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30/05/2017

Da besteira da frase “tudo é político”


Peter Sloterdijk tem insistido em dizer que a frase de Aristóteles “o homem é um animal político” teve uma objeção correta em Santo Agostinho, quando este disse que “o homem é um ser antes de família que político”.[1]

Acompanho Sloterdijk nisso. Ele tem mostrado que a hiper-politização das abordagens em antropologia e filosofia tomam o homem já como conversando e pensando, ou seja, como ser social, como se tivesse nascido em sociedades estatais. Situações que são pontos de chegada, e particulares, são tomadas como ponto de partida e universais. Daí para diante tudo que resta para se escapar de um cartesianismo esdrúxulo, com ponto de partida em um ego solitário e pré-social, é um habermasianismo que cai de joelhos diante do altar da ficção barata da intersubjetividade.

Isso não é a mesma coisa que eu tenho dito. Mas quase. Tenho afirmado que a politização de tudo é estúpida por esses motivos postos por Sloterdijk, mas por outros mais.

Sei perfeitamente que nenhuma sociedade tribal, que nem formou estado, pode ter política simplesmente porque alguns enxergam ali a existência de “macro” ou “micro” poder. Que uns possam fazer algo e outros não e, então, ao vermos isso, teimemos em dizer que estamos diante do homem fazendo tudo politicamente, qualificando-o como zoon politikon, é alguma coisa que não diz nada do homem. Só confunde. Mesmo que possamos definir política não a partir da polis, mas a partir do poder, politizar tudo e, depois, achar que o homem que é politizado, que ao ter consciência política tem algum saber especial por isso, é uma imensa tolice. Agrupa frases, mas explica pouco o homem.

Vamos para um dado, só para pensarmos um pouco melhor. Vamos lembrar aqui de Schopenhauer.

Não há nenhuma relação de poder na obra de arte. E a tal arte engajada nem sempre nos dá MONA LISA PAGA PEITINHOalguma coisa que é arte. Schopenhauer estava correto ao dizer que a arte tinha a função moral de nos tirar do mundo, de nos tirar da própria moral e da ética. Ele autonomizou o belo como elemento estético kantianamente (o juízo do belo é o juízo sem conceito), para poder encontrar uma saída do mundo para aqueles que, porventura, não quisessem participar do que ele criou como metafísica do mal ou “metafísica da vontade”, inerente ao mundo. Assim funciona o schopenhaueriano: não quero nada, porque se puder querer algo, só vou querer algo que tenha alguma faceta má. Então, saio em busca do prazer estético enquanto aquilo que é puramente estético, puramente o belo, e me desvencilho assim da moral e, desse modo, da política. Escapo do pecado que é participar do mundo. Ainda que isso seja uma utopia individual da filosofia de Schopenhauer e, como utopia, inalcançável, é uma saída para se entender que nem tudo é político. Ao menos como utopia, eu escapo de julgamentos e do poder (e do não poder).

Mas nem é necessário tanto. Esferas de atuação e valor que ganham autonomia e que, assim fazendo, caracterizam o mundo moderno segundo Weber, já bastam para que possamos entender que a hiperpolitização ou mesmo qualquer politização é alguma coisa que não deveria nos deixar cair na frase errada “tudo é político”. A esfera da política não necessariamente contamina outras esferas de modo imediato e inexorável, mesmo em sociedades em que o estado e as relações de poder pareçam entrar pelos poros. Explico.

Será que ao olhar para uma bela mulher eu tenha de desejar possuí-la e submete-la para que ela seja bela, para que eu a veja bela? Será que se ela não fosse mulher, ou seja, não carregasse nas costas anos de subserviência eu não a acharia bela? Será que não estando ela na condição antropológica que está, isto é, a de quem nunca irá (ou iria) se libertar de ser “o segundo sexo” eu ainda a acharia bela? Não haveria chance de minha expressão “ah, que bela” estar isenta de várias expressões anteriores, que eu não disse e não pensei, do tipo “alguma homem a possuiu e a dominou, e se ninguém assim fez, alguém fez com Eva, sua mãe distante”? Não? Duvido.

Vamos então para alguma coisa mais bela que a bela mulher: Monalisa. O que quero de Monalisa? Quero alguma coisa? Penso alguma coisa? Sou capaz de pensar que há algo de poder em um inconsciente meu, e que isso me faz admirá-la? Qual relação política há entre eu e Monalisa? Tudo é político? Aqui? Não! É preciso estar completamente bêbado para dizer que nesse caso há algo político. Não há. O estético se coloca aí por ele mesmo. Se aparece algo político aí, surge pela total deseducação dos sentidos. Quando não podemos apreciar o que há nas “esferas de valor” que se autonomizaram na modernidade, isso se deve à nossa condição red neck, não ao objeto apreciável.

