Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

28/06/2017

Davidson e Spinoza


A divisão na filosofia acadêmica entre “analíticos” e “continentais” nem sempre ajuda. Ainda hoje, mesmo após Richard Rorty, há muitos professores de filosofia que continuam presos em um desses campos, sem poder ter o prazer de redescobrir a filosofia “do outro lado”. Baruch Spinoza (1632-1677) tem sido vítima dessa visão, ou melhor, falta de visão, de muitos leitores e scholars de seu pensamento. Spinoza é uma das bases da filosofia de Donald Davidson, um dos maiores filósofos do século XX, mas dificilmente lido pelos professores formados na tradição continental.

Donald Davison[1] reconheceu sua dívida para com Spinoza mostrando que as teses de sua própria posição, o monismo anômalo, coadunavam muito bem com aquelas do filósofo crítico de Descartes.

Davidson foi defensor de um “monismo ontológico” associado a um “dualismo conceitual”. Essas duas acepções estiveram associadas, em sua filosofia, a um “dualismo explicativo”, a “ausência de leis psicofísicas” e, por fim, à tese de que relações causais estão apartadas de explicações causais. Explico esses termos, logo abaixo.

O monismo ontológico é a tese de não há evento ou objeto que não possa ser unicamente identificado por descrições bem definidas baseadas exclusivamente na linguagem da ordem da física, e por descrições bem definidas pela linguagem da ordem do mental.

O dualismo conceitual diz que vocabulários da ordem do mental e da ordem do físico não são nem em termos de definição e nem em termos nomológicos redutíveis um ao outro ou redutíveis a um terceiro vocabulário.

O dualismo explicativo diz que embora as ciências naturais possam chegar ao ponto de explicar tudo, e daí criarem teorias cuja função é a máxima previsão possível, elas não podem, mesmo em princípio, ter uma completa predição ou explicação de qualquer evento sob uma descrição da ordem do mental. Nem poderia uma ciência psicológica aperfeiçoada fornecer uma completa predição e explicação de um evento sob a descrição da ordem do físico.

Dessa tese do dualismo explicativo, então Davidson pode afirmar que não há leis estritas e determinísticas que conectem o mental e o físico. Não há leis estritas psicofísicas.

Finalmente ele fecha dizendo que todos esses pontos não contradizem o reconhecimento de que há relações causais entre o mental e o físico. Ele explica, então, que relações causais são entre eventos descritos por qualquer via, e que explicações causais, diferentemente, dependem do vocabulário ou conceitos usados para descrever e formular leis.

Tudo isso foi posto nas “definições” da Ética de Spinoza, é claro que nos seus próprios jargões e nos termos da época.  Nesse libro, Spinoza fala em “substância” e seus “atributos”. Substância é o que é entendido em si mesmo e o que é concebido por si mesmo, o que não depende do conceito de outra coisa. Atributo é o que o intelecto percebe de uma substância, como constituindo sua essência.  Compreender ou explicar uma substância significa conhecer sua natureza essencial. Todavia, não haveria somente uma maneira de perceber essa natureza essencial.

Eis um exemplo. O astrônomo localiza uma estrela e, então, já a coloca em um mapa dos céus com coordenadas (x, y e z) para o ponto no qual a estrela está. Enquanto que um namorado detalhista e sagaz, que aponta a mesma estrela para a namorada, não age assim. Nem aquele observador atento, mas sozinho sob o céu noturno, que admira a tal estrela, faz como o astrônomo ou o namorado. Pode simplesmente descreve-la ao localizá-la por meio de outras relações, como, por exemplo, o local do monte no qual ele a vê ou então pela intensidade de seu brilho quando é madrugada e coisas do tipo. Cada um fornece uma narrativa própria. Todas essas descrições da estrela poderiam ser tão boas a ponto de permitir que um estranho, sem ver a estrela, pudesse também montar a sua boa narrativa de localização. Mas seria um tanto ridículo cruzar as narrativas, fundindo-as em uma só. Elementos de uma narrativa se tornariam completamente estranhos noutra. Um verdadeiro non sense estaria ali criado se elementos de narrativas diferentes fossem colocados no interior da outra narrativa sobre essa estrela. A noção de atributo é exatamente isso: essas descrições são detalhadas e completas, e uma não deixa de informar algo a mais ou a menos que a outra, mas não são comparáveis, ainda que falem da estrela, da mesma estrela.

