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28/02/2020

Da hipocrisia


Os que querem ter prazer com o pênis alheio

A hipocrisia não é um defeito da sociedade humana, é um pilar central de sua estrutura. Não há sociedade sem hipocrisia. Não podemos falar o que pensamos de nossos vizinhos, “aqueles filhos da puta”. Não podemos nem mesmo dizer para nossa sogra que ela é “uma sogra”. Nem há como mandar um cartão de Natal para o patrão dizendo que ele é “o patrão mais burro e muquirana do universo”. Nem temos como avisar um amigo que ele empregou “uma vadia”. Até mesmo jogar uma praga para um tipinho que é inimigo público número 1 nos é vedado. Sem usar de qualquer “politicamente correto”, que agora ficou definitivamente provado que não é uma prática necessariamente da esquerda, a sociedade é sociedade se carrega dentro de si a proibição da sinceridade.

Por quê?

Porque a verdade dói – diriam alguns. Porque teríamos um brigueiro total – diriam outros. Essas explicações são fáceis demais.

Nietzsche lançou mão de hipóteses antropológicas para dizer que “animais de rebanho” são naturalmente de rebanho e, então, ao forjarem a linguagem, esta já emerge com o som de ovelhinhas. Estávamos todos destinados a emitir apenas um “bééé”. Mas ocorre que nossa ovelhice era muito maior que a das ovelhas. Nossa covardia era de tal ordem que nosso ataque pelas costas sempre foi o mais temível dos ataques. Por isso mesmo, ao nos reconhecermos como “de rebanho”, criamos a nossa linguagem como algo bem complexo, bem grande, de modo a abarcar também a enormidade de nossa hipocrisia e maldade disfarçadas.

Mas as coisas não caminharam linearmente. No meio dessa situação de rebanho, houve aqueles que, entre nós, enlouqueceram. Mutações genéticas fizeram de algumas pessoas figuras incapazes de dizer que haviam gostado de uma comida intragável. Essa gente louca, maluca mesmo, saiu aqui e ali falando antes o que dava na telha do que a verdade. Essas pessoas nunca quiseram arrogantemente “dizer a verdade”. Jamais quiseram aprovar o “a verdade dói”. Nada disso. Essa gente louca passou a falar o que pensava e o que não pensava exatamente para fazer a sociedade não morrer sufocada pela própria língua. A hipocrisia é um órgão como uma língua, e que pode inchar e afogar seu proprietário. Esses homens e mulheres loucos resolveram fazer a sociedade tremer e se salvar.

Nenhuma dessas pessoas apareceu socialmente como “normal”. Diógenes disse para Alexandre que ele deveria sair da frente do Sol. Hannah Arendt disse ao mundo que Eichmann era antes um medíocre que um monstro. Althusser enforcou a esposa e, depois, internado, escreveu uma biografia falando do quanto citou Marx sem ler. Essas pessoas foram gênios. Mas, antes de tudo, loucos. Estiveram malucos. Só malucos.

Há um caso brasileiro que fez a Revista Veja ter orgasmos, exatamente por conta de loucos. Quando o professor francês uspiano Gerard Lebrun deixou o Brasil, após trinta anos nos servindo, voltando então para a França, os raivosos daqui criaram a ideia de que ele era um “lobo mau”, um pedófilo. Ele havia chegado aqui como um homem de esquerda e, terminado seu serviço, voltou para a França como um homem mais tendente à direita. Mas isso não o salvou da imprensa malévola daqui. Sendo uspiano (sim!), culto e de boa índole, Lebrun afrontou os medíocres durante todo o tempo que esteve no Brasil sem precisar fazer muita coisa. Sua existência culta agredia os medíocres. Então, quando surgiu o boato de que ele colecionava fotos de jovens, e que isso podia estar sendo enviado de um companheiro aqui do Brasil, um homem simples, todas as baterias do pior que há na nossa sociedade caíram sobre ele. Caso ele, nessa época, ainda estivesse no Brasil, talvez tivesse sucumbido. Alguns colegas, poucos, o defenderam. Disseram o que tinham de dizer mesmo. Não negaram seu gosto por jovens, o que negaram era o direito da sociedade burguesa de obrigar Lebrun a viver como um burguesinho tolo, incapaz de prazeres inofensivos, apenas por causa dessa sociedade temer demais a si mesma.

