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25/07/2017

Dedo no rabo é dedo no rabo? Novamente “Macaquinhos”!


Uma das tarefas mais inglórias é explicar o que é a cultura para pessoas incultas. A cultura é fundamentalmente produção, reprodução e troca de símbolos. É o que o animal não faz e o que animal que Platão chamou de bípede-sem-penas faz. Uma mão estendida pode ser a de alguém querendo saber se está chovendo ou se o sol está quente ou então cumprimentar César ou saldar Hitler. É tão simples isso. No último caso, um gesto proibido na Alemanha. Mas o inculto, mesmo imerso na cultura e dotado da capacidade simbólica, não consegue compreende-la. É capaz até de fazer um vídeo e escrever, usar mesmo da simbologia, e não entende-la. 

Existe no corpo um orifício chamado ânus. Colocar o dedo nele é o que? Dizemos: “enfiou o dedo no ânus” ou “colocou o dedo no rabo” ou “tá com o dedo no cu”. Mas sabemos que podemos dizer mais? Sabemos. Pode dizer o que? Eis aí o teatro, o exercício de trazer o simbólico para o campo da indagação. E para o morro da indignação. O que esses moços e moças estão fazendo ao agirem como … como… macaquinhos?! Mas não seriam elefantinhos? Ou nojentos curiosos? Querem re-apresentar macacos ou querem representar humanos que são macacos? Ou querem gozar com o dedo no cu diante de uma plateia? Ou querem gozar a plateia? Mas gozar em movimento, correndo, numa performance? Acho que não! Mas e se a simbologia não é nada disso, nem tem algo determinado, apenas a ideia eterna da metafísica ocidental a respeito do “dentro” e do “fora”? E se a peça é simplesmente sem simbologia com endereço, e sim uma simbologia cujo objetivo é provocar todas essas perguntas e mais algumas?

Macaquinhos – arte milenar do teatro inicial, o da pantomima. O inculto sabe disso? Algum dia foi para a escola e viu uma pantomima? Ah, mas talvez não tenha ido à escola. Ou passou por uma escola sem estar nela.

Diante dessas questões o inculto reage ainda mais raivoso: “seu intelectual de merda, não venha com essa conversinha, é uma pouca-vergonha aquilo etc. etc. etc.” Do lado de cá olhamos e pensamos: se o Brasil tivesse uma escola básica que pagasse bem o professor, será que diminuiríamos a quantidade desse tipo de gente?  Será que conseguiríamos deixar como energúmenos apenas os 30% esperados numa sociedade comum?

A experiência dos outros países mostra que sim, que povos altamente conservadores quanto ao uso do corpo, uma vez crivados pela educação ocidental vinda do que se formou com o Iluminismo e o Humanismo (mesmo em crise) adquiriram grande capacidade de entendimento da função simbólica. Ou seja, produz gente capaz de compreender que brincar com a cultura é fazer a função simbólica dançar. Metáforas, metonímias, sinédoques … Todos nós que passamos pela escola pública básica dos anos 50 e 60 tínhamos isso tudo como corriqueiro. Teatro era algo normal para nós. Pudico e igrejeiros e, assim mesmo, entendíamos o nu nas peças. Claro que ficávamos como menininhas de 12 anos, rindo à toa, ao vermos aquilo. Mas nosso riso era o riso sem crivo moral. Era como se soubéssemos que logo, aos 15 anos, o mesmo movimento iria nos abrir para o mundo de um faz-de-conta-diferente. O teatro tinha uma mística. Acultura tinha uma aura. A escola tinha um sentido. O país tinha um horizonte.

Quando Zé Celso abriu o corpo para o corpo, no teatro brasileiro, fez de tal modo que, passado vinte anos, tudo virou passado. Então, quando temos diante de nós o inculto, reclamando e esbravejando com algo tão simples como “Macaquinhos”, ficamos boquiabertos e pensamos: onde estavam essas pessoas que não viram os jornais, os livros e nem mesmo a TV nesses anos todos? Eram homens e mulheres das cavernas? Essas pessoas não conseguem ver o corpo nu sem pensar em sexo e pensando em sexo só conseguem ver coisas nojentas? De onde vieram esses bárbaros? Eles estavam em nossas casas? Estavam nos nossos bairros? Foram eles que saíram às ruas em 1964 para destruir a democracia? Ora, mas não são eles que agora são dirigidos por atores pornôs, como Frota? Nessa hora, na hora de macular a democracia, eles aceitam a pornografia? Mas “Macaquinhos” não tem nada de pornografia. Ah, tá explicado. Pornografia é simbologia conhecida, então pode. Estando tudo no lugar, pode. O problema é quando a simbologia chama o cérebro para trabalhar. Aí não pode. O cérebro do inculto não gosta de trabalhar. Entendi.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

PS: fiz vários textos sobre a peça “Macaquinhos”, fazendo uma leitura metafísica, não de crítico de arte. Procure no blog pelo mecanismo “search”.

Abaixo, mais macaquinhos:

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10 Responses “Dedo no rabo é dedo no rabo? Novamente “Macaquinhos”!”

  1. Vicente Francisco P. Costa
    05/11/2016 at 16:06

    Querido amigo, eu sei que você não escreveu a peça, eu apenas deixei o meu comentário sobre a peça na sua página, aproveitei também para relembrar um fato ocorrido comigo sobre uma peça de teatro que (festival de teatro), tal qual a essa, deixou algumas impressões contrárias, outras a favor e algumas “apaixonadas”. Repito, apenas deixei a minha impressão, embora reconheça que a minha opinião não tenha relevância para outros. Renovo o abraço ao senhor.

    • 05/11/2016 at 16:43

      É que você fez mais que isso, no final, parecia querer saber sobre a relevância da coisa, e nesse caso, veio ao lugar errado. Teria de ir a um crítico de teatro. Não é meu caso.

    • Vicente Francisco P. Costa
      05/11/2016 at 17:33

      Ok professor Paulo, sem problemas. Mais uma vez um grande abraço!!!!

  2. Vicente Francisco P. Costa
    05/11/2016 at 15:11

    Boa tarde. Definitivamente não quero entrar em guerra, ou mesmo dirigir ou receber ofensas do senhor ou de quem quer que seja, apenas registro aqui a minha opinião, respeitando obviamente as outras. Li aqui e em alguns outros lugares algumas coisas sobre essa peça de teatro, “entendimento de superficialidade”, “chocar é a intenção dessa peça”, “simbolismo do texto”, “simbolismo da performance” e outras coisas mais… Acho que, com todo o respeito aos que defendem o contrário (que bom que vivemos em uma democracia!!!!), essa peça é uma perda de tempo total, um uso lamentável do já tão escasso dinheiro público (sou servidor público e sei o que é a falta de dinheiro para o estado “tocar” as coisas básicas como saúde e educação)!!! Não consigo entender qual é ou qual foi a contribuição efetiva dessa peça,… deve ser porque sou engenheiro e sei que nós temos a tendência a ser mais pragmáticos do que outras pessoas e, conforme nossa tendência analítica, estranho muito algumas coisas que vem acontecendo nesse pais, essa com certeza é uma delas. Lembro aqui de um fato ocorrido quando éramos estudantes universitários e nossa faculdade promovia uma “Semana de teatro de vanguarda” (acho que esse era o título), nós os estudantes de engenharia, aproveitando um raro intervalo de aula vaga, fomos ao teatro da faculdade e estávamos assistindo algumas peças (reconheço que na maioria das vezes não entendíamos nada), quando aconteceu um momento onde uma performance era um ator, com uma escada de abrir no meio do palco, jogava água em uma bacia, enquanto dizia algumas coisas, ao final dessa performance, as pessoas envolvidas aplaudiram de pé e nós, os estudantes de engenharia nos entreolhamos estupefatos, não entendemos porque os caras aplaudiam, não preciso de dizer que desistimos e saímos todos xingando todo mundo, depois dando muitas risadas!!! Mas querido amigo, não se irrite, antes de me esculhambar, por favor registro que essa é a minha opinião e até de outras pessoas também, nada mais do que isso!!!! Um grande abraço e fique com DEUS!!!!

    • 05/11/2016 at 15:29

      Vicente, eu não entendi a razão de você escrever isso, como seu eu tivesse escrito sobre a peça, EU NÃO ESCREVI SOBRE A PEÇA em nenhum momento. Leia de novo.

  3. Deise
    10/07/2016 at 21:10

    Acho ótimo q os macaquinhos enfiem o dedo onde quiserem. Mas não com o dinheiro público, por favor

    • 11/07/2016 at 07:56

      Deise não precisa reclamar do dinheiro, eu mando dinheiro para você para você enfiar o dedo em você mesma, se é isso que lhe causa tanta preocupação. Dê sua conta, vou mandar uns trocados e você compra um latinha de vaselina. Tá contente agora?

  4. 18/03/2016 at 01:51

    Artigo top!

  5. 04/01/2016 at 12:25

    Boa análise. “Macaquinhos” tem de ser entendido como função simbólica, pelo que tenciona exprimir, que o indivíduo tosco não percebe. Ao contrário, o tosco limita o seu entendimento à superficialidade da exposição dos corpos, notadamente do ânus. Vide o meu artigo sobre a peça em http://revistaladoa.com.br/2015/11/para-pensar/macaquinhos#axzz3wHmCmPI2.

  6. Alex
    04/01/2016 at 11:35

    Escola, pedagogia e educar… ao que me parece perderam (se é que houve algum) o sentido no nosso país e não falo de outros, pois não os conheço.
    Não digo que não seja necessário haver escola… deve haver, mas devem ser escolas com E maiúsculo.

    A história só revela a perda… os cérebros cresceram, bem como os espaços “vazios” no universo.

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