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27/03/2017

De Niro na contra corrente dos nossos “educadores”


O homem do casamento que deu certo. O funcionário que foi chefe de uma empresa de impressão de listas telefônicas e que, enfim, não existem mais – mas que é orgulhoso do que fez. O homem que se sente bem de terno, gravata e sapatos diariamente. O gentleman que ainda carrega lenços para oferecer na hora do choro de mulheres. O personagem que compreende o que é “ficar velho”. O sábio que entende que ao final da vida não se chegou a lugar nenhum, que não havia lugar para chegar, e que o segredo de tudo não é o objetivo, mas o meio, o cotidiano, o fazer acontecer as pequenas coisas no dia a dia. A vida não tem ponto de chegada, a vida é o viver, ou seja, a melhor disponibilização do tempo.

Tudo isso podemos aprender com Ben Whittaker (Robert de Niro), um viúvo aposentado, personagem do filme com o título nacional de Um senhor estagiário (The Intern, Nancy Meyers, USA, 2015), e que recomeça como treinee em uma empresa de e-commerce, sob a chefia de Jules Ostin (Anne Hathaway). Podemos mesmo? Será que conseguimos aprender a viver bem, de um modo digno? Não, longe da minha cabeça a ideia de que a humildade é sinônima de dignidade. Se há validade nisso, então teríamos de distinguir bem a humildade real da humildade do lambe botas e do lambe bundas. Talvez viver bem, ser “uma boa pessoa”, seja algo de quem conseguiu ver que se inventamos Deus é simplesmente porque este inventou a ideia de primeiro criar o mundo e só depois o homem. Em filosofia acadêmica poderíamos dizer, com Heidegger: há antes o que é, o ser, e o homem é importante, sim, mas como pastor do ser, ou seja, como quem cuida daquilo que é, e não como quem se coloca como o próprio ser, o tudo.

Tenho medo de ter compreendido a mensagem de Ben Whittaker dentro de um clube seleto de “mais velhos”. Tenho 58 anos. Ben Whitaker tem 70. Não é tão diferente. Daqui a dois anos estarei na idade oficial da velhice, junto com Ben. Será que tenho a sabedoria de Ben?

Mas não há só essa pergunta, há outras, que envolvem também os jovens. Por exemplo: pode ainda querer se boa pessoa um jovem que compartilha da misoginia e do ódio às boas ações de um Pondé? Pode querer ser boa pessoa alguém que mira como vitória ter um Kim Kataguiri como entrevistado no domingo, na Folha de S. Paulo? Ou seja, como achar que um jovem pode chegar a ser “boa gente”, ou ao menos entender a mensagem do charmoso De Niro, se o mundo real é oferecido à juventude de modo completamente invertido? Odiar aquele que busca salvar um beagle num falso laboratório ou odiar quem quer construir uma utopia política de liberdade e igualdade é o lema desses “educadores” vindos da imprensa. Quem terá mais força? De Niro ou esses crápulas? Não é uma questão tola nos dias de hoje. O exemplo brasileiro tem seus similares no exterior. Podem crer.

Meu medo é que De Niro só continue chegando para os que, mais velhos, já descobriram, como realmente descobririam, o segredo de Ben Whitaker há muito tempo. Meu temor é que os afazeres e ideias De Niro, no filme, sejam incompreensíveis para os jovens que circulam entre o ideário dos que almejam trabalhar na revista Veja, e hoje esperneiam no mercado jornalístico. Aliás, é até engraçado ver estes que chafurdam na lama do ódio ter como meta de trabalho a revista Veja, uma revista que diz que vende, mas que só sobrevive porque o estado, em nível estadual e federal, compra-a para distribuição (em escolas!). O Brasil é o país da piada pronta: os paladinos do (falso) liberalismo são sempre os que trabalham em lugares privados que dependem, para viver, do dinheiro público – o nosso dinheiro, o fruto do nosso trabalho, dos que não necessariamente divulgam o ódio.

Podemos ver o novo filme de De Niro como um recado para o Ocidente: valores do passado não eram tão ruins como fizemos parecer quando os contestamos, a partir dos sixties. Mas a até a contestação dos Sixties passou. Os que espalham o ódio, hoje em dia, nem sabem direito o que foram os Sixties. Mas podemos ver o filme também segundo uma economia doméstica: valores dos que pregam pequenas bondades no dia a dia, no Brasil, nunca deveriam ter se tornado, tão rapidamente, um incômodo para quem se diz colunista, escritor, militante político, estudante, jovem, professor e coisas do tipo. Mas se tornaram. Temos hoje “educadores” populares invadindo a imprensa com a bandeira do “foda-se”. Não, Ben Whitaker não é para estes, pois é para inteligentes.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

De Niro

ah

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3 Responses “De Niro na contra corrente dos nossos “educadores””

  1. Guilherme Picolo
    28/09/2015 at 06:39

    Muito bom o texto, principalmente na reflexão de que o segredo da vida não é um ponto de chegada, mas o percurso; não é desfecho, mas o contexto, e não dá para mudar o mundo se antes sequer arrumamos as pequenas coisas do dia-a-dia.
    *
    **
    Sobre ser país da piada pronta, o Tim Maia dizia que o Brasil era o único país em que a prostituta se apaixona, o cafetão sente ciúmes, o traficante se vicia e o pobre é de direita. Esse quadro ganhou duas figuras inéditas: o “liberal” que depende de subsídio do Estado e o “meritocrata” que conquistou tudo o que tem por ser bem nascido.

    • 28/09/2015 at 14:26

      O Tim Maia estava errado Guilherme, pobre é o bicho mais difícil de ser socialista.

    • Guilherme Picolo
      29/09/2015 at 08:36

      Exatamente, Paulo, é dessa contradição que ele se ria.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo