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23/03/2017

Delfim acerta mais que os jovens


Em um país em que os jovens parecem ter se tornado conservadores, então os mais velhos devem se recriar em favor do progressismo. Ao menos em parte, é isso que vivemos hoje no Brasil.

Delfim Neto foi ministro na Ditadura Militar. Hoje, não é só um homem do parlamento, mas agora diz que não é o mercado que deve comandar a democracia, mas o inverso. Delfim Neto se diz agora um liberal, muito além da economia.

Acredito que realmente Delfim Neto tenha mudado. Talvez ele diga que não, que cumpriu como ministro apenas funções técnicas, que nada tinham a ver com o comando político autoritário do país, e que sempre pensou como pensa hoje. Isso importa menos agora. O que é importa mesmo é que o discurso de Delfim Neto, hoje, não é nada inútil. Ele está agindo de modo mais sábio que muitos outros que não estudaram o que ele estudou e cujo conservadorismo denota estupidez apenas.

Claro que sua crítica, não diferente da Michel Sandel, não é nova. Todo o debate entre comunitaristas e liberais sempre teve como núcleo esse ponto, o da reforma do liberalismo, tornando-o uma força não mais tímida.

Mas o que seria, então, um liberalismo não-tímido?

Em um artigo de 1989, que agora temos em livro e em português (Política e paixão. São Paulo: Martins Fontes, 2008), Michael Walzer lembra que o liberalismo, no que tem de bom, e no que ao mesmo tempo abre brechas para a crítica comunitarista, apresenta quatro tipos de mobilidade: a geográfica, a social, a conjugal e a política. Walzer comenta sobre o quanto as quatro são vigentes nos Estados Unidos. Nós aqui, no Brasil, podemos afirmar que se elas não seguem o mesmo ritmo e padrão, nos últimos anos buscam se aproximar do que ocorre nos Estados Unidos. As pessoas mudam mais de lugares que no passado; as pessoas têm mudado o padrão social de vida, se comparadas com seus pais; elas tem se casado e descasado de modo mais frequente que no passado; e, enfim, elas têm alterado suas filiações a líderes de modo mais rápido que seus pais. Ora, poucos de nós gostariam de viver em uma sociedade em que tivéssemos de mobilizar o estado para conter essas mobilidades. Essas mobilidades têm popularidade entre nós, ainda que aqui e acolá possamos reclamar de algumas de suas consequências.

Ora, se raciocinarmos bem sobre tudo isso, havemos de compreender que Delfim Neto está correto quando diz que se o mercado for o carro chefe da sociedade, e não a democracia, as coisas não irão bem. Pois todas essas mobilidades do liberalismo possuem fluxo corrente pelo vínculo deste à democracia, e não ao mercado, ainda que sem o mercado nada disso seja pensável.

O centro desse recado de Delfim, que me parece extremamente sábio, que diz que o mercado não deve ser regrado pelo estado, como muitos acreditam, embora deva ser controlado pela democracia, é a chave das coisas. Muita gente na esquerda e na direita não consegue entender isso. Não olham para as mobilidades que citei, mas apenas para o desregramento do mercado. A busca de controle nunca é imaginada senão por meio do que seria a única força efetivamente forte contra o mercado, o estado.  Ora, mas quando é assim, quando não é a democracia que comanda, e sim o estado, as mobilidades citadas são engessadas e a própria sociedade não vê por onde respirar.

Entre o estado e a democracia, o mercado é melhor controlado pela segunda que pelo primeiro, quando se trata de manter o que gostamos no liberalismo.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

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15 Responses “Delfim acerta mais que os jovens”

  1. MARCELO CIOTI
    05/05/2014 at 13:39

    O Delfim é um daqueles sujeitos
    que juram de pés juntos que,se não
    fosse a “Revolução” de 64,o Brasil
    viraria uma URSS,que Jango
    era populista e mulherengo e
    que Montoro quando governou
    SP,entregou o Estado aos
    bandidos.Tem gente que
    repete o que ele diz por aí.

    • 05/05/2014 at 19:00

      Marcelo, isso dito pelo Delfim é irrelevante. Por que ele diz mais coisa que isso. Aprenda isso.

  2. augusto
    05/05/2014 at 08:41

    como diz Robert Kurz, a politica, a democracia, o direito, o estado, e outras mais categorias do sistema patriarcal produtor de mercadorias estão a serviço do mercado. portanto, esta análise do Delfim junto a afirmação do Paulo está totalmente equivocada. quem manda mesmo é o mercado. já se fala até que o mercado está nervoso. nervosismo é uma condição do ser humano, espero que que o nervosismo passe. espero que um dia possamos superar este sistema. seremos capazes de conseguirmos esta vitória? acredito que para isso acontecer depende de muitas coisas…

    • 05/05/2014 at 10:07

      Kurz? “Sistema”? Putz! Sem comentários.

    • Augusto
      13/05/2014 at 12:50

      Será que o Paulo quer ser o dono da verdade? deixa claro sua arrogância, ele se coloca como Icone, é um espetáculo superintegrtallizado, ele menospreza as pessoas, acredito que mais cedo ou mais tarde ele vai ter que engolir o Kurz.

    • 13/05/2014 at 13:21

      Augusto, tenho um pouco de dó quando escrevo um artigo simples, sem pretensão, e alguém como você, mais ou menos escolarizado talvez, não entende. Leia de novo. Leia cinco vezes. Depois pode fazer uma redação e entregar. Por enquanto, ainda não deu.

  3. Cesar Marques - RJ
    02/05/2014 at 23:32

    A pergunta é: Como controlar o Mercado via Democracia, que não seja através do Estado?

