at 00:45

    Estou aguardando a proposta de solução para o problema.

    • 20/08/2014 at 09:22

      Mário Rossoni todas as pessoas como você aguardam respostas. São as pessoas que não sabem pensar.

  5. Carlos Bengio Neto
    19/08/2014 at 21:49

    É aquela história,” A democracia é a pior forma de governo imaginável, à exceção de todas as outras…” Winston Churchill.

    • 20/08/2014 at 09:23

      Carlos se você quer se conformar, isso é problema seu.

    • LMC
      20/08/2014 at 11:43

      Boa,Carlos!É bom lembrar de
      Churchill.Pelo menos os
      britânicos estão livres de
      ligar a TV e dar de cara com
      o Carlinhos Brown pedindo
      pro povo votar.Já é
      muita coisa.

    • 20/08/2014 at 14:44

      Eles tem coisa pior!

  6. Wagner
    19/08/2014 at 21:20

    Enquanto houver o jeitinho…

  7. Márcio
    19/08/2014 at 17:21

    O Obama não tardou em condenar a violência policial em Fergunson. Enquanto isso, estou esperando até hoje a Dilma, que foi não apenas conivente, mas incentivou e ajudou a produzir a perseguição, a condenar essa nossa polícia horrorosa.

    • LMC
      20/08/2014 at 10:36

      Nada a ver,Márcio.As polícias
      no Brasil são estaduais e
      não federais.A Dilma só
      manda na PF e nas Forças
      Armadas.E isso não vem
      de agora,não.

    • 20/08/2014 at 11:08

      Não e não. O governo federal pode e deve assumir políticas estaduais. Faz isso, no entanto, quando convém eleitoralmente.

    • Márcio
      20/08/2014 at 11:32

      Justamente. Tem isso que o Paulo colocou (e que fiz referência no meu comentário) e, além do mais, no dia da abertura da Copa aqui em SP, precisei correr não apenas da PM lá no metrô Carrão, mas também da Polícia Federal e amigos meus foram revistados na catraca por soldados do Exército – armado de fuzis.

    • 20/08/2014 at 11:43

      Exato

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo