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22/10/2017

De Lennon ao Scorpions


Há um fio que liga Lennon aos Scorpions, mas que não sabemos se pode alcançar mais alguém, já agora do lado de cá do século XXI.

“Imagine”, de John Lennon, é de 1971. Seu último verso é este: “I hope someday you’ll join us//And the world will be as one”. “Wind of change”, dos Scorpions, é de 1990. Um de seus mais belos e significativos versos é este: Let your balalaika sing//What my guitar wants to say”.

É interessante notar que são dois momentos de juventude, e que na inspiração básica há um sentimento próximo: a união dos povos. Isso aparece claramente no verso de Lennon, e se repete na fala dos membros do Scorpions ao dizerem que a música foi inspirada na união que viram em evento musical em Moscou. O vocalista Klaus Meine contou: “Todo mundo estava lá: o Exército Vermelho, jornalistas, músicos da Alemanha, da América, da Rússia, o mundo inteiro em um único barco. Foi como uma visão, todo mundo estava falando a mesma língua, e foi uma vibração muito positiva. Aquela noite foi a inspiração básica para ‘Wind Of Change'”. (1) Todavia, nessa aparente semelhança, há todo um novo rumo, próprio da juventude dos anos noventa. Pois o verso de “Wind of Change” não indica a união de Lennon, feita por sonho comum, mas o culto ao indivíduo e, a partir deste, das relações entre os diferentes. A união de Lennon é religiosa. A união dos Scorpions é moderna: são instrumentos diferentes, sujeitos distintos, culturas divergentes que se falam. A balalaika canta, a guitarra diz; a guitarra quer falar, e então que balalaika que ponha lírica na fala dessa guitarra.

Lennon fez “Imagine” no contexto da Guerra Fria, da divisão que parecia que seria eterna. Os Scorpions cantam exatamente sob “Wind of change”, o sopro que fez a Guerra Fria ir embora, quando URSS desmoronou como um grande castelo de cartas. A nova união, então, não poderia ser mais aquela prometida pela religião soviética, mas aquela que pudesse manter a diversidade de cada um. Você com a sua balalaika, eu com a minha guitarra. Nenhuma união do tipo da de Lennon poderia ser ali invocada e evocada. Toda a união de hoje, que tanto falamos em diversidade, era a que então despontava com “Wind of change”. As duas canções conseguiram apreender suas época como nenhum outro elemento da cultura o fez.

Estamos agora distantes tanto de Lennon quanto dos Scorpions. Talvez existam jovens atuais que não saibam nada sobre eles e, enfim, nada de nada. Mas deve haver ainda, em algum lugar, uma juventude que goste de música quando esta é aquilo que Hegel falava que a filosofia tinha que ser: a apreensão de uma época em pensamento. Lennon e os Scorpions conseguiram apreender épocas antes pelo que parece ser o não-pensamento, ou seja, a música. Será que a juventude atual tem algo equivalente?

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

(1) Mantenha a fonte ao citar o texto: Scorpions: a história por trás da música “Wind of Change” http://whiplash.net/materias/curiosidades/205647-scorpions.html#ixzz4AILvciIy
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4 Responses “De Lennon ao Scorpions”

  1. Alexandre
    05/06/2016 at 02:22

    Scorpions, o grupo que marcou o início da minha adolescência. Infelizmente a juventude atual não possui nada equivalente aos Scorpions ou ao inesquecível Men at Work. Talvez isso se deva ao fato de estarmos no início de um século/milênio, a sensação que eu tenho é a de que as pessoas andam meio perdidas. Acabamos de sair de um século que foi palco de uma grandiosa evolução tecnológica, hoje em dia tudo parece ser possível, mas apesar disso as pessoas andam cada vez mais superficiais e menos criativas, essa é a sensação que eu tenho.

  2. Jose
    01/06/2016 at 22:04

    Gostava muito desse rock dos anos 90, dessa musicalidade mais melodiosa e mais arejada.

  3. Ferdnand
    01/06/2016 at 17:50

    A juventude atual tem apenas frases, soltas, na cabeça, como esta: “Luto pelo direito de ser puta impunemente”. Mas não é ela que as inventa.

  4. Matheus
    01/06/2016 at 12:54

    Acho que a juventude não conta com nenhum equivalente na atualidade… essa aproximação da arte e da filosofia me lembrou um pouco a contemplação em aristóteles, não cheguei a lê-lo na íntegra e não sei o que ele disse ou diria, mas fico pensando qual a diferença entre o filósofo e o grande-artista, e o seu texto já aponta a diferença: filosofia é pensamento, arte é não-pensamento; filosofia é a apreensão consciente do tempo/época; arte é a apreensão inconsciente… eu já pensava em alguma linha levemente freudiana, que algo, que um desejo impulsionasse o artista a ter que realizar sua obra justamente por não entendê-la, ele precisaria fazê-la para contemplá-la e através dela sentir algo que o completasse que o fizesse completo; o filósofo já caminha por outras vias, racionalizando para decifrar, encontrar perguntas, hipóteses, respostas, possibilidades. Creio que os grande-artistas invejem a sabedoria prática dos filósofos, tanto quanto os últimos invejam a criatividade de se expressar em códigos para além da linguagem, como os sons e as figuras dos primeiros.

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