Lebrun nunca havia levantado um dedo sequer para alguém. Mas a imprensa malévola, carregando fotos de Jesus (um nome que serve para tudo!), queria linchá-lo. Pouco depois, Lebrun faleceu. Não chegou a reaproveitar a França. Havia gasto uma vida no Brasil e o troco foi um processo contra aquilo que ele nunca foi, um monstro pedófilo. Gente assim é aquele tipo de ignorante que a única coisa que pode falar de Foucault é que era “uma bicha que morreu de AIDs, como todo filósofo deve morrer”. Ora, todos que atacaram Lebrun, no fundo, queriam ver as fotos que ele via. Queriam poder, como detetives, olhar o que ele como simples pessoa olhou. Queriam ter a autorização da lei para ter o prazer visual que ele teve. Todos. Mas, até hoje, negam. Fazem parte da horda conservadora de hipócritas. Não a hipocrisia comum, mas aquela que sustenta heroínas e heróis com hemorroidas.

Depois de um tempo, os mesmos conservadores que ficaram horrorizados com o que Lebrun gostava de ver, fotos de jovens, adotaram uma guerra contra o “politicamente correto”, chamando-o de ditadura. Não falo aqui dos que escreveram filosoficamente contra o “politicamente correto”. Falo, sim, dos chulos, de todo os lados, que, ao transformarem o “politicamente correto” – verdadeiramente ou por fama imputada – em uma forma ditatorial que existiria para impor a todos as forças de uma hipocrisia indesejável, o nomearam como arma malévola da esquerda e somente dela.

 Quando isso começou a ocorrer, logo avaliei que se tratava de uma mentira deslavada, e que a máscara cairia facilmente. Nem precisaria de um empurrão forte. Hoje, tudo está bem claro. Apelar para a linguagem “politicamente correta” e exigir punições contra supostas agressões não é uma prática de esquerda ou de direita. É uma prática social de conveniência que reza no altar da máxima hipocrisia.  Aquilo que temíamos da sociedade americana dos anos oitenta, ou seja, a transformação de todo embate – da briga de esquina até o combate político autêntico – em um caso para nutrir advogados e emperrar a Justiça, nos pegou de vez. O fair play desapareceu completamente. Somos agora uma sociedade em que tudo é levado hipocritamente a sério quando interessa ao inimigo. E todos nós, agora, somos inimigos de todos nós.

Nós filósofos somos loucos e por isso podemos viver nessa loucura. Fomos apadrinhados por Erasmo. Mas há quem está muito jovem para frequentar esse manicômio.

© 2013 Paulo Ghiraldelli, filósofo.

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19 Responses “Da hipocrisia”

  1. Daniel Mota
    01/01/2014 at 12:33

    Excelente texto! Professor Paulo, compreendo muito bem esse tipinho de hipocrisia, dá nojo, é o que podemos chamar de moralismo para babacas. As pessoas na sociedade tem suas perversões e mesmo assim querem ver um forte LADO MORAL nas outras que as cercam. E mais: exagerar na ideia do politicamente correto é uma péssima ideia.

    Feliz 2014!

    Abraços do Daniel!

  2. Thiago Leite
    31/12/2013 at 19:04

    Lucio é muito sem noção. Tá na cara que tá completamente perdido. Uma terapia resolve muita coisa camarada, vai por mim.

  3. Edenilson
    31/12/2013 at 15:33

    “fez a Revista Veja ter orgasmos”… ué, no arquivo digital da Veja há apenas três menções ao Gerard Lebrun. Em todas as menções Lebrun é tratado como acusado e investigado. Não se vê os tais “orgasmos” apontados pelo professor Ghiraldelli.

    • 31/12/2013 at 16:22

      Edenilson, a coisa foi capa da revista, mas se você quer mais orgasmos, tente você mesmo. Aliás, você procurou isso para quê? Para fazer como a revista fez?

    • Edenilson
      31/12/2013 at 17:54

      Ora, professor, fui apenas checar a notícia na fonte citada pelo senhor. Costumo analisar os dois lados das afirmações. O senhor defendeu Lebrun, fui ler o que diziam os detratores.

      A própria Veja, se não foi encomiástica em relação ao filósofo francês, ao menos foi imparcial, na medida do possível: ouviu o acusador de Lebrun (que era amicíssimo dele e facilitador de encontros amorosos), e também os amigos universitários, defensores de Lebrun.

      Mas ok, se o senhor diz, deve ser verdade. Afinal de contas, o senhor é o Filósofo da Cidade de São Paulo. Como pude ousar ir aos arquivos da orgástica Veja, não é? Peço desculpas pelo atrevimento de por em dúvida sua autoridade e ir checar a história.

