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25/07/2017

O sujeito de Davidson & Rorty diante do inconsciente freudiano


Levamos Hegel a sério. Foi ele quem comemorou a entrada de Descartes na filosofia, impondo a esta o princípio do cogito, e então a sua noção de subjetividade, como um marco da modernidade. A partir daí, a noção de sujeito, como os filósofos tradicionalmente a tomaram, passou a ser um tema central da filosofia. Essa noção, genericamente falando, foi caracterizada por três elementos centrais: a consciência, a identidade e a autodeterminação. Mas a carruagem não parou aí.

Desde o final do século XIX e início do XX, os filósofos não puderam desconsiderar o incrível sucesso popular da linguagem da psicanálise, principalmente os trabalhos de Freud. Mais que qualquer outro intelectual, até mais que Darwin e Marx, ele alterou profundamente a nossa autoimagem. Até os seus trabalhos, a palavra “inconsciente” se referia a alguém que estivesse desmaiado, talvez dormindo ou em coma, mesmo que aqui e ali Schopenhauer e Nietzsche já a tivessem utilizado em um sentido relativamente próximo ao sentido freudiano. Após o médico vienense, todos nós passamos a admitir o inconsciente como mais um importante componente subjetivo. O que veio a ser chamado “mundo interior”, o campo subjetivo, tornou-se compartimentalizado, abrigando um hóspede de aspecto curioso. Freud deu a este hóspede um incrível poder, aquele de poder fazer o eu se ver como “não mais senhor em sua própria casa”.

Daí para diante, alguns filósofos passaram a incorporar as noções da psicanálise à filosofia. Mas nem todos agiram assim. Houve aqueles que torceram o nariz para a noção do célebre judeu de Viena. Por exemplo, Sartre viu no inconsciente uma criação perigosa, capaz de fazer o eu se esquivar de responsabilidades. Ele temia que se pudesse falar de criminosos nazistas, por exemplo, como tendo agido sob o comando de crenças inconscientes, tornando-os tão inimputáveis quanto poderia ser, então, qualquer pessoa insana. Por outro lado, outros filósofos, mesmo não incorporando muito da psicanálise em suas próprias doutrinas, não viram grandes problemas em conviver com a presença do tal “inconsciente”.

Filósofos mais recentes, no entanto, como Donald Davidson e Richard Rorty, não acreditaram que as conquistas de Freud sejam causadoras de mais rebuliço do que o de forjar uma necessária nova imagem de nós mesmos, com consequências revolucionárias, mas não tão nefastas quanto as notadas por observações sartreanas e similiares. Falar em inconsciente é, para eles, levar a sério a possibilidade daquelas situações em que há comportamentos de akrasia, ou coisas do tipo, a chamada “fraqueza da vontade”.

Uma breve incursão sobre o tema da akrasia ajuda o nosso entendimento aqui. Sigo aqui as reflexões de Donald Davidson.[1]

Um homem é diabético e sabe muito bem que não deve comer doce. No entanto, ele vê uma goiabada e, mesmo tendo certeza de que irá passar muito mal caso o coma, ele, após titubear um pouco, acaba por devorar o saboroso quitute. Davidson lembra que Platão, por meio de Sócrates, nega que exista essa possibilidade de “fraqueza da vontade”. Se alguém comeu o doce é porque efetivamente não sabia, em um grau suficiente de conhecimento, sobre o quanto o doce lhe faria mal. Davidson nomeia isso de “princípio de Platão” que, por sua vez, se opõe ao “princípio de Medeia”.[2] Este, por sua vez, diz que o diabético come o doce mesmo efetivamente sabendo que isso lhe trará enorme prejuízo, mas o desejo do doce age como que uma força estranha, algo vindo do exterior que toma a sua mão e a conduz até o doce, apanhando-o e levando-o à boca. Ainda seguindo Davidson, há de se lembrar de Aristóteles. Diferentemente de Sócrates, o estagirita chama claramente o diabético de agente akrático, e explica tal conduta como a de quem tem um leve esquecimento do que o doce representa para o diabético, e então cede ao desejo de doce. É como se o diabético não soubesse claramente de que está entre alternativas, a de comer e não comer.[3] Davidson analisa esses casos e não vê como não ceder a Freud, fracionando a mente.

Assim, como diabético, posso ter um conjunto de crenças e desejos que contenham aí razões para não comer o doce. Essas razões são aquelas que todos sabemos, a partir da medicina que cuida de diabéticos. Mas posso ter, ao lado dessas razões, um outro conjunto de crenças e desejos que não contenham qualquer razão que diga que um diabético pode comer o doce, mas que são causas mentais de se pensar que se pode comer o doce, e levar ao comportamento de comer o doce. Essas causas são causas mentais, ainda que não sejam razões. Pode-se, nesse caso, falar como Freud, de que uma parte da mente funciona como um agente independente da outra. Todavia, diz Davidson, pode-se falar de modo ameno, que chancela Freud sem que criar vários efetivos sujeitos dentro de uma só pessoa. Pode-se falar simplesmente em termos de funções, em termos de conceitos de razão e causa.

O entendimento davidsonian-rortiano toma como ponto de partida o comportamento dito irracional. Trata-se daquele comportamento que se observa em uma pessoa e que não condiz com as crenças e desejos desse indivíduo, as menos as explicitadas, e que seriam as melhores para ele. Ora, se alguém diz que as crenças e desejos que geraram aquele comportamento nãos são as explícitas, as conscientes, mas as inconscientes, isso pode parecer misterioso aos filósofos, ainda que não aos psicanalistas e não mais ao senso comum, já acostumado até demais com a psicanálise.  Todavia, davidsonianos ou rortianos como eu mesmo podem simplesmente dizer que isso é explicável aos filósofos, nos moldes dados por Davidson.

Há conjuntos de crenças e desejos no campo mental, e o que é chamado de inconsciente não é outra coisa senão um desses conjuntos, um conjunto alternativo, que se relacionou com o comportamento desejado por meio de causalidade, não de racionalidade. Ou seja, agiu como crenças e desejos que foram causa de outras crenças e desejos e que geraram comportamentos, mas não agiram como razão. Causas geram efeitos, sem conversação. Razões são motivos que geram novas crenças e desejos, comportamentos racionais, e para aparecer dependem de conversação.[4] (Aliás, a tese de Davidson de que razões são causas não diz que toda razão é uma causa).

Quando lemos Freud com isso em mãos todo mistério do “inconsciente” desaparece. Também diminui bem as peripécias que essa instância possa fazer para tirar alguém da responsabilidade, como temia Sartre que ocorresse.

Rorty propõe uma visão de Freud que, para ser plausível, deve fazer uma distinção clara entredavidson, rorty e freud dois sentidos de “o inconsciente”. Em um primeiro sentido, o inconsciente é “um ou mais sistemas bem articulados de crenças e desejos, sistemas tão complexos, sofisticados e internamente consistentes quanto as crenças e desejos conscientes dos adultos”. Em um segundo sentido o inconsciente é “uma massa efervescente de energias instintivas desarticuladas, um ‘reserva-
tório de libido’ para o qual consistência é irrelevante.” O que é novo na visão que Freud, diante de outros que, como ele, não lidaram com a mente em um sentido fortemente metafísico, é a “sua afirmação de que nossas identidades privadas inconscientes não são brutais, obtusas, sombri-
as e repulsivas, mas antes pares intelectuais e parceiros conversacionais de nossas identidades conscientes.” [5]

Aliás, diz Rorty, que “essa sugestão de que uma ou mais pessoas espertas, articuladas, inventivas, estão trabalhando nos bastidores – preparando nossas piadas, inventando nossas metáforas, delineando nossos sonhos, arranjando nossos deslizes e censurando nossas memórias – é o que prende a imaginação do leitor leigo de Freud.”[6] É isso que faz a psicanalise ter sucesso popular e ter mesmo de ser levada em conta em qualquer descrição atual que a filosofia queira fazer de nós mesmos.

O que Freud fez foi substituir a visão de nós mesmos dado pela alma tripartite de Platão que, enfim, mais tarde, serviu de base na economia da fórmula romântica de sucesso “razão versus paixão”, por uma nova autoimagem, aquela da distinção entre consciente-inconsciente. Freud, na conta de Rorty, substituiu a imagem tradicional de “um ‘intelecto’ lutando contra uma multidão de brutos irracionais pela imagem das transações sofisticadas entre dois ou mais ‘intelectos’.”[7]

Antes de Freud, expõe Rorty, pensava-se nas crenças como “a reserva da parte mais elevada da alma”. As “partes mais baixas” eram tomadas como “‘corporais’, como animalescas e, em particular, como pré-lingüísticas”. No entanto, “um inconsciente engenhoso é necessariamente um inconsciente linguístico”. Indo além: “se ‘racional’ significa ‘capaz de tecer redes complexas de crenças, internamente consistentes’, ao invés de ‘capaz de contemplar a realidade como ela é’, então um inconsciente engenhoso é também um inconsciente racional – um inconsciente que não pode tolerar a inconsistência mais do que pode a consciência’.” Dessa maneira, faz-se necessário distinguir o inconsciente enquanto ‘o estrato mais profundo de nossas mentes, constituído de impulsos instintivos’, o estrato que não conhece ‘nada que seja negativo, e nenhuma negação’, “o estrato no qual ‘os contraditórios coincidem’, (…) do inconsciente enquanto parceiro sensível, extravagante, que trabalha nos bastidores e que nos nutre com nossas melhores tiradas espirituosas.” Este, por sua vez, “é alguém que possui uma visão de mundo bem elaborada, internamente consistente – apesar de ser alguém que pode estar desesperadamente errado quanto a certos pontos cruciais.” Não se deve desprezar a “interessante afirmação de que a distinção consciente-inconsciente está além das distinções humano-animal e razão-instinto”.[8]