    • 03/05/2014 at 01:52

      Cesar, não sei se o mercado deve ser “controlado”. E é claro que nenhuma democracia no mundo tem o estado para controlar coisas como única opção. Caso fosse assim, todas as democracias seriam ditaduras. No ensino médio, você não se lembra de ter estudado a vida de outros países, outras formações, das diferentes formações de democracias? E no ensino superior, nunca viu qualquer coisa sobre o debate entre comunitaristas e liberais? Aqui mesmo nesse blog, não viu o artigo meu sobre Paul Singer e Sloterdijk? Além disso tudo, pode pensar pela sua própria cabeça também.

    • Cesar Marques - RJ
      03/05/2014 at 02:44

      Acho que não me expressei bem, professor Ghiraldelli. O que eu quis dizer é que a vontade democrática de uma nação (dos seus vários setores) se materializa via Estado. Quando vamos a Justiça pleitear alguma demanda, quando grupos da Sociedade Civil pressionam o Legislativo (para conseguir uma lei, ou revogar uma já existente), quando o CADE fiscaliza fusões de megacorporações, quando se melhora a Educação de um povo via escolas públicas, etc… Quanto a controlar o Mercado, eu quis dizer regulamentá-lo. Afinal, a tendência no Capitalismo é que alguns grupos acumulem poder e recursos a ponto de criar monopólios e/ou oligopólios, o que poria em xeque a dinâmica do Mercado e a própria Democracia em si .

      Atualmente, não conheço nenhuma grande Democracia, socialmente desenvolvida, que não tenha um aparelho estatal robusto e atuante. Claro, tais exemplos funcionam com sistemas democráticos sólidos e saudáveis.

      Enfim, obrigado pelos esclarecimentos, professor.

      Abraços.

    • 03/05/2014 at 04:18

      Cesar, mantenho o que escrevi. Agora mais ainda. É gozado como essa estatolatria se forma de modo tão fácil na cabeça das pessoas. Acho que seu modo de considerar o que existe na sociedade está meio que viciado pelo que lê a ponto de você não ver que há muito mais coisa no mundo que esses elementos que cita. Os lugares em que o estado controla a economia ou o mercado há fascismo ou comunismo, não há democracia. Acho que você confunde alguns elementos que o estado apresenta em alguns países como fortes e então qualifica o estado como super poderoso e, mais errado ainda, como a única força com real poder. Nenhuma democracia funciona com um estado que dita regras para ela, nem mesmo a democracia israelense.

  4. Guilherme Gouvêa
    01/05/2014 at 14:03

    O mercado subjugado aos interesses do Estado resulta na concentração do poder econômico nas mãos de um classe burocrática (os altos funcionários, conhecidos como “amigos do rei”, acostumados a criar a dificuldade para vender a facilidade);
    o Estado subjugado aos interesses do Mercado resulta apenas numa espécie de jagunço a proteger os interesses dos abastados, garantindo a perpetuação da desigualdade e da injustiça social.
    O Brasil atualmente está em algum lugar no limbo entre os dois extremos: em alguns setores, vive a primeira realidade (caso da Petrobrás, por exemplo), em outros, a segunda (regulação do sistema bancário).
    A ideia exposta é bem interessante, embora, creio eu, demande maior nível de participação popular (hj marginal) e maturidade do cidadão, aprendendo a diferenciar as teses das pessoas que as defendem.

    • 01/05/2014 at 19:19

      Guilherme, nossa democracia até que já fez muito, se considerarmos sua idade e condições.

  5. Valmi Pessanha Pacheco
    01/05/2014 at 11:29

    Prezado Professor GUIRALDELLI;
    Parabéns pela excelência do seu “paper”, sobretudo pelo parágrafo: “O centro desse recado de Delfim…”
    Recordei-me de dois grandes pensadores (escusas pelas citações):
    Keynes: quando questionado sobre possível incoerência de propostas antes recomendadas:”quando as circunstâncias mudam, eu mudo. E o senhor!”.
    Nietzsche: “o maior inimigo da verdade não é a mentira, é a convicção.”
    Abraços.
    Valmi Pessanha.

    • 01/05/2014 at 19:20

      Valmi, obrigado por ler. Não chega a ser um paper. Mas é um artigo de lembrança.

  6. Mario Luis
    30/04/2014 at 22:50

    Em que pese o Ex-Ministro citado ter vivenciado sob sua gestão uma das piores crises econômicas mundiais ( a crise do petróleo e os petrodólares), o processo de globalização e o capital volátil ainda não mostrava suas garras da mesma forma em que, com o decréscimo do desenvolvimento da indústria em favor das aplicações do mercado financeiro forçou a intervenção do Estado para evitar a dolarização da economia e manter o câmbio flutuante. O Estado interveio sempre em meio às crises para conter a avidez liberalista ( vide a crise de 1929 – crack da bolsa de NY) que prevê – antes de mais nada – o Estado mínimo. Por outro lado, somente passando à gestão da iniciativa privada pode o país, mediante o processo de privatização, durante a década de noventa, expandir o mercado para que enfim houvesse crescimento econômico nos patamares mínimos ditados pelos indicadores internacionais. Hoje vivemos problema mais grave: A dicotomia criada entre o crescimento econômico e a sustentabilidade. Não creio que sem o papel do Estado alcançaremos a utópica política do crescimento zero e a adoção de políticas capazes de evitar o Crash ambiental iminente.
    Sandel nos acena por um viés teleológico na sociedade, cujo caráter comunitarista nos exorta à reflexão do caminho de tomamos em razão do consumismo desenfreado e do mercado descompromissado com a realidade atual. Democracia sem democratas, este é o problema do Estado.

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Filósofo