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29/05/2017

A igrejinha da Democracia


Pela primeira vez em nossa história a democracia liberal está se mostrando fraca, incapaz de nos satisfazer minimamente, sem que isso envolva qualquer tendência dissidente do tipo das que ocorreram no pré-II Guerra Mundial, com o nazi-fascismo de um lado e o comunismo de outro, ou ramificações dessas duas correntes. O mundo inteiro está vivendo isso. Todos os países democrático-liberais estão mostrando um estranhamento enfado diante de si mesmos. A população olha as pesquisas de intenção de voto, produzidas por elas mesmas, e reclamam: “não vai dar certo!”. “Trump versus Clinton” teve esse sabor, antes e depois; o mesmo vivem os países da Europa e Ásia. No Brasil uma tal situação agora está estampada mais que nunca.

Até poucos dias atrás, Michel Temer era um presidente fraco, hoje é um presidente que ninguém mais quer. Dilmou, dizem. Faz parte agora do rol dos denunciados por corrupção, e que ainda por cima não administram nada. O Brasil parece querer eleições logo, se possível hoje. Mas, o Brasil se espanta com o que o Brasil pode escolher: Marina, Lula e Aécio? Meu Deus! Os brasileiros assinalam esses nomes e depois eles mesmos (às vezes até os mesmos indivíduos) dizem: “mas nós vamos ter que engolir isso?”. E quando dizemos “isso”, queremos falar o que, afinal? Exatamente: Marina, a songa monga; Lula, o chefe da máfia: Aécio, o mais do mesmo …pó. Não dá! Não há quem não sinta que nossa democracia liberal jovem e não aperfeiçoada está nos pregando uma peça que tem a ver com a peça pregada aos americanos pela infalível, virtuosa e experiente democracia americana. A democracia como a montamos no Ocidente, chegou ao fim. Ela se transformou em uma plutocracia que se alterna com democracia nas horas vagas. Tornou-se uma camisa de força à medida em que foi santificada. Como toda e qualquer crítica à democracia é tomada por professores de história medíocres como sendo pecado, nossa imaginação política estagnou e, agora, estamos nessa situação: somos obrigados a cultuar um deus que não tem mais nenhum poder divino.

Passamos anos calando os críticos da democracia liberal, no sentido de apagar de vez o comunismo e os fascismos, vimos até a social democracia entrar em crise e sentimos o neoliberalismo nos atraiçoar. Agora, estamos nessa situação: por não pensarmos sem auto-censura, não geramos nada que não seja isso: mais do mesmo, sendo que o mesmo é um lixo. Estamos enjaulados por um sistema partidário montado por coronéis, todos corruptos ou prontos para se tornarem corruptos ou simplesmente ineficientes, e nós mesmos nos espantamos com as pesquisas que aparecem sobre nossos gostos – pois declaramos voto nesses bandidos abestalhados ou nesses abestalhados bandidos, que nós mesmos queremos botar para fora.

Essa nossa situação é fruto de nossa teimosia em desobedecer Max Weber. Quando ele esteve na América investigando as universidades, para compará-las com as da Alemanha, teorizou sobre o ensino superior e decretou um mandamento: a universidade é o respiradouro da sociedade burguesa. O que ele quis dizer? Simples: a universidade é o lugar em que a sociedade burguesa moderna, mesmo sendo a “jaula de ferro”,  tem a sua abertura para pensar tudo aquilo que é o pecado para a sociedade burguesa. Mas o que ocorreu nesses últimos anos foi que a liberdade da universidade medieval ou aristocrática, em relação à sociedade, se perdeu. Cada vez mais a universidade deixou de ser um autêntico lugar do pensamento livre e de blasfêmias para ser, no máximo, e ainda assim somente em alguns lugares, o canto do pensamento talvez crítico. Ela foi povoada por professores comunistas, liberais e fascistas, sendo esses últimos fingidos, e deu no que deu: já há tempos não consegue pensar nada senão a conversinha ridícula de “aperfeiçoamento da democracia”, ou por inclinações social-democratas ou por inclinações neoliberais, ou então por maluquinhos que querem promover golpinhos bolcheviques e coisas do tipo. O sintoma mais horrível disso é mostrado pela exigência social em cima dos professores e filósofos, de modo que eles tenham posições políticas a priori, antes das coisas acontecerem. Os medíocres do mundo exigem que o filósofo seja de esquerda ou de direita, e os professores medíocres cumprem isso. Pode-se pensar diferente, sim, desde que o diferente já esteja catalogado.

