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14/12/2017

Deleuze e Rorty


Não ponham Rorty e Deleuze em divergências filosóficas inexistentes!

Richard Rorty é o filósofo que disse que o erro da filosofia foi criar o conceito de conceito. Deleuze é o filósofo que diz que o trabalho da filosofia é o da criação de conceitos. Não falta entre nós o desavisado que pensa então que o americano e o francês estão em frontal oposição. Não estão.

Não podemos comparar filósofos a partir de frases soltas. Esta é uma verdade óbvia que às vezes, infelizmente, não é respeitada nem por professores de filosofia.

Rorty não está contra o conceituar, caso contrário ele não diria que o conceito de conceito é um erro. Rorty está se referindo aí ao caminho que o conceito tomou na filosofia, tendo sua pré-história nas Formas platônicas para se apegar, logo depois, aos universais neoplatonistas, o que desembocou na disputa, no campo da linguagem, entre neoplatonistas e aristotélicos. Essa disputa ficou eternizada para fora do campo filosófico no quadro renascentista, o de Rafael, a Escola de Atenas. Aristóteles estaria avisando Platão de que o mundo terreno contém os elementos que, uma vez pensados por nós, gerariam não um reino ontológico, mas uma linguagem com universais que são, enfim, os conceitos. Ora, uma vez convidado para posar para o quadro, Rorty se vestiria estrategicamente de Aristóteles, claro, como bom nominalista. É nesse sentido que Rorty não vê utilidade no conceito de conceito, ou seja, no conceito enquanto um universal que se põe como o que mais importa por conta de sua imutabilidade e perenidade, diante das singularidades e particularidades, que são contingentes. Rorty é o filósofo da contingência, ou seja, diante do neoplatonismo, o não-filósofo.

Ora, mas diante do neoplatônico, que é o admirador do conceito de conceito, Deleuze seria homenageado? Não! Porque Deleuze é o filósofo da expressão, não do conceito se tomarmos o conceito no sentido de uma estrutura. Quando fala em conceitos como função da filosofia, fala de criação, não de conceitos como formas que conformam o dado, ou o dado que se apresenta bruto. Deleuze é, como Rorty, um admirador de Hume, do empirismo britânico, e não se indisporia com o herói de Rorty, John Dewey, como de fato não se indispôs com William James. A noção de experiência em Deleuze, que substitui o dado, tem seus pontos de acordo com a noção de experiência de Dewey, que é algo do âmbito do privilégio antes de relações que de substâncias que se relacionam. Afinal, Dewey foi um cosmólogo relacional, não um metafísico substancialista.

Deleuze é o filósofo do conceito de expressão. A expressividade pensada por Deleuze ajuda o entendimento do que ele pensa sobre a tarefa conceitual da filosofia.

A expressão é conceituada em oposição à estrutura. Um exemplo. Tenho uma palavra que não é mera palavra uma vez tomada como um significado privilegiado, segundo o qual leio um texto. Tal significado é o fio de articulação da leitura do texto. Ele governa o texto. O texto então, na minha leitura, se estrutura de modo que suas palavras e frases se dispõem em ligação hierárquica a partir do tal significado. Terminada a leitura o que há então é um texto que mostra que está estruturado, que dispõe relações internas finitas. Bem, mas posso fazer diferente. Posso tomar esse texto como expressivo, não como uma estrutura, e notar palavras que têm potenciais de relações, todos estes a serem desenvolvidos no desdobramento da minha leitura. E isso não como interpretação minha, mas como expressividade do próprio texto. O texto é expressão. Nessa hora, o conceito surge aí para caminhar no sentido de agarrar esses desdobramentos possíveis, e assim o texto emerge para mim como uma expressão, e não mais como uma estrutura que teria dado um fim aos desdobramentos vários possíveis. Desse modo é que em Deleuze o conceito não é estrutura e sim expressão.

Ora, mas isso, dito por Deleuze ao apontar para a expressão, é o que Rorty diz quandoplatão deleuze rorty fala que prefere ver em textos palavras que ganham sentido a partir de jogos de linguagem, ou então, vocabulários mutáveis historicamente. Rorty fala na atividade metafórica como o que se literaliza e, então, amplia o espaço lógico de entendimento ao ampliar os vocabulários – mais expressões ganharão valor de verdade porque ganharam sentido. Antes palavras ou noções que conceitos, diria Rorty. Mas aí, o conceito a que ele está se referindo está mais para a estrutura de Deleuze que ao conceito, porque este, em Deleuze, está mais para a expressão. A expressão deleuziana é, de certo modo, como Rorty vê o desenvolvimento da linguagem. A linguagem toda ela nada é, para Rorty, senão uma continua expressividade que se faz a partir de metáforas que se tornam literais.

Deleuze vê o conceito de expressão como invocando um estilo ou possibilidade de pensamento. Rorty vê a metáfora se literalizando e criando a própria linguagem como desempenhando uma tal tarefa. Se o filósofo quiser, junto de outros, criar metáforas, tanto melhor. Se elas “pegarem”, ou seja, se literalizarem, talvez se tenha aí dado vazão ao que Deleuze diz que é a expressão se fazendo ou, então, a atividade criadora de conceitos.

Em ambos os casos, não é só o neoplatonismo que é combatido, mas também o aristotelismo, uma vez que Rorty e Deleuze são os que privilegiam antes relações que substâncias. E nisso, estão em comum acordo com outro filósofo contemporâneo, mais jovem, Peter Sloterdijk.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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