Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

21/08/2017

A democracia brasileira de Luiz Eduardo Soares, de Susana de Castro e a minha


Certa vez perguntei a Richard Rorty sobre se ele não tinha dificuldade em apoiar Clinton, diante da facilidade com que o presidente mentia para os americanos e para as instituições. Era a época do célebre choro do presidente diante nação, quando então admitiu ter mentido sob juramento, ao depor sobre o caso com a estagiária. Dick Rorty foi direto: “Paulo! Os republicanos, todos juntos, não formam uma pessoa humana. São ricaços egoístas que não se interessam nem um pouco pelos americanos”.

Não cabia na cabeça de Rorty não aderir a um lado, mesmo que não fosse o que ele poderia achar o ótimo. Aliás, ele sempre dizia que “o ótimo é o inimigo do bom”. Rorty era um filósofo quase à moda tradicional. Apesar de desvincular política de filosofia, ele não se via como intelectual caso não assumisse seu compromisso com a esquerda democrática. Ser um liberal ironista, como ele se dizia, era poder desafiar ironicamente os fundamentos que a filosofia diz poder colocar para ações e, ao mesmo tempo, manter por razões próprias a defesa daquela política liberal que é a de condenar a humilhação dos fracos pelos fortes.

Seguidor de John Dewey, Rorty fez como o velho filósofo. Dewey não ia com a cara de Roosevelt, mas passou para a história como tendo sido o filósofo aliado deste presidente na questão do New Deal.  Aliás, muitos até achavam que Dewey e Roosevelt atuavam em conjunto! Uma bobagem. Dewey defendeu um novo liberalismo (Neoliberalism, na época) que se aproximava da social democracia europeia, e até foi considerado por muitos como um autêntico socialista – um socialista deweyano, não marxista! Rorty foi um socialista rortiano, não marxista e talvez não deweyano. Rorty era visceralmente anticomunista, como todo bom americano tem de ser, mesmo de esquerda, filiando-se então à velha guarda e não à New Left. Ele nunca endossou – como eu também não – o pensamento simplório da esquerda que segue um Chomsky, principalmente quanto ao que é a América. Nisso ele foi fiel ao ideal de seus pais, socialistas democráticos e, na época deles, trotskistas militantes.

Digo tudo isso para que as pessoas que reclamam do meu amigo rortiano Luiz Eduardo Soares possam levar a sério sua adesão à campanha de Marina. Vale o mesmo para a adesão da minha amiga Susana de Castro à campanha da Dilma (e olha que ela é filha do presidente do partido da Marina!). Esses dois filósofos amigos não estão fazendo nada além do que Rorty aprovaria. O provável desaprovado nesse caso todo seria eu mesmo. Será? Não sei.

Faz tempo que não me engajo mais em política partidária. A filosofia parece não me deixar fazer isso, a despeito de meus amores por Rorty e a despeito de eu saber que Susana e Luiz Eduardo podem muito bem dizer que também estão certos. Mas, atualmente, se assim faço, descartando os candidatos todos, é porque creio que minhas energias devem estar voltadas, nesse quesito, para a crítica radical de nossa democracia. Creio que já passou do tempo de começarmos isso, o de mostrar que nossa democracia liberal democrática está enredada no caciquismo e submetida ao poder econômico de um modo muito mais drástico do que o aceitável. É necessária uma democracia liberal menos envolta com isso tudo. Qualquer palavra minha a favor de um partido ou candidato, no momento, colocaria minhas energias já em uma situação defensiva. Ora, ficar na defensiva, para quem tem o projeto filosófico que eu tenho, a essa altura do campeonato, seria péssimo! Tenho de ter energias para ir ao ataque. Quero poder pensar livremente sobre como tornar a vida melhor, para além dos cânones postos.

Todavia, se Luiz Eduardo Soares está na campanha da Marina, não pensem vocês que é pelos antigos longos cachos dela. Meu amigo rortiano só se movimenta racionalmente e, portanto, a partir do balanço de informações. Ele pesou os prós e contras e decidiu que com Marina há de se ter uma canal, ainda que talvez indireto, de sairmos dessa situação de democracia capenga em que vivemos. Não creio que seja por esse motivo que minha amiga também rortiana, Susana de Castro, esteja na campanha de Dilma. Ela deve estar se movimentando por uma racionalidade diferente da de Soares: penso que os economistas liberais que sentam junto com Marina e mais os amores que esta causa em certos evangélicos faz Susana cair para o colo do PT.  Em ambos os casos, são votos mais que justificados. E eu, que um dia já cheguei a votar no Quércia para não deixar Maluf ou Antônio Ermírio entrarem no governo de São Paulo, devo ser o primeiro a compreender os votos desses meus amigos engajados.