Ora, se utilizamos disso a respeito de um evento determinado, percebido pelo vocabulário do mental e pelo vocabulário do físico, como diz Davidson, estamos então falando do que Spinoza nomeou como o atributo da essência desse evento. Eis o evento. Posso dizer que o neurônio W está na posição x1, y1 e z1 e com características X, Y e Z no tempo t1, tempo este que é o mesmo em que o portador desse neurônio W diz que está tendo o pensamento A. Todas as vezes que ele pensa A noto essa caracterização do neurônio W e todas as vezes que noto essa caracterização de W o seu portador me revela que está pensando A. Então, por associação (mas não prova) indutiva posso dizer que estamos aí com um evento com duas descrições, uma pelo vocabulário do físico e outra pelo vocabulário do mental. O evento é, então, chamado de o mesmo (com ressalvas), mas não temos como ficar com uma só descrição achando que uma delas é mais real que a outra. Elas não são comparáveis. Além disso, ainda que admitamos (com ressalvas) que elas estão em relação causal, não vamos dizer que elas estão sob explicação causal, como se pudesse ser tirado dali uma lei psicofísica dizendo que modificações de W causam o pensamento A ou vice e versa, como fazemos com leis causais do tipo da lei da gravidade, por exemplo. O mental, ou pensamento, tem um poder de anomalia – admite assim Davidson. Spinoza diria: o mental é o que ocorre na mente do homem, onde tudo se dá de modo não organizado, não é como a mente de Deus, onde tudo pode ser notado segundo uma ordem geométrica.

 Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

[1] Davidson, D. Spinoza’s causal theory of the affects. In: Truth, language, and history. Oxford: Clarendon Press, 2005.

* Há pessoas envolvidas em “neurociências” no Brasil, que inclusive se colocam na imprensa como “cientistas” que não percebem esse conhecimento básico: que tudo que ocorre com W, e que é descrito no vocabulário, não explica nada do que ocorre no pensamento que se possa associar (por indução, portanto, com ressalvas) ao que é um pensamento A e vice versa.

Quer saber mais? Peça para seu livreiro ou vá direto no site da Editora Multifico, selo Luminária.

DD - Copia (2)

Tags: , ,

4 Responses “Davidson e Spinoza”

  1. Ezequias Costa
    23/05/2017 at 16:26

    Paulo boa tarde!
    O que seria a filosofia do outro lado?
    Obrigado.

  2. Antonio Fausto
    09/09/2014 at 17:30

    Paulo, primeiramente peço perdão pela dúvida, certamente, fora do foco do texto mas que surgiu a partir das primeiras linhas de sua reflexão. Gostaria que se possível fosse, me dissesse, ao menos numa espécie de “marcação” terminológica a origem dessa nomenclatura “analítica” e “continental”. Sei o que estas significam mas não sei da história de tais termos. Foi algum filósofo específico que os propôs?! Desde já, fico grato por qualquer retorno! Abraço!

    • 09/09/2014 at 19:37

      Faustino: “analítica” em oposição à continental porque ao aparecer a figura de Bertrand Russel e outros, a filosofia de língua inglesa, já propensa ao empírismo, adotou o empirismo lógico (ou positivismo lógico) que se tornou praticamente “filosofia analítica”. Assim, sobrou para o continente, a tradição anterior.

    • Antonio Fausto
      09/09/2014 at 20:39

      Obrigado, Paulo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *