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17/12/2017

A democracia como o inferno da salvação


Minha amiga Susana de Castro diz que a oposição está montando um circo para “depor um governo eleito”. Nesse circo está Hélio Bicudo. E na oposição, hoje, estão diversos homens da esquerda com passado e presente honrados (Luiz Eduardo Soares à frente). 

Penso que a filósofa Susana de Castro, minha amiga mesmo, do peito, às vezes tem uma recaída como, aliás, todos nós (eu me incluo nisso). O cidadão que há em nós às vezes atropela o filósofo. Esquecemos do que é o cerne essencial da democracia: o fogo alheio.

É estranho que um governo eleito não possa passar pela figura legal do Impeachment. Collor passou e o Brasil não desapareceu. Ao contrário! (e Nixon, destruiu a América?). A falta de tradição democrática nos faz criminalizar a oposição, hoje, do mesmo modo que esta criminaliza movimentos sociais libertários. É um falta completa de americanismo de nossa parte. Não conseguimos viver a democracia.

Que a gente sinta nojo do Roda Viva da TV Cultura, da Veja e de colunistas por aí que vomitam esterco pela direita mais reacionário e tosca, isso não faz as falas da oposição erradas. Se a todo momento não pudermos ouvir as falas, e só ver os emissores, entramos por um túnel escuro que é a falta de … dialética! A democracia é um regime que pressupõe que Deus pode nos abençoar, mas não pode vir julgar enunciados da política, para dizer onde está a verdade. Nesse âmbito, não há Deus para julgar, a verdade aparece pelo embate entre enunciados da situação e da oposição. Se não há oposição para mostrar que o PT rouba, o PT iria, por ele mesmo, avisar que rouba? Deus iria avisar? Ou o partido único, com sua “autocrítica”, resolveria tudo?

Susana tem se esquecido de um lema nosso, de Richard Rorty, “cuidemos da liberdade e deixemos a verdade cuidar de si mesma”. É exatamente isso. Se a oposição não pode usar do aparato legal do Impeachment, que pressupõe avaliações, julgamentos, provas e votos, e isso é a liberdade, como queremos achar que a verdade pode cuidar de si e aparecer? Pelo raio em céu azul de uma divindade?

A democracia é o regime do abandono. Deus nos abandonou, ao menos no âmbito político. E nós mesmos nos abandonamos. Então, nosso inferno são os outros. Eles são nosso inferno que nos salva ao nos condenar. Muitas vezes. É assim que a democracia funciona.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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2 Responses “A democracia como o inferno da salvação”

  1. Idália
    30/09/2015 at 13:55

    Fantástico! Obrigada Mestre!

  2. Alexandre Aleixo
    29/09/2015 at 19:47

    Esse foi decisivamente o melhor texto que li aqui.

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