Mas, insisto, na minha condição e para os meus objetivos, tomar uma posição por qualquer candidato, hoje, seria trair minha disposição de espírito. Minha função de filósofo nos dias de hoje é o de ser crítico dos projetos de poder que, do modo que eu os enxergo, estão muito mais interessados em manter nossa democracia como está do que mudá-la para que ela se torne um pouco mais americana, mais democrática. Aliás, talvez nem seja assim que eu deva colocar a questão. Tenho de ser maximamente sincero: não creio que a mudança será feita por Dilma ou Marina porque essa minha mudança é uma questão antes cultural, de comportamento, que uma mudança que possa ser resolvida por uma “reforma política”, como Lula e outros acham que é possível.

Ora, se é uma mudança que implica em uma alteração do ethos nacional, então mais ainda eu a vejo como uma tarefa na qual devo estar engajado. Pois mudanças desse tipo envolvem guerras morais longas, de várias vidas, para que algum fruto apareça. O engajamento nisso é o engajamento do filósofo, como eu delineio essa figura que encarno. Foi isso que Platão fez ao dar combate ao projeto popular dos rapsodos, de um lado, e ao projeto renovador e democrático, de outro. Platão colocou um modo de pensar filosófico na jogada, como uma cunha – ele queria ver os atenienses com agindo segundo uma outra mentalidade. Queria espaço para uma Paideia antes filosófica que só sofística e mitológica.

Bem, estaria eu então traindo Rorty, e fazendo isso justamente me inspirando em seu inimigo, Platão? Ora, mas também Rorty, ao final da vida, começou uma guerra desse tipo, platônica. Não havia ainda no horizonte a possibilidade de Obama, e Rorty faleceu completa e radicalmente contrário a tudo que os Estados Unidos estavam fazendo em política, seduzidos por Bush. Nos últimos anos de vida, passou para o discurso radical de quem estava engajado em não ver mais os americanos querendo combater terrorismo por meio de restrições democráticas internas e invasões tresloucadas no exterior. Rorty estava se pondo, na época, como quem não iria aceitar a continuidade do funcionamento da prisão de Guantanamo Bay de modo algum, mesmo que como um fracasso de campanha de um Obama, a quem ele certamente apoiaria.

Não escolher candidatos, no meu caso, e escolher uma via de busca de engajamento em um longo processo de mudança de mentalidade. Não tenho energia para este projeto junto com outros.

Paulo Ghiraldelli

Tags: , , , , , ,

8 Responses “A democracia brasileira de Luiz Eduardo Soares, de Susana de Castro e a minha”

  1. Wagner
    10/09/2014 at 18:26

    A revolta me parece mais turva que clara…

  2. Nelson
    10/09/2014 at 12:58

    Susana não conheço, mas consigo ver os caminhos pelos quais Luiz Eduardo mira seu voto. Acho incrível a militância dele no projeto de desmilitarização da PM, mas mesmo com a campanha dele ainda não consigo votar com leveza, nem em Marina, nem em Dilma. Me sobrou Eduardo, o médico sanitarista que anda de bicicleta e detém menos de 1% nas pesquisas. Mesmo assim, não concordo com o posicionamento em relação ao aborto e alguns outros detalhes. Estou pensando em pagar cincão esse ano, novamente.

    • 10/09/2014 at 20:12

      Nelson, Susana de Castro é filósofa da UFRJ e filha do Roberto Amaral.

    • LMC
      12/09/2014 at 10:03

      Nelson,tem dois candidatos
      que são contra o aborto,o
      Eymael e o Pastor
      Everaldo.Conservadores,
      pra variar.

  3. Robson de Moura
    10/09/2014 at 12:47

    “Essa minha mudança é uma questão antes cultural, de comportamento” e “mudanças desse tipo envolvem guerras morais longas, de várias vidas, para que algum fruto apareça”. Belo projeto. Bons artistas, do tipo que trabalham a semântica das coisas, também podem pôr-se essa tarefa. São os que mais admiro.

  4. Wagner
    09/09/2014 at 21:20

    Paulo, tenho escutado frequentemente várias confissões de voto em branco ou nulo pelos lugares em que passo. Porém, as justificativas de tal mentalidade sequer raspam a firmeza de suas considerações. São pessoas jovens e já “cansadas”, desiludidas de um modo que me parece apressado. Há algo errado, não?

    • 09/09/2014 at 23:44

      Wagner, quem vota num candidato não tem mais clareza do que quem vota em branco.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *