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13/11/2019

A cultura do estupro


Nada mais masculino que a pederastia tradicional grega[1]. Era símbolo da virilidade além de ser uma instituição educacional bem em harmonia com a paideia. Por isso mesmo, as relações corporais, se existissem nesse contexto, eram de preferência frontais, e raramente com penetração. O aconselhamento, certamente nem sempre seguido, era o de não colocar o jovem “de quatro”. Por quê?

Essa era uma posição na qual se colocavam as mulheres. Ora, por que não se afeminar? Por uma questão da dicotomia cultura-natureza. As mulheres estavam próximas da natureza, eternamente presas à condição não cultural pela ligação entre o coito e a maternidade, a produção de filhos. O homem não é deus, é mortal, mas deve se aproximar dos deuses pela cultura, pelo espírito, deve se distanciar da natureza, da vida animal. Assim, o masculinismo se opôs a qualquer atividade efeminada na Grécia antiga e por decorrência à posição sexual feminina ou animal.

Pode-se tirar daí uma lição: dobrar o outro “de quatro” e usar do pênis para submetê-lo não era um ato de selvageria bestial na Grécia antiga. Tanto é que uma mulher não grega, uma estrangeira, podia ser estuprada na cidade sem que a lei a protegesse. No entanto, colocar o mortal humano na submissão da posição sexual tipicamente feminina ou animal era pô-lo no caminho “de volta”, ou seja, devolvê-lo à prisão da natureza. Era fazê-lo escravo não pela posição sexual ou por leis, mas por ensiná-lo que ele é igual à mulher, ou seja, o animal, o não imitável. Um animal não pode ter amor sem ter filhos. Esse era o problema da mulher no mundo antigo civilizado e culto. Aliás, diga-se de passagem, Eros era um deus dos homens. Alcibíades usava seu símbolo em seu escudo. Aos homens era facultado o amor, às mulheres, por compleição da vida mesma, era destinada a condição de produtora e reprodutora de pequenos animais que poderiam virar gente (não à toa, para se diferenciar e se mostrar fundador de uma nova filosofia, Sócrates nunca disse ter tido mestre homens, só mulheres – ele queria causar a estranheza que de fato causou).

Todos nós somos herdeiros dessa cultura antiga. Podemos explicar a questão do culto ao estupro, vigente na mentalidade do mundo ocidental (no oriental ela não está na mentalidade, está no pensamento vigente e aberto), por Freud e outras sofisticações corretas, mas nenhuma explicação pode desconsiderar esse pensamento grego, já bem elaborado, no qual o ato sexual, dependendo de sua execução, poderia implicar em uma simbologia nada recomendável.

A mentalidade do estupro está em nós, por herança cultural. O estupro é uma falta horrível e ao mesmo tempo um símbolo de superioridade, e não dos menores. Quando o Ocidente se viu relativamente livre da prática do estupro legalizada, surgiu então a possibilidade de relaxamento de costumes, no sentido de Norbert Elias.[2] Foi quando começamos a fazer piada do estupro. Surgiu assim a máxima, até utilizada por uma feminista brasileira publicamente: “relaxa e goza”. Todos nós sabemos que boa parte das mulheres (e muitos homens) gosta de ser possuída na imitação do estupro ou gosta de sonhar com o estupro violento. Há mulheres e homens que só gozam quando pensam em estupro. Alguns só com a violência propriamente dita. Há quem até se aproveite disso para o marketing de roupas! Pode-se então entender intelectualmente, ainda que sem aceitar, é claro, o político que diz “estupra, mas não mata” ou coisa parecida.  Mas há aí algo objetivo, ao menos hoje em dia há um problema bem delimitado.

O problema objetivo é que o mecanismo simbólico de poder, que é o colocar de quatro e submeter o outro (à força) à vida presa na natureza, não é alguma coisa, entre nós, do âmbito do discurso permitido pelo “relaxamento de costumes” em grau civilizatório alto, notado por Elias. No contexto de confronto entre Ocidente e Oriente sim, estamos na frente: nós punimos severamente estupradores e os condenamos moralmente de modo severo, enquanto que o Oriente deixa a desejar. Nós tornamos ilegal o estupro. Todavia, não o erradicamos. Então, o “relaxamento de costumes” que proporcionaria a conversa sobre o assunto de um modo despreocupado parece não ser ainda possível. Ou seja, a piada e o mero destempero verbal não soam como piada e como apenas destempero verbal em uma sociedade em que o estupro é conceito, não ainda pós-conceito.

Vivemos numa sociedade em que estupro (assim como a homofobia associada até à violência física) está sendo antes redescoberto que descoberto. É isso que devemos notar.

Houve o tempo em que o estupro foi descoberto, digamos assim. Então, foi colocado na semi-legalidade, na ilegalidade, e deixou de ser uma questão da honra e da vingança. Enquanto pertenceu a um tal mundo da honra, o estupro da irmã era apenas justiçado com o estupro da mãe ou irmã ou esposa do outro.  Mas, no estado de direito liberal e moderno, o estupro foi posto na berlinda em qualquer sentido. Desapareceu? Não! Por quê? Aí está o segredo de Polichinelo.

Por ser praticado na sua maioria pelas pessoas próximas, e não por pessoas distantes da família da mulher, ele não desapareceu. Ele ficou em surdina. Ele tem aumentado – ou ao menos agora a denúncia mais fácil tem feito a cabeça do monstro sair da toca. O feminismo tem ajudado a redescobri-lo. Outras forças sociais têm gritado coisas do tipo: “êpa, diga para o senhor sociólogo Norbert Elias que não dá para fazer piada (ainda) sobre o estupro, porque ele é uma realidade vigente e, na mesa do bar, a piada pode estar atingindo muita gente calada, ali mesmo”. Nessa hora, há o confronto entre o uso do chiste e o destempero verbal, de um lado, e de outro a prática real incrustrada na cabeça de muita gente, que sofreu ou que tem medo de sofrer. Essa é a pior hora para a sociedade, é a hora mais conflituosa. Pois é a hora da conversa entre perspectivas emocionais bem diferentes. Essa é a hora que estamos vivendo. Estamos vivendo o ponto crítico, e por isso aparece o chamado “politicamente correto”, que os intelectuais conservadores condenam por não entenderem esse contexto que estou aqui expondo. Aliás, não querem entender!

Para muitos homens e também mulheres o “você não merece nem um estupro!” é um chiste ou um xingamento do tipo “sua gorda!”. Pode ser também algo como “sua vagabunda”, coisa que toda mulher diz que não gosta de falar ou ouvir, mas que pronuncia quando vê o marido com outra (nós falamos coisas que condenamos na boca do outro, sim, sim! É normal ser hipócrita). Mas, uma vez que a prática do estupro não desapareceu, e que está longe de desaparecer, as ofensas estão circulando em corações que não sabemos quais são, que não vimos, e que estão bem próximos de nós. Temos irmãs e mães estupradas e não sabemos. Temos filhas estupradas e não sabemos. Nem queremos saber. Não raro, não queremos saber até por motivos horrendos! Na mesa do jantar todos nós brincamos com a feminista brasileira que adorou usar, já fora de moda, o “relaxa e goza”. Nessa hora, até a estuprada ali quieta, nossa tia, se cala e aprende ou reaprende a rir. Deve rir. Algumas sofrem nesse aprendizado, outras se acostumam. Milhares de domésticas se acostumaram a tudo antes de se tornarem diaristas. Aliás, se acostumaram ao estupro duplo: o da casa do patrão e o da própria casa. Não teve até aquele senador conservador que disse que na escravidão as negras adoravam se deitar com os senhores?

Denunciar estupros, então, em uma sociedade assim, se torna quase que uma coqueluche, um tipo de catarse. Precisamos denunciar, sabemos disso, mas temos às vezes um prazer mórbido em denunciar o mundo todo que não faz nosso “tipo”, e não o estuprador verificado como estuprador. Temos vontade de gritar para todos: “estupradores”. Aliás, não raro, queremos denunciar o estuprador pobre por meio da fala do vingador rico, de gravata e colarinho – ou de farda! Queremos inclusive morte ou castração ao estuprador, mesmo que saibamos que ele está em casa! O nosso filho é sempre criança, o do outro, é “marmanjo estuprador”. Caso seja negro, então, nem se fale!

Precisamos condenar alguém por um estupro não-familiar, porque o familiar é o que sabemos que existe e o que preenche as estatísticas – verdadeiramente. A maldade entre familiares os programas policiais e de outros vampiros anunciam, pois são entre pobres. Pobre é catarse para todo mundo.  A família deles aparece aberta, todos a abrem. Quando não é a TV é a polícia militar. Cata-se ali pedófilos e estupradores aos montes. Os fascistas chegam a ter orgasmos múltiplos com isso.

O fato objetivo do estupro no Ocidente, no entanto, tem um agravamento – e este passa batido. Poucos o enfrentam. Ainda há em várias corporações a prática do estupro como elemento chave de educação. Os quarteis se aproveitam de uma homossexualidade reprimida para cultivá-lo. Nas prisões o estupro é uma instituição. Na guerra ele é o prêmio do vencedor. Na vida conjugal ele funciona como que um direito. Essas práticas precisam ser banidas e as feministas e a sociedade civilizada devem mesmo tentar dizer para todos: “até a piada pode, nesse momento de transição, ser um mal”. Todavia, estamos patinando nesse problema do discernimento. Não estamos conseguindo certa ponderação nisso tudo. Estamos nos confundindo ainda com o problema da sociedade da honra, queremos ainda pagar estupro da mulher nossa com o estupro da mãe do outro.

Aí entra o filósofo: o homem educado para tentar o discernimento. Ele consegue ajudar, mesmo metido nisso tudo? Ver quem é violento por várias razões e quem é fascista e puni-los por todas essas razões é algo mais que necessário – isso é maior que a questão do estupro. O fascismo é um perigo em si mesmo, o culto ao estupro que ele promove é até secundário. Discernir quem disse o que se conta que disse é também fundamental. Pois a mentira, nesses casos, é a pior coisa do mundo! Sim! O roqueiro brasileiro que passou anos na geladeira por acusação de estupro, e que hoje faz ponta em programa noturno, que o diga! (infelizmente o seu parceiro de trabalho não se lembra disso, era menino, talvez não saiba). O discernimento principal é notar de onde se disse o que efetivamente se disse.

Há lugares privilegiados na sociedade que não correspondem à mesa do bar ou ao facebook que, por sinal, não possui responsabilidade adequada. Uma coisa é alguém gritar “fogo” numa rua ampla e outra coisa é alguém gritar “fogo” num cinema lotado de crianças e adultos, como poucas portas de saída. Uma coisa é o motorista de ônibus dizer que haverá inflação, outra coisa é o presidente do Banco Central vir à TV e dizer vai haver inflação. A fala do motorista é nada, a do executivo é uma catástrofe. Estamos em um Brasil em que o discernimento não serve, pois o embate ideológico protege todos de seus pecados noturnos.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

[1] A pederastia socrática foi uma subversão desta. Ver o meu livro A filosofia como medicina da alma (Manole).

[2] Elias dá vários exemplos de relaxamento de costumes em sociedades civilizadas ao extremo, como por exemplo a nudez na praia etc. A sociedade se amortece e se educa, podendo então se permitir a fazer o que há pouco era proibido no sentido de educar a população.

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6 Responses “A cultura do estupro”

  1. ANDRE GONÇALVES DA SILVA
    02/07/2015 at 19:57

    Estupro e consentimento explicados em 7 ilustrações

    VEJA http://www.mestresabe.com/2015/07/estupro-e-consentimento-explicados-em-7.html

  2. João Pedro
    15/12/2014 at 11:13

    Uma pergunta paulo: vc é a favor da cassação do mandato do bolsonaro? É porque apareceu no seu perfil um post a respeito. Eu queria saber se não é de um hacker

    • 15/12/2014 at 11:29

      João Pedro eu sou filósofo, não político. Agora, eu respondo só pelo meu blog, meus livros e o Hora da Coruja. E olhe lá, pois meu blog também não é seguro, embora eu fique mais atento. Minha opinião sobre filosofia política está aí nos meus livros, blog etc.

  3. LMC
    12/12/2014 at 19:03

    PG,não só falando em
    estupro,mas os programas
    policiais também falam
    de crimes de classe
    média-alta:Suzane,Casal
    Nardoni,Dr.Roger,
    Promotor Igor,Pimenta
    Neves,Gil Rugai,Mizael,
    etc.Até canais de TV
    que não tem programas
    desse tipo falam também.

    • 12/12/2014 at 19:23

      lmc VOCÊ NÃO PEGOU A COISA. Quando vira caso policial aberto, aí é show mesmo.

    • Hayek
      15/12/2014 at 11:11

      É isso mesmo. Nos crimes da alta sociedade o caso se torna um show de tv. Também tem a diferença que os de pobre são a maioria que são mostrados.

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