A filosofia também tem autonomia em relação à política, ainda que Platão a tenha inventado, como que a conhecemos hoje, como uma narrativa que surgiu para resolver um problema político, o de encontrar a justiça para que a cidade justa permanecesse justa a despeito dos homens serem, por eles mesmos, talvez injustos. Mas, o certo é que Platão, no decorrer dessa investigação, que tem no centro A República, escreveu mais coisas, escreveu sobre Sócrates e escreveu sobre o seu próprio fracasso. Em determinados momentos teve de trabalhar com elementos já tão distantes da preocupação com a justiça, que alguns, não sabendo do seu problema inicial, talvez nunca tivessem conseguido imaginar que ele, Platão, fez filosofia por querer fazer política.

Banalizamos tudo quando falamos “tudo é política”. Mas mais que banalizar, tornamos tudo com cheiro de esterco quando, a partir daí, achamos que podemos ler o que lemos ou escutar tudo a partir de “esquerda” e “direita”. É possível sim escrever um livro sobre a Tragédia, como um marxista fez, em que ele toma o objeto de estudo sempre a partir das expressões “a esquerda abordava isso assim e assado”, “já a direita abordava isso assim e assado”. Nem sempre isso é errado. Podemos falar do Pica Pau a partir de uma visão de esquerda! Mas seria ridículo achar que fazer isso é uma abordagem mais digna do que qualquer outra ou mais inteligente. Além disso, há de se admitir, há objetos, como o caso da Monalisa, que uma abordagem “de direita” ou “de esquerda” não vale nada.

O ensino escolar brasileiro tinha como função exatamente tornar as pessoas não politizadas. Era um ensino para o pluralismo de abordagens segundo a weberiana “autonomização das esferas de valor”. Antes disso, toda abordagem era religiosa. A religião era a concepção de mundo que dava sentido a tudo. Quando veio a autonomia das esferas de valor, deixamos de precisar de uma nova capa para englobar tudo. A política como tal capa nunca foi necessária, nem possível.

2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo



[1] [ 2001] Sloterdijk, P. Neither sun nor death. Los Angeles: Semiotext(e), 2011, p. 185.

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17 Responses “Da besteira da frase “tudo é político””

  1. Denise
    07/07/2016 at 16:28

    “A vontade como caos só tem um oponente: o olhar estético, a arte, a retirada da vida.”… Nooooossa, professor Paulo. Essa frase é sua? Isso é uma pérola especialíssima. Parabéns. Assine-a! Dê-se o crédito! ….”A vontade como caos só tem um oponente: o olhar estético, a arte, a retirada da vida.” Paulo Ghiraldelli…. Um abraço com admiração e respeito.

    • 07/07/2016 at 16:29

      Denise, minha é, mas nada além da interpretação de Schopenhauer.

  2. Thiago
    07/07/2016 at 15:12

    Professor, saindo do assunto do texto (que eu concordo plenamente sem ressalvas): você disse num comentário que “Vontade em Schopenhauer é apenas caos, se opõe à razão, e é princípio metafísico, não cosmológico.”, seria absurdo refletir que de certa forma o PT se entregou à Vontade de Schopenhauer?

    • 07/07/2016 at 15:37

      Thiago, a vontade como caos só tem um oponente: o olhar estético, a arte, a retirada da vida.

  3. Thiago Carvalho
    07/07/2016 at 11:31

    ´Parabéns. Depois deste texto acho no “tudo é política” uma tolice de mulherzinha querendo esquentar a chota!

  4. José Delfim dos Santos Pereira
    06/03/2014 at 18:43

    Muito interessante sua analise. Pensar tudo por meio de uma via politica é limitar as possibilidades de se abordar o homem quanto sua complexidade. O poder existe porém não determina todas as relações humanas, pensar assim cria uma carapaça aprioristica capaz de impedir um individuo de apreciar todos os demais sentidos por meio dos quais o homem representa e interage com a realidade. Reduzir o fascinio pelo belo que existe numa obra de arte como você exemplificou perfeitamente ou mesmo em uma obra literaria que possui aquele “fulgor do real” ao qual se referia Barthes como algo apenas politico é reduzir toda a Cosmologia que cerca as diversas formas de organização humana à apenas um unico elemento, que ainda que essencial, não se faz capaz de dizer tudo sobre a humanidade.

    • 06/03/2014 at 20:31

      José, o que falo aí é o óbvio. É fantástico que tenha de escrever isso né? Todo mundo que é não é idiota sabe isso.

  5. Mario Luis
    05/03/2014 at 23:03

    A vontade de viver em Schopenhauer, que é o manifestar-se da vida na representação, a meu ver é análoga à vontade de potência em Nietzsche , esse impulso primordial, no que concerne à ausência de causação racional. E o que se quer é esse ápice de potência.
    Falei da lousa como metáfora para uma autoreferência, apenas. Não discordo do teu texto. Muito pelo contrário. Apenas comento que sair da órbita política exige algo que para nossa sociedade atual se aproxima da transvaloração que apontei acima.
    Mas a questão se vincula a outras…

    • 06/03/2014 at 00:31

      Nope Mário, não tem nada a ver vontade em Schopenhauer e Nietzsche. Há inspiração de Nietzsche em Schopenhauer, mas as coisas tomam um rumo distinto, muito distinto que acaba sendo erro fazer links aí.

  6. Mario Luis
    05/03/2014 at 22:23

    Existem, a meu ver, diversas formas de uma lida não política da realidade. O exemplo de Schopenhauer foi bastante feliz. Positivamente ilustrou a relação da contemplação da obra de arte, a obstaculização da “vontade” ( como em “O mundo como vontade e representação”) a partir do qual Nietzsche apropriou, a princípio a “vontade” voltada para arte especificamente e depois para uma condição intrínseca do Homem, como “vontade de poder”. Eis aí o ponto nodal, quando, privilegiando os instintos e alocando a consciência como órgão de comunicação apenas, diferenciando o Übermensch para o homem assim como o Homem está para o macaco, transvalorou-se e então tornou-se não político.
    Mas o que estamos fazendo é outra coisa, estamos escrevendo na lousa: “Essa frase é falsa”, entende?

    • 05/03/2014 at 22:29

      Mario Luis, alvez você esteja fazendo isso de escrever na lousa, eu não. Lendo meu texto sem tanta coisa na cabeça, perceberá que não. Agora, sobre a maneira como fala de Nietzsche, aí não posso ir junto. A vontade de potência pouco tem a ver com a vontade de Shopenhauer. Vontade de potência é vontade de potência, pode ser um princípio cosmológico e, para alguns, uma metafísica. Mas não é vontade. É vontade de potência. É querer ser mais. Vontade em Schopenhauer é apenas caos, se opõe à razão, e é princípio metafísico, não cosmmológico. Não se trata de um querer e muito menos um querer mais. É apenas uma força desmedida que se opõe ao sistema de Hegel, que vê com elemento central a razão. Bem, voltando ao tema da política. O que escrevi é tão simples e tão corriqueiro que todo mundo sabe o que é. Gente inteligente não precisaria disso tudo para entender. Escrevi desta vez em termos filosóficos porque me pediram. Mas todo cara inteligente sabe que a politização não é um saber e, sim, uma sabedoria de quem sabe regras de trânsito. Não mais. Serve no trânsito. Não mais.

  7. Mario Luis
    05/03/2014 at 21:53

    Caro professor,
    Concordo que nem tudo é político. Isso não é difícil de entender. Contudo persevero no viés calcado na Teoria do Estado, a qual aponta o caráter normativo do Estado, e nesse aspecto, devemos buscar seu conceito fundamental.
    Não há como dissociar Estado de Política salvo se pretendemos, como há luz da Sociologia de Comte, abarcar na Ciência Política toda e qualquer ciência social.
    Nesse aspecto, a pura aplicabilidade do estudo normativo oriundo das tendências dos fenômenos sociais não reflete, a meu ver, a integralidade daquele conceito.
    Mais ainda, tentar estabelecer uma concepção da realidade humana por dados mediados, como algo “a priori”, como filtro do entendimento, é um grande equívoco.
    O que eu quis dizer em meu comentário é que não dá para, a partir de premissas políticas, desconstruir o conceito de política. Tal tipo de paralogismo é comum de ser visto quando se pretende suprimir o Estado ou ainda hipertrofiá-lo.

    • 05/03/2014 at 21:59

      Mário Luis, mas mesmo eu usando de exemplos, não consegui ser entendido por você. Por quê?

  8. Valmi Pessanha Pacheco
    05/03/2014 at 13:10

    PAULO:
    Nosso idioma Português, embora rico possui cerca de 250 mil verbetes. Ao passo que o Inglês. aproximadamente 1 milhão.
    Nele percebe-se a diferença entre Policy (Estratégias para o desenvolvimento e crescimento de uma nação) e Politics (a atividade político-partidária). Ambas respeitáveis quando exercidas com Ética. Lamentavelmente os termos confundem-se na nossa lingua. Creio que aí está a banalização a que voce se refere.
    Atenciosamente.
    Valmi Pessanha

    • 05/03/2014 at 13:50

      Valmi, não necessariamente, no que falo, mas que a pesquisa semântica e regional que você aponta vale uma pesquisa e um texto, valem mesmo.

  9. Mario Luis
    04/03/2014 at 22:44

    Bem, vejo que o professor levantou um grande problema: Se por um lado o fenômeno da politização a priori destitui o caráter multifacetado da interpretação do real, suprimindo aspectos essenciais na formação do indivíduo, e portanto da sociedade, por outro não observamos a ênfase no conjunto de conhecimentos que pode remeter o Homem ao modo de viver não político. Contrario sensu, não vejo ser de bom alvitre desprezar a consideração de que o bem do Estado difere em muito do bem do indivíduo; Esquecer-se de que uma suposta antítese é atribuída à política, ao menos no que concerne à moral e suas relações, é um erro o qual, ao meu ver, persegue o mesmo caminho daqueles que anteveem um fim (teleológico, inclusive), para o próprio Estado, partindo de uma premissa puramente política.

    • 05/03/2014 at 11:36

      Mario Luis, nem tudo é político, aprenda isso. Não é difícil. Você não consegue? Leia de novo.

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Filósofo