Ora, essas afirmações podem nos sugerir que “quando nos sentirmos tentados a reclamar que, infelizmente, duas almas residem em nosso peito”, teríamos de pensar “nas duas como uma alma humana mais ou menos sã e uma alma humana mais ou menos louca, ao invés de como uma alma humana e uma alma bestial.” Seguindo o “modelo herdeiro do campo platônico, o autoconhecimento será uma questão de autopurificação – de identificação de nosso self humano verdadeiro e de expulsão, restrição e ignorância do self animal.” Mas, de acordo com “o modelo freudiano,

o autoconhecimento será uma questão de familiarizar-se com uma ou mais quase-pessoas loucas, escutando suas loucas avaliações de como as coisas são, vendo porque elas sustentam as loucas visões que sustentam e aprendendo algo delas. O autoconhecimento será uma questão de autoenriquecimento. Dizer ‘onde estava o id, o ego deverá estar’ não significará ‘enquanto antes eu era guiado pelos instintos, agora eu devo me tomar autônomo, motivado somente pela razão’.Ao contrário, significará algo como: ‘Outrora eu não poderia imaginar porque eu estava agindo tão estranhamente e, por isso, imaginava se não estaria, de algum modo, sob o controle de um
diabo ou de uma besta maligna. Mas agora eu devo estar apto a ver minhas ações como ações racionais, que fazem sentido, embora talvez baseadas em premissas errôneas. Eu posso até mesmo descobrir que essas premissas não estavam erradas, que meu inconsciente sabia de tudo melhor do que eu’.”[9]

A vantagem desse modo de pensar nas paixões, diz Rorty,  é que isso “viabiliza a aquisição de uma visão similar da consciência”. Pois

“do mesmo jeito que essa visão humaniza o que a tradição platônica tomava como sendo os ímpetos de um animal, assim também ela humaniza o que essa tradição pensava como uma inspiração divina. Ela toma a consciência, como a paixão, mais um conjunto de crenças e desejos humanos – outra estória sobre o modo de ser do mundo, outra Weltanschauung.[10]

Nem fera e nem anjo, o homem tornado sujeito moderno, mas descentrado por Freud, finalmente se efetivaria mesmo como homem – humano, demasiadamente humano.

É claro que uma visão assim, ainda que satisfaça filósofos, pode levantar dúvidas sobre os vocabulários que utilizamos para falar do inconsciente. Rorty cuida disso ao separar o modo como o analista pensa a situação de seu paciente e o modo como o próprio paciente pensa.

O analisa precisa, segundo Rorty, pensar por meio de modelos topográficos e hidráulicos de fluxo libidinal, esperando com isso encontrar em tais modelos sugestões sobre que significado associar a novos sintomas, como superar resistências e coisas assim. Mas o paciente, ao contrário, não possui outra alternativa senão pensar em termos conversacionais. O paciente quer “reconfigurar seu caráter”, e ele não pode “usar uma redescrição em termos de catexia, fluxo libidinal e coisas do gênero”. Ninguém usaria de modelos topográfico-hidráulicos para compor uma parte de sua autoimagem. Faria tanto efeito quanto faz o uso, para tal autoimagem, de uma descrição do sistema endócrino. O que o paciente faz é pensar sobre crenças e desejos que são candidatos à admissão no seu conjunto de crenças e desejos. Ou seja: “enquanto o analista está ocupado pensando causalmente em termos das reações do paciente a estímulos (e em particular a estímulos que ocorrem enquanto o paciente está no divã), o paciente tem de pensar em seu inconsciente como, ao menos potencialmente, um parceiro conversacional”.[11]

Assim, a descentralização do sujeito levada adiante por Freud, se lida segundo os olhos de Davidson e Rorty, não apresentam os problemas que, ao menos à primeira vista, nos saltam aos olhos se imaginamos que estamos falando em um sujeito com consciência que, enfim, em seus domínios, o campo subjetivo, recebe um hóspede, o inconsciente, que o domina e o subjuga. Nada disso soa estranho mais nesse modelo de Davidson-Rorty. Um sujeito assim é um sujeito que poderá conversar com aquele que querem deles atos responsáveis, é claro, sem qualquer sinal de uma radicalização dessa descentralização, como a esquizofrenia.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo.

[1] Davidson, D. Paradoxes of Irrationality. In: Problems of rationality. Oxford: Clarendon Press, 2004.

[2] Idem, ibidem, pp. 174-5.

[3] Idem, ibidem, p. 175.

[4] Rorty, R. Freud e a reflexão moral. In: Escritos sobre Heidegger e outros. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999.

[5] Idem, ibidem, p. 199.

[6] Idem, ibidem, pp. 199-200.

[7] Idem, ibidem, p. 200.

[8] Idem, ibidem.

[9] Idem, ibidem, p. 201

[10] Idem, ibidem.

[11] Idem, ibidem, p. 216.

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