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19/06/2018

D. Quixote de La Mancha na sociedade do tempo livre


Tempo livre – você curtindo ao máximo!

É dos sonhos de Karl Marx aquela fantástica imagem do homem quase em situação paradisíaca: livre do trabalho árduo, por meio de um arranjo racional da sociedade e de uma alta tecnologia, o homem poderia dedicar-se às atividades prazerosas da pescaria, da pintura, da leitura tanto de dia quanto de noite. Atualmente há mais gente acreditando em Marx do que em qualquer outra época. Mesmo sem qualquer vínculo com o marxismo, não vemos como milagre que nossas tarefas mais pesadas possam ser diminuídas, e que a cada ano que passa há uma tendência mundial de baixar o número de horas de trabalho em função do aumento do tempo-livre, ainda que enormes bolsões de trabalho escravo ou quase existam por aí. O paraíso parece estar ali no horizonte próximo.

Muita gente hoje tem mais tempo livre que outros de condição social semelhante no passado, e há também um mais um sonho no horizonte, vindo do Iluminismo, que se realiza: cada um de nós está em um mundo mais livre, com capacidade de escolhas e decisões jamais alcançadas por outros do passado. De certo modo é como se a figura do sujeito moderno tivesse escolhido os nossos tempos para se tornar verdade.

Nunca fomos tão ativos e ativistas como hoje. Nunca fomos tão participantes e participativos como agora. Nunca tivemos tanto tempo livre para curtirmos e decidirmos o que curtir. Nosso mundo ocidental aumentou consideravelmente a infância e a juventude, a fase do não-trabalho. Ampliou tempo livre para os adultos e, mesmo para os que trabalham, criou situações lúdicas interacionistas que parecem fazer de nossas vidas quase que um piquenique.

Todavia, essa nossa condição moderna, com todas essas aparências, não é a de piquenique. Talvez não estejamos mais aptos para nos servir da figura do Ulisses neurótico e melancólico, para nos explicar, como fizeram os frankfurtianos. Pode ser que a figura do sujeito moderno que mais nos explique, hoje, seja a de D. Quixote, de modo que a subjetividade modelar de nossos dias seja a dupla formada por ele e seu escudeiro, Sancho Pança. Caso optemos por levar essa sugestão a sério, poderíamos dizer, junto com Sloterdijk, que a figura do homem moderno é antes a do histérico do que a do neurótico obsessivo.

Ulisses se fez homem moderno, sujeito, na repressão de seus instintos. Foi perdendo prazer e exercendo cada vez mais sua habilidade de cálculo que ele moldou a razão moderna, interior ao burguês proprietário, o protótipo do sujeito moderno. Não podendo fazer o luto dessas perdas dentro de si mesmo, tornou-se ao final um abnegado do sangue e da limpeza pela violência.

Podemos ver o homem moderno assim, quase como um proto-fascista, da maneira que Adorno e Horkheimer o desenharam?

Caso tenhamos de notar que o paraíso tem a ver conosco atualmente, que não é algo a ser desconsiderado, então seria melhor escolher uma figura menos reprimida que Ulisses para nos representar. Estamos numa época de extravagâncias e de fim da privacidade. Falamos, gesticulamos e aparecemos. Vamos de joguinho em joguinho, de selfie em selfie, de gincana em gincana, de mini-celebridades para mini-celebridades de facebook. Isso somos nós. Somos altamente criativos no sentido da histeria de D. Quixote. Criamos e recriamos nossa aventura que é, enfim, uma falsa aventura. Essa histeria tem a ver conosco. Somos modernos, somos sujeitos, no modelo do montador de Rocinante.

Nesse mundo em que temos mais tempo livre, o que fazemos? Será que distinguimos o tempo livre do tempo do trabalho? Ou será que ambos adquiriram uma certa homogeneidade altamente realista e, por isso mesmo, surrealista, como na aventura histérica quixotesca?

Deveríamos trabalhar na hora do trabalho e curtir o lazer na hora do lazer. Mas, podemosver-dom-quixote-o-film-300x170 fazer isso? Sim, caso a hora do trabalho implicasse trabalho com finalidade real, e o lazer como diversão real. Mas, o trabalho, já faz algum tempo, nada tem a ver conosco. Não digo isso por conta das questões de alienação, como foram postas pela tríade Rousseau-Hegel-Marx. Digo isso por conta de que nosso trabalho é trabalho competitivo em sua essência, mas nenhuma competição está acontecendo ou pode acontecer. Em um mundo onde as empresas são monopólios, e a competição nada é senão casas do mesmo dono, ninguém de fato precisa do trabalho diferente, do trabalhador inteligente e criativo. Mas não podemos dizer isso para todos. Temos de mantê-los ocupados e se achando como que educados para a criatividade. Então, o melhor é ver todos como D. Quixotes, altamente criativos, sim, mas em aventuras que não acontecem, ainda que, de vez em quando, existam surras reais para se levar e ladrões para ajudar sem querer. Nas democracias ocidentais apanhamos na rua e votamos em políticos, afinal!

Desse modo, o sujeito moderno é aquele que precisa se autodesinibir para passar da teoria à prática, agir e decidir – isso é certo. Mas, não tendo nenhum elemento em seu interior, forjado pela preparação real, ou algo que efetivamente possa valer, ele é deslocado para se aconselhar, para pedir ajuda, para consultar o… consultor. Nem mais é o ideólogo ou guru que ele busca, é o mero consultor mesmo. A figura do homem do entretenimento, modelo tirado da TV e vestido de especialista em gincana, ou então a própria máquina, os Ipods da vida.

Assim, no trabalho e no lazer o que se faz é simular a vida, empanturrando-se de jogos. Há jogos para ampliar a produtividade, há jogos dados pela auto-ajuda para viver bem, fazer sexo bem e se relacionar bem no trabalho. Há jogos para brincar de deus e brincar de fiéis, em preços variados. Há jogos que levam a jogos, num cumprir de metas aleatórias postas pelos descendentes de Mario Brós, Sílvio Santos, G. W. Bush e Cicciolina.

Nisso, pensar no modelo do melancólico Ulisses serve pouco. O modelo do agitado e fantástico De la Mancha é mais propício. Ser moderno em uma modernidade tardia, como a que vivemos, é estar somente com o tolo Sancho Pança como o que nos liga ao empírico, à Terra. Afinal, a Terra não precisa de nós. Tudo funciona sem nós. Temos tudo para estar no sonho de Marx, mas como pesadelo.

Boas férias, ou melhor, bom trabalho, ou boas … ah, sabe-se lá o que você está vivendo. Tudo existe se você estiver montado no seu Ipod Rocinante, mesmo quando montado em sua mulher, ou em seu homem. Ou em seu bofe.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo.

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15 Responses “D. Quixote de La Mancha na sociedade do tempo livre”

  1. João Pedro
    05/08/2014 at 11:17

    Na sociedade atual, o nosso lazer não está se aproximando do trabalho e vice-versa? Pois ele está cada vez mais menos criativo e livre, se tornando uma obrigação? Pois hoje o “baladeiro” nem se compara com o boêmio de antigamente, que fazia a festa como e onde quisesse, mas mais parecido com o lunático da academia, preocupado com autoestima e felicidade. Quanto ao trabalho cresce a exigência de que ele deve ser divertido, leve de algum jeito, exemplo são os meninos do Google.
    Não sei se disse alguma bobagem ou acrescentei nada a discussão, mas o senhor concorda comigo?

    • 05/08/2014 at 11:49

      João Pedro! O meu texto é auto suficiente, acho. Dá uma olhada novamente e compara com sua perspectiva.

  2. 04/08/2014 at 23:24

    O principal problema do homem moderno é que a pergunta ”o que é o homem?” só é feita em pequenos grupinhos intelecto-filosóficos. Na pratica mesmo a pergunta que angustia é: ”como posso ser homem?” e a resposta todos nós sabemos: “ganhando dinheiro”. Infelizmente é isso em suma.

    • 05/08/2014 at 02:13

      Rodrigo! A pergunta “o que é o homem?” não é feita. Ela pertence ao século XVIII. No século XIX ela já não mais era colocada na filosofia.

    • Hayek
      05/08/2014 at 11:05

      Não entendi professor. Como assim no século 19 não se perguntava sobre o ser do homem? Caso seja um pouco complicado, poderia indicar algum livro?

    • 05/08/2014 at 11:52

      Hayek é como no caso das estrelas: recebemos as luz de muitas delas, mas elas já estão apagadas há milhares de anos. Livro? Bem: A aventura da filosofia, dois volumes, da Manole.

    • Hayek
      05/08/2014 at 11:20

      Como assim no século 19 não se fazia a pergunta sobre “o que é o homem?”. Isso porque eles acreditavam que ele não podia ser ou porque eles estavam focados em outras perguntas?

    • 05/08/2014 at 11:48

      Hayek no século XIX só os que sobraram na lateral da filosofia faziam essa pergunta. Mas Nietzsche, Marx (no final) e Dewey não mais.

  3. Roberto William
    04/08/2014 at 18:35

    “Criamos e recriamos nossa aventura que é, enfim, uma falsa aventura.” Falando em “falsa”, “aventura” e também “facebook”, hoje eu vi no programa da Fátima Bernardes uma entrevista com o criador de um site, que presta serviços mandando mensagens românticas para o cliente. Assim, se você paga x reais recebe y comentários de uma falsa ficante ou namorada. Pagando 150 reais, por exemplo, recebe 5 comentários de uma falsa namorada “top”. O mesmo vale pra as mulheres, que são as maiores consumidoras desse tipo de serviço. “Parecer” é mais relevante que “ser”.

    • 04/08/2014 at 23:03

      Não Roberto, parecer é ser.

    • Roberto William
      05/08/2014 at 03:17

      Talvez algum filósofo, esqueci quem, já tenha dito isso. De qualquer forma o que você disse explica a atitude dessas consumidoras. Você acha esquisita o consumo do tipo de serviço mencionado acima? Se parecer é ser, então eu sou desejado caso eu aparento sê-lo.

    • 05/08/2014 at 11:55

      Roberto, a divisão ser e parecer não é boa. O senso comum a utiliza, mas o filósofo tem problemas filosóficos e prefere evitá-la.

    • vera bosco
      05/08/2014 at 09:20

      Em busca do pertencimento no mundo o ser exibe sua aparência aceitável pela maioria dos expectadores para confirmar sua existência.

    • 05/08/2014 at 11:54

      É fácil dizer isso, Vera. Mas não é conveniente, pois isso nos coloca num dilema filosófico ruim. É melhor dizermos que somos o que somos, dentro de parâmetros de várias perspectivas, e não que há de um lado o real e de outro o enganoso.

    • RAMBO
      05/08/2014 at 11:24

      Afff…Aonde vamos parar? Já caímos do precipício e ainda não conseguimos ver o fundo.

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