    • Edenilson
      31/12/2013 at 18:16

      A tempo: ao que parece, realmente Lebrun foi vítima. Vítima principalmente do seu amiguinho aproveitador – o tal do Argenil Pereira, que fez as fotos e depois jogou a culpa no filósofo.

    • 31/12/2013 at 19:43

      Edenilson, essa coisa de estupro é só para inteligentes, fascistas, burrinhos e de má fé não podem entender, pois é gente que não tem fair play, e não tendo isso, as sinapses não acontecem. Ah, sei que sabe isso, mas não custa avisar: nem por brincadeira queira ser meu seguidor. Não admito isso.

    • Gustavo
      03/01/2014 at 14:21

      Essa coisa de estupro é só coisa para inteligentes, assim como é só para inteligentes acreditar que um hacker invadiu sua conta só para escrever uma frase infame de ódio EXATAMENTE IGUAL a outra que o senhor escreveu há poucos meses contra o pastor Marco Feliciano?

      Deus afaste de mim essa “inteligência”, pois não a quero.

    • 03/01/2014 at 14:40

      Gustavo, Deus afastou de você a inteligência e a “inteligência”, sim, quando você ainda estava no útero. Pode acreditar, ele lhe atendeu antecipadamente. E com isso Deus afastou você de várias outras coisas. Por isso você é isso aí, essa coisa que vem aqui não para ter contato com ideias, mas para vociferar de modo que eu lhe dê atenção. Pronto, já dei, tá contentinho agora?

    • Ramon Garcia Xavier
      05/01/2014 at 00:19

      Fala aí arrombado!
      Apagou meus comentários, por quê? Filosofão de merda! Tem medo do debate?

    • 05/01/2014 at 00:21

      Não Ramon, tá aí o seu comentário e ele reflete você, como você é. Agora, veja, filosofia não é debate e para conversar comigo você precisa ser uma pessoa com pedigree, com berço, com boa universidade e, principalmente, não ser aquilo que o Félix chamaria de “bicha histérica” (eu disse o Félix, não eu).

  4. JOÃO CARLOS SILVEIRA
    31/12/2013 at 14:23

    BELO TEXTO PAULO! CONCORDO COM ESTES CONCEITOS, E AINDA SOBRE A POLÊMICA NA RURAL E COM A JORNALISTA DA SBT, CONHEÇO UM MILITANTE GAY E FEMINISTA QUE JÁ UTILIZOU O SENHOR EM DIVERSAS AULAS SOBRE OS ESTUDOS DE GENÊRO E EM SEU BLOG DE MILITÂNCIA.

    DÊ UMA OLHADA PROFESSOR: http://antropoblogando.blogspot.com.br/2011/08/religiao-e-estupidez-no-brasil.html

    FELIZ ANO NOVO E MUITA SAÚDE PARA O SR. E SUA FAMÍLIA!

    • 31/12/2013 at 14:34

      João Carlos, você sabe que nós filósofos fazemos filosofia para inteligentes, com fair play e com educação de berço. Só esses podem nos ler. Quando outros lêem, eles realmente relincham. Obrigado amigo!

    • Adriano Apolinário da Silva
      02/01/2014 at 12:24

      João, foi bom reler o texto do link (já havia lido na época da publicação). Esse texto parece profético. Vendo alguns religiosos acusando o Paulo por esses dias e constatando a indisposição deles em conhecer o filósofo, em “parar para pensar” antes de fazer qualquer julgamento – uma ironia para um cristão, como bem escreveu o Paulo por estes dias, o texto pareceu mais real, inclusive pareceu mais real a necessidade de se fazer algo em favor de cérebros menos burros.

  5. Lucio
    31/12/2013 at 11:29

    Tu não olhas para o próprios rabo, ne Ghirialdelli?! Tu falas em hipocrisia, com esse texto que e uma confissão velada. Eu tenho ódio, tu tens tudo, eu não eu quero tenho raiva por isso. Tu é inteligente e pode tudo, bandido, bandido, bandido, desgraçad de uma figa.

    • 31/12/2013 at 13:10

      Lúcio, eu sei que você representa vários outros que me odeiam por serem odiarem a si mesmos. Não posso fazer nada por você.

  6. 31/12/2013 at 08:07

    Pois é mesmo por causa dessa hipocrisia
    Que o Homem não comunica por Telepatia!

    Bom Ano de 2014 e seguintes!

    Abraço

    Álvaro

  7. Gabriel
    31/12/2013 at 01:57

    Feliz ano novo, Paulo. Muitas alegrias pra você em 2014. Excelente texto. Abração
    Gabriel Mello

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