Peter Sloterdijk pensou a economia e antropologia fora do padrão da Internacional Miserabilista, que diz que o homem é inerentemente pobre e tudo que podemos fazer em economia é economizar – funciona aí o dogma de que o princípio humano racional e, portanto, o único legítimo, é o da auto-preservação. Nesse sentido, o imposto estatal é natural,  e isso para comunistas, fascistas e liberais, ou é um roubo, para neoliberais, e por isso mesmo não pode haver uma sociedade timótica (e não erótica) que cultive o orgulho do fisco voluntário, o “dinheiro inteligente” que vai para os lugares que criamos e queremos preservar. A universidade oficial empurrou Sloterdijk para fora, como já havia feito com Rorty e, antes, com Nietzsche. O professorzinho de história democratinha e medíocre grita: “existe o instinto de auto-conservação, e o homem é o lobinho do homem, e então é racional quem respeita o tal instinto e quem faz leis para que o lobinho não ataque o outro lobinho. Quem pensa fora disso, não pode ficar. O resultado é este aí: não podemos pensar, criar, e agora não temos ideias. Cumprimos o ritual: nada além de irmos para a urna eleger nossos algozes.

É necessário pensar em coisas realmente diferentes. Muito diferentes. É necessário pensar em coisas que estejam além da  descoberta de que o tiranossauro rex tinha penas.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo: 12/12/2016

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9 Responses “A igrejinha da Democracia”

  1. Alexandre
    22/12/2016 at 00:07

    O tema da minha monografia está relacionado a este assunto, eu iria tratar do tema do livre-arbítrio, mas acabei decidindo por este tema, aparentemente mais simples.
    Fugindo do assunto… Você já leu Jorge Amado?

    • 22/12/2016 at 02:06

      Alex, li Jorge Amado no ensino médio. Por volta de 1973.

  2. Anderson Luiz da Silva
    15/12/2016 at 12:12

    E então professor, estamos esperando aquela reflexão sua sobre a foto Moro e Aécio…….rssss. Imperialismo e banditismo do Lula foi fantástico….. mas, e o resto?

    • 15/12/2016 at 14:21

      Nossa Anderson, vai me dizer que você não viu o Aécio na mesma pose com centenas, igualzinho. Não viu?

  3. Anderson Luiz da Silva
    14/12/2016 at 16:55

    Hum…..será que nas horas vagas há democracia mesmo? Não seria a democracia, aqui no Brasil, uma palavra sem significado? Que tal Odebrechtcracia? Ou fiespcracia? rsss

    abraço

  4. Alexandre Vivacqua
    13/12/2016 at 19:57

    Abriu-se uma brecha nessa crise da democracia – o fim de uma era política, a desse dueto desafinado, democracia e representatividade. Eles se esgotaram. E várias outras dualidades, democracia e Estado de Direito, democracia e qualquer coisa. A democracia não está mais dando conta de agenciar nada, a não ser a lambança do mesmo, os ganhos dos velhos caciques e seus aliados, mudando apenas os atores.

    Há, sim, um cansaço social não dito, envergonhado de dizê-lo e sufocado por não ver uma alternativa ao que está aí. Há também a o oportunismo da cantilena do aperfeiçoamento da democracia que acaba desviando o questionamento daquilo mesmo que deve ser aperfeiçoado. Vemos, então, pessoas com força midiática como Karnal, Cortella, Pondé – amigos para sempre do establishment – (e similares) resolverem isso pela beatificação da democracia. Como diz minha amiga Maria, um saquinho por favor.
    Mais uma luta pela frente, e ela importa pela sua radicalidade – começar a romper com a democracia como dogma.

    representatividade. Eles se esgotaram. E várias outras dualidades, democracia e Estado de Direito, democracia e qualquer coisa. A democracia não está mais dando conta de agenciar nada, a não ser a lambança do mesmo: os ganhos dos velhos caciques e seus aliados, mudando apenas os atores.

    Há, sim, um cansaço social não dito, envergonhado de dizê-lo e sufocado por não ver uma alternativa ao que está aí. Há também a o oportunismo da cantilena do aperfeiçoamento da democracia que acaba desviando o questionamento daquilo mesmo que deve ser aperfeiçoado. Vemos, então, pessoas com força midiática como Karnal, Cortella, Pondé – amigos para sempre do establishment – (e similares) resolverem isso pela beatificação da democracia. Como diz minha amiga Maria Canedo, um saquinho por favor.

    • Alexandre Vivacqua
      13/12/2016 at 20:00

      Como escrevo direto, esqueci de apagar os dois último parágrafos que estão repetidos.

  5. Maximiliano Paim
    13/12/2016 at 06:59

    Álvaro Dias, do PV, será candidato também.

  6. LMC
    12/12/2016 at 17:15

    E as opções sem Temer?O FHC-de
    novo?-e o Nelson Jobim,um
    tecnocrata que é de um Estado
    falido,o Rio Grande do Sul e
    amigo do Lula e do Serra.Help!